quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Sobre a 'bandeira do Acre" no helicóptero do Estado e a desinformação proposital do Jornal "Juruá em Tempo"


Jornalismo que se presta a desinformar não é jornalismo, é canalhice já diria José Albex.
Talvez nem eu conheça a bandeira do Acre e nem o Ministério Público Federal que recomendou a retirada da estrela do helicóptero ...kskks..



Qual o cidadão que não sabe que na bandeira do Acre tem uma estrela vermelha? Tenha santa paciência


Acontece q a Estrela da bandeira do Acre tem proporções e tamanho estabelecidos em Lei. O desenho do helicóptero não é a bandeira do Acre. É um desenho, caricatura ou quem sabe um grafite inspirado na bandeira. Se não é a bandeira do Acre... elementar que seja retirada dele do bem público.

-  É óbvio que todos sabem que na bandeira do Acre existe uma estrela de cor vermelha. A questão é que a bandeira do Acre é um pavilhão cívico estadual com dimensões e proporções estabelecidas em lei. Se for alterada a cor da bandeira ou a proporção geométrica dela ou de algum componente dela, a bandeira perde o conteúdo distintivo de pavilhão cívico, virando apenas uma bandeira comum. No caso do helicóptero, o caso é pior, já que toda a geometria da bandeira foi alterada. Tudo para dar ênfase à ESTRELA. Essa ênfase pode ser ato artístico inocente? Até poderia, mas como foi paga com dinheiro público a mando da Frente Popular capitaneada pelo PT, só sendo muito destituído de malícia para achar que o projeto pictórico não tenha sido ideologizado.

O tal do Leandro demonstrou bem para q serve o jornalismo que ele pratica. Na matéria, tem desinformações com fins de auto prestígio e desabonamento o interlocutor, que sou eu.
Realmente ele não aprendeu o JUMENTÊS... foi correndo ao jornal jurua chorar suas lágrimas...



O PROFESSOR JUMENTO responde ao Leandro Lopes - Jornalista, escritor e motociclista amador.

Eu me dei ao trabalho de responder o motociclista amador Leandro Lopes, não pela ofensa que me fez, mas para servir-me do momento e esclarecer à opinião pública sobre a “estrela do PT” pintada no helicóptero do Estado.

Vou tentar ser bem claro, embora tema que o meu interlocutor, o Leandro Lopes, não me entenda, já que no alto de sua sapiência, provavelmente não deva estar muito acostumado com o “jumentês” (linguagem que é própria dos professores jumentos). No entanto, se o restante dos leitores entenderem, me darei por satisfeito.

Bandeira é um símbolo cívico milenar. No entanto, ficou mais evidente no período da criação dos Estados Nacionais já na "Era Moderna". Atualmente cada país tem uma bandeira e cada unidade federativa dele também.

As bandeiras são geralmente criadas por decretos que também regulamentam e define os distintivos delas, ou seja, as formas, as cores e as medidas.

O que faz a bandeira ser reconhecida como símbolo cívico são suas características distintivas estipuladas por lei. Se alguma cor, medida, forma, proporção e dimensão da bandeira for alterada, além de isso significar um “desrespeito cívico”, ainda desqualifica a bandeira como pavilhão.

Citemos da Lei 5700/71, que discrimina detalhadamente cada traço distintivo da Bandeira do Brasil, até mesmo a exata posição e o tamanho de cada estrela. Portanto, para ser reconhecida como Pavilhão Nacional a bandeira tem que seguir o padrão discriminado em lei, caso contrário, será só uma bandeira.



Em nosso caso, a Bandeira do Acre foi regulamentada pela Lei Estadual 1170/95, assinada pelo então governador Orleir Cameli.

Leia-se no Artigo 3, “Fica determinado como tamanho oficial da Bandeira Acreana o de 1,13m de altura por 1,61m de comprimento, e a devida estrela vermelha, no vértice superior do triângulo retângulo, de 30 cm de ponta a ponta”.

No § 2º do mesmo artigo temos: “Será permitida a confecção da Bandeira Acreana em dimensões maiores, menores ou intermediárias, conforme as condições de uso, mantidas, entretanto, as proporções descritas no art. 2º, III, "b" desta Lei”.

Portanto, para ser Bandeira do Acre, a bandeira deve seguir um “padrão” de cor, medida, forma, proporção e dimensão.
Caso contrário, sera apenas uma bandeira, ou o que é pior, uma ação desrespeitosa ao pavilhão estadual como a mesma lei prevê no Art. 12, leiamos:

“São consideradas manifestações de desrespeito à Bandeira Acreana, e portanto proibidas: [...] II - mudar-lhe a forma, as cores, as proporções ou acrescentar-lhe qualquer inscrição”.

Portanto, a pintura que está no helicóptero do Estado "Comandante João Donato" - NÃO É A BANDEIRA DO ACRE. Por que não segue as dimensões e proporções estabelecidas em lei.
Se não é a Bandeira do Acre é o quê? Sendo eu inocente, poderia dizer: é apenas uma pintura, caricatura ou um grafismo inspirado na Bandeira do Acre. Mas se eu não for tão inocente assim poderia dizer: há claramente uma inspiração ideológica por trás do projeto estilístico desse grafismo... que muito bem pode incorrer no Art. 12 já citado.

Em 2009, o próprio Ministério Público Federal, por meio do procurador Ricardo Gralha, recomendou ao Estado que refizesse a pintura do helicóptero. No entanto, a arrogância dos PTistas não deixaram com que acatassem a recomendação.
Portanto, afirmo que a pintura do helicóptero não é a bandeirar do Acre. PORTANTO, se o governador eleito achar oportuno, que mande refazer a pintura do helicóptero, tirando dele o grafismo publicitário da estrela do PT. Isso é até uma ação de respeito à memória ao tio dele que assinou Lei Estadual 1170/95.

Lembram da marca oficial do governo do estado durante a era “Binho”?

Também era um 'grafismo' da Bandeira do Acre com os dizeres “ACRE com todos e para todos”.

No dia do aniversário de 45 anos de elevação do Acre a categoria de Estado, a mesma manipulação ideológica com a bandeira do Acre foi feita.

A Assessoria de Imprensa do governo substituiu a bandeira do estado pelo grafismo que era marca do governo.

Ou seja, o POVO não estava levantando a bandeira do Acre e sim a marca governamental.

Por favor, compartilhem até que a postagem chegue até Leandro Lopes. Só para testar se ele sabe ou não a linguagem do "jumentês".

Para facilitar o nosso entendimento, basta pensar que não é a bandeira do Acre que está pintada no helicóptero. A bandeira do Acre tem outro formato baseado em lei. O que fizeram ali foi uma caricaturizaçao dela. Caricatura que tem um valor artístico que bem poderia ser apreciado caso não tivesse sido feito em um bem público em substituição ao símbolo cívico. Símbolo esse que tem formato e proporções estabelecidos em lei... a mesma lei tipifica como "ato desrespeitoso" alterar o formato original da bandeira.


A matéria do Juruá em Tempo pode ser lida aqui:
Sem conhecer a bandeira do Acre, professor passa vergonha

sábado, 21 de abril de 2018

O MITO DO TIRADENTES - 21 de abril (Prof. Dr. Eduardo Carneiro)



É licenciado em História (UFAC) e bacharel em Economia (UFAC). É mestre em Linguagem e Identidade (UFAC), doutor em História Social (USP), e acadêmico do Doutorado em  Estudos Linguísticos (UNESP). É Professor da UFAC, é vice-presidente da Academia Acreana de Letras, escritor, palestrante, editor de livros e poeta nas horas vagas.


Hoje é um Feriado Nacional, quais as suas primeiras impressões sobre isso?
Feriados são uma prática milenar. Desde a antiguidade, povos escolhem datas para se confraternizarem em culto aos deuses ou em honra a um fato ou pessoa que consideram importante. Os feriados tinham como objetivo tirar as pessoas da rotina diária habitual e focá-las no alvo do feriado. Não era igual ao que acontece no Brasil, em que os feriados estão despolitizados ao ponto de o povo considerá-los como dias de lazer. Não se dão conta do fato homenageado pelo feriado. No ano de 2018, o Brasil terá 9 feriados nacionais, 5 deles tem caráter religioso (Portaria Nº 468/2018), além de alguns pontos facultativos. A Índia, por exemplo, tem 18, e lidera o ranking. Os países com menos feriados são México, Hungria e Holanda com 7 a 8 feriados. O que significa dizer que a quantidade de feriados não tem nada a ver com a situação econômica do país, já que temos países pobres com poucos feriados e países ricos com muitos, como é o caso do japão, com 15.
Qual a relação entre feriados e festas cívicas?
Em um Estado Nacional laico era para os dois serem quase sinônimos, ou seja, cada feriado remeter a um acontecimento cívico considerado exemplar, ou seja, digno de imitação e de celebração coletiva. Esse era o projeto de calendário cívico republicano da Revolução Francesa. Nele, não havia espaço para datas religiosas ou lembranças de feitos memoráveis vinculados ao Antigo Regime ou à Monarquia. Tudo deveria fazer lembrar à República e os seus ideais liberais, constitucionais e racionalistas. Então, era de se esperar que em cada feriado nacional o Estado promovesse festas cívicas em comemoração ao motivo do tal feriado. Acontece que o conteúdo nacionalista dos Estados Nacionais contemporâneos está em franco declínio, e os governos já não dão mais tanta importância à promoção da identidade nacional, direção a qual todos os feriados cívicos deveriam apontar. Veja o conteúdo identitário dos feriados na própria justificativa do decreto que instituiu os feriados no Brasil: “considerando que o regime republicano baseia-se no profundo sentimento da fraternidade universal; que esse sentimento não se pode desenvolver convenientemente sem um sistema de festas publicas destinadas a comemorar a continuidade e a solidariedade de todas as gerações humanas; que cada pátria deve instituir tais festas, segundo os laços especiais que prendem os seus destinos aos destinos de todos os povos; Decreta: São considerados dias de festa nacional […]”. (Decreto nº 155-B, de 14 de Janeiro de 1890, grifo nosso).
O senhor falou em Feriado nacional, comemorações cívicas, identidade nacional e historia. O que isso tem a ver?
Tudo! Pois, o feriado nacional foi inventado para ser celebrado coletivamente por meio de comemorações cívicas. O Estado convoca o povo a memorar um acontecimento ou personalidade com alegria, forjando, assim, um espírito de irmandade e de comunhão coletiva em torno de um passado que se mostra único. O passado homenageado é mostrado como um acontecimento arquétipo, ou seja, um modelo identitário. O que caracteriza um Estado Nacional é justamente a preocupação em promover políticas simbólicas de fomentação à identidade nacional. As festas cívicas fazem parte dessas políticas simbólicas e a divulgação de um passado grandioso, digno, apoteótico, também. Por isso, as comemorações cívicas quase sempre honram um passado que só se tornou “fantástico” por ter sido alvo de manipulação embelezadora dos fatos.
Qual sua opinião sobre a história que conhecemos a respeito de Tiradentes?
Tiradentes foi um herói inventado pelos republicanos. Tanto ele quanto o 21 de abril fizeram parte de uma política simbólica identitária cujo objetivo era legitimar a nova ordem ainda carente de legitimação por meio da associação dela com a imagem de heróis. Portanto, operou-se a heroificação de Tiradentes para que o mesmo pudesse servir politicamente à nascente república como um “avatar”. Algo parecido com o que a Frente Popular do Acre fez com a figura do Chico Mendes. Aliás, todo grupo carente de tradição política quando assume o poder executivo faz uso abusivo de políticas culturais de comemorações cívicas e de invenções e louvores de supostos heróis. Assim foi feito na Revolução Francesa, assim foi feito na Revolução Russa, assim foi feito no Brasil a partir de 1964 com os militares.
Então, na sua opinião Tiradentes foi inventado como herói? 
Até 1889, Tiradentes era visto como um criminoso, um rebelde traidor, um membro do exército lusitano que conspirou contra a coroa portuguesa. A memória dele estava entregue ao esquecimento. Ele foi julgado e condenado e sentenciado à morte pelo regime monárquico, portanto, para os monarquistas, tratava-se de uma persona non grata. Ele, assim como a maioria dos heróis republicanos, foi inventado em “gabinete” e estabelecidos por decretos. Podemos explicar isso da seguinte forma: a República no Brasil foi uma ação de participação popular nula, sua proclamação deveu-se a um golpe militar antidemocrático dado em novembro de 1889 contra o Imperador D. Pedro II. Portanto, tratava-se de um movimento elitista sem qualquer legitimação popular, por conta disso, os republicanos trataram logo de criar uma atmosfera política comemorativa em que otimismo pudesse apaziguar o ânimo das resistências. Mas para isso, era preciso criar uma identidade entre o Brasil, o povo brasileiro e a República. Amalgamar todos em uma única figura, projetando uma união em torno dos ideais republicanos. Foi aí que a figura de Tiradentes foi ressuscitada para servir politicamente ao projeto de dominação republicana.
O senhor poderia explicar melhor?
Toda história de Tiradentes foi manipulada a fim de que servisse aos planos republicanos. Em 1890, o governo federal baixa um decreto estabelecendo as comemorações de festas cívicas em homenagens aos acontecimentos pátrios, dos quais figura o 21 de abril foi “consagrada á comemoração dos precursores da Independência brasileira, resumidos em Tiradentes” (Decreto nº 155-B, de 14 de Janeiro de 1890, grifo nosso). Interessante foi que em dezembro de 1930, Getúlio Vargas excluiu o 21 de abril como feriado nacional (Decreto nº 19.488). No entanto, em abril de 1933, o mesmo presidente revê a sua decisão e reestabelece o dia 21 de abril como feriado nacional. Como justificativa para a reinclusão disse: “dentre os feriados excluídos em 1930, o de 21 de abril era o de maior expressão histórica, por isso que fôra consagrado à memória dos precursores da República, simbolizados no mártir, alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes” (Decreto Nº 22.647, grifo nosso). Portanto, Tiradentes foi construído como heróis para servir como arquétipo de brasileiro republicano. Acontece que Tiradentes não era brasileiro, pois o Brasil só passou a existir enquanto país em 1822, com a independência.
Mas Tiradentes não foi um mártir da República brasileira?
Claro que não. Fizeram de Tirandentes um mártir da independência e República brasileira como se ele tivesse motivações patrióticas, como se ele tivesse uma lutado em favor do Brasil num período em que sequer o Brasil existia. A Conjuração Mineira (1789) foi um movimento elitista, separatista e anticolonial de Minas Gerais contra a coroa portuguesa e não do Brasil contra a Metrópole. A principal motivação do movimento não era o idealismo patriótico, liberal e republicano. O que a elite mineira queria era desobrigar-se do pagamento dos abusivos impostos cobrados pela coroa portuguesa. Portanto, romper com Portugal não significava exatamente fundar uma República, o que de fato representava era o não pagamento de impostos. É bom lembrar mais uma vez que o Brasil sequer existia neste período, deste modo, falar de Brasil em 1789 é puro anacronismo. Ser brasileiro era todo aquele que explorava o pau-brasil e não aquele que nascia no Brasil. Tiradentes não deixou nada escrito sobre o que ele defendia de fato. Até mesmo a frase “se dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria” supostamente dita antes de morrer é uma farsa, não há nada que a comprove.
Mas ele foi o líder da Conjuração Mineira não?
Não, não foi. Ele não era o mentor intelectual do movimento, mas uma pessoa simples do povo usada pelos líderes abastados para disseminar a causa elitista no seio das comunidades mais pobres. Portanto, ele não foi um mártir da independência, muito menos da República ou da maçonaria, ele tão somente foi uma vítima da repressão colonial contra os contestadores da ordem lusitana na colônia e um “bode expiatório” para os verdadeiros líderes da “rebelião” que permaneceram vivos por atribuírem a liderança do movimento ao humilde Tiradentes. A história foi manipulada para inventar um sentimento republicano no povo brasileiro anterior à proclamação da República no Brasil. Tal sentimento estaria personificado na figura de Tiradentes, como se a república já fosse querida e desejada há longos anos. Mas tudo foi manipulação, inclusive a própria imagem física de Tiradentes.
No período da Ditadura Militar no Brasil, houve mudanças?
No período da Ditadura Militar, houve uma verdadeira “caça” de militares influentes em cada Estado para receberem homenagens. Queriam mostrar que os militares sempre estiveram presentes positivamente na construção histórica do Brasil. Essa foi uma das formas encontradas pela Ditadura para reafirmar a importância dos militares e estimularem a aceitação popular no “novo” regime. Foi assim que Tiradentes, por ser militar, foi muito mais honrado neste período do que nos anteriores. Leiamos o que diz a Lei 4897/65: “Art. 1º Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, é declarado patrono cívico da Nação Brasileira. Art. 2º As Fôrças Armadas, os estabelecimentos de ensino, as repartições públicas e de economia mista, as sociedades anônimas em que o Poder Público for acionista e as empresas concessionárias de serviços públicos homenagearão, presentes os seus servidores na sede de seus serviços a excelsa memória desse patrono, nela inaugurando, com festividades, no próximo dia 21 de abril, efeméride comemorativa de seu holocausto, a efígie do glorioso republicano. Parágrafo único. As festividades de que trata este artigo serão programadas anualmente. Art. 3º Esta manifestação do povo e do Governo da República em homenagem ao Patrono da Nação Brasileira visa evidenciar que a sentença condenatória de Joaquim José da Silva Xavier não é labéu que lhe infame a memória, pois é reconhecida e proclamada oficialmente pelos seus concidadãos, como o mais alto título de glorificação do nosso maior compatriota de todos os tempos”. Foi nesse período também que Plácido de Castro ganhou notoriedade nacional. Partiu deles a iniciativa de comemorar o centenário de nascimento do “herói” acriano. Para isso, foi criada a Comissão Nacional para coordenar as comemorações do referido centenário pelo Decreto Federal Nº 71.355, de 10 de novembro de 1972. Leandro Tocantins e Arthur César Ferreira Reis foram alguns dos nomes escolhidos. As atividades tiveram início em 1973. No Ministério da Educação estava o acriano de Xapuri Jarbas Passarinho que incentivou a decisão de homenagear nacionalmente o militar Plácido de Castro.
Existe alguma relação entre Conjuração Mineira e Revolução Acreana?
Se essa pergunta fosse feita a um historiador oficial certamente ele lhe responderia que o patriotismo dos envolvidos em ambos os movimentos. Mas eu digo que o que há de comum é o poder de a elite regional em transformar suas causas por meio da manipulação da opinião e da história em “bandeiras” populares. Tanto a Revolução Acriana quanto a Conjuração Mineira foram movimentos elitistas contra o pagamento de impostos. Não foram movimentos libertários, aqui no Acre ninguém foi a favor da libertação do seringueiro do trabalho compulsório, da escravidão por dívida. Lá em Minas Gerais, ninguém apoiava o abolicionismo, até porque eram donos de escravos. Plácido de Castro, assim como Tiradentes, tinham escravos (seringueiros endividados). Ambos não foram os mentores do movimento, mas assim ficaram consagrados. Ambos os movimentos não foram patrióticos, mas assim ficaram imortalizados. Os verdadeiros mentores e financiadores da Revolução Acreana ainda estão para receber homenagens, se é que devem. Portanto, é comum a história oficial maquiar e manipular os fatos, responsabilizar um movimento coletivo na figura de uma única pessoa é típica do personalismo historiográfico conservador. Pior ainda é dissimular as motivações mesquinhas e egoístas com sentimentos nobres de altruísmo, de patriotismo e de fraternidade nacional, como foi o caso dos dois movimentos
Muito obrigado professor, quais são as suas últimas considerações?
Eu acho que está faltando uma Conjuração Mineira popular em nosso país atualmente. Pois o povo brasileiro está sendo colonizado por seus próprios compatriotas. Os abastados de Vila Rica acharam absurdo a cobrança do quinto (20%) e se negou a tentar completar a meta fiscal de arrecadação anual estipulado pela coroa lusitana. Sabe-se que o Brasil e hoje um dos países com maior carga tributária do mundo. Ele fica entre os quinze primeiros em cobrança de impostos e entre os últimos em retorno dos impostos ao bem-estar coletivo da sociedade. Quase 40% dos rendimentos dos brasileiros são destinados ao pagamento de impostos que, no Brasil, o que significa dizer que em média 150 dias ao ano o brasileiro trabalha só para pagar impostos. O povo brasileiro precisa se rebelar duplamente: primeiro contra os abusivos impostos, segundo a favor do retorno social dos impostos pagos. Este ano se comemora 226 anos da Conjuração Mineira, mas a Conjuração Brasileira ainda está por vir.







     

domingo, 15 de abril de 2018

KANARÔ: PERSEGUINDO A POÉTICA DRAMATÚRGICA DECOLONIAL
EM BETHO ROCHA E MATIAS
Por João Veras
A história do teatro acreano – o mesmo que a história do teatro no Acre – é muito recente. Sou de uma geração que assistiu e viveu um de seus capítulos mais significativos nas décadas de 70/80/90. A exemplo das outras manifestações artísticas - como a música, a literatura, as artes plásticas e o cinema - a dramaturgia acreana nasce e caminha como uma possibilidade outra de nos manifestarmos sobre o entorno e o interior de nossos desassossegos no aqui agora do viver social e cultural locais. Uns mais engajados com questões sociais, outros menos, mas, de qualquer modo, é possível afirmar que, como regra, muito dessa produção artística não ignora – pelo contrário enfrenta – as questões de interesse locais que buscam desassociar falseadamente a cultura da política - especialmente as que dizem respeito a relação do poder institucional, de caracteres colonizadora, exploradora, racializadora – com os grupos sociais – nomeados como minorias.
Sempre quando penso no que assisti e vivi nesse passado recente do teatro acreano me vem à mente duas de suas vertentes, estabelecidas ao longo desta jovem história, que a mim parecem significativamente simbólicas dessa dramaturgia que aqui vou adjetivar de decolonial (na frente explico o que isto significa e o porquê): a do Grupo De Olho na Coisa, de Matias, e a do grupo Adsabá, de Betho Rocha, ambos falecidos no mesmo ano de 1997.
Estes grupos dirigidos/concebidos por estes dois artistas acreanos carregam posturas estéticas e temáticas aparentemente diversas entre si. O De olho na Coisa se finca na questão social em volta da relação floresta/cidade, tanto no que diz respeito aos seus efeitos sociológicos quanto ecológicos. Ambos postos de modo a denunciar as condições colonizada/racializada dos sujeitos seringueiros e indígenas e de seus territórios tidos, pelo olhar colonizador, como periféricos, tradicionais e, por isso, atrasados, antieconômicos e inferiores em relação à chamada modernidade sustentável dos centros. Por seu turno, o Adsabá, na fase em que Betho se volta para uma dramaturgia dita antropológica (especialmente com as peças Histórias de Quirá e Lendas de Contato, baseadas na cultura e narrativa indígenas dos Madija, da bacia dos rios Purus e Juruá), ocupa um vazio temático até então contido nas expressões artísticas, não só dramatúrgicas, em razão da então – mantida historicamente - invisibilidade social, política e cultural dos indígenas “acreanos”. Betho, para além disso - assim como Matias faz em relação aos seringueiros - chama atenção para os valores culturais, políticos e sociais dos povos indígenas locais.
Todavia, é no campo da linguagem estética que ambos parecem caminhar de modos um tanto diversos. O De Olho na Coisa busca uma dramaturgia de comunicação direta para a fácil compreensão de todos (para tanto se vale da oralidade e de outros elementos da chamada cultura popular) – o que não arranha seu valor artístico – posto que, na voz de Matias, o seu teatro é uma forma de manifesto político-estético ante a realidade em que se encontram inseridos seus fazedores e expectadores. Não é à toa que o De Olho na Coisa preferia a rua – de livre e imediato acesso a todos - ao espaço da caixa cênica, esta, de certo modo, ainda seletiva e, por isso, muito pouco acessível ao grande público.
O Adsabá, por sua vez, pautado em montagens no escuro da caixa cênica, propõe uma estética da experimentação de caráter dramaturgicamente original, de forte influência da linguagem fílmica, especialmente quanto à luz, e inovadora no aspecto teatral quando a dança – o corpo em movimento/música – supera a palavra. Os seus personagens pouco ou nunca falam. Quase um teatro mudo, sonora, cromática e imageticamente.
O fato é que, ambos os grupos, mantiveram-se resistentes frente a tudo que representa o poder moderno-colonizador no campo da estética e da política. Matias por defender a vida da floresta e seus habitantes seringueiros contra a frente de desenvolvimento e progresso que a destrói, periferiza/subordina os seringueiros e coloca em seu lugar o boi e a exploração madeireira. Betho por tratar nos palcos a dimensão cultural indígena com respeito e sem a instrumentalização folclórica, contra todos os preconceitos/racismos étnicos em face dos índios.
O mundo de Betho parece movimentar-se da cidade para a floresta. O de Matias no sentido inverso. Ambos fazendo tais movimentos às avessas e vice-versa. Betho era forma estética numa estética de pleno conteúdo político. Matias era substância política num conteúdo de plena forma estética. Na prática (e na teoria) tudo se embaralha e vira teatro de cada um em particular próprio.
Por estes dois grupos, dois criadores, o teatro acreano – e no Acre – se manifesta, na forma e conteúdo, uma expressão estética de caráter decolonial, isto é, uma arte não conformada - mas insurgente - tanto em relação ao status quo político, quanto em relação ao sentido artístico dominante de seu tempo. Talvez esta seja a maior razão que me mova à lembrança e, principalmente, ao reconhecimento deles como expressões definidoras de uma dramaturgia marcadamente própria na cena artística acreana - e não cópia, como aos costumes coloniais se espera sejamos em relação aos cânones dos centros de produção e difusão cultural nacional e mundial.
Ambos faziam teatro apesar do teatro, ou melhor da concepção de teatro a que deviam seguir. Ambos faziam um teatro “desacademizado” – isto é, sem a obediência – o que não quer dizer desconsideração - aos padrões das técnicas e cânones teóricos. Ambos faziam teatro apesar da condição hierárquica a que estavam postos – como um teatro inferior, posto que amador... – pela visão cultural colonizadora. Ambos tematizavam o local, ou melhor, partiam dele, seu lugar de enunciação. Ambos traziam nos seus corpos as marcas do racismo da colonização dita modernizadora. Matias era negro, ex-seringueiro, pobre, artista “amador” e morador da periferia. Betho, poeta, homossexual e artista sobre-vivente do teatro amador no Acre. Eles lutavam contra a condição histórica de todo considerado não-ser que a visão colonizadora lhes impingia. Suas obras/eles – em corpo/alma - eram formas de resistência a tais condições. Eles (e seus teatros) foram desobedientes à condição colonial, daí decoloniais.
Dito assim, não estou desconsiderando tudo que na época, depois dela e agora, se fez e se tem feito no teatro local, muito do que se comunica com – e é determinado - por estas duas vertentes, o que as legitima como referência de pesos político e estético neste campo.
Este reconhecimento pontual o faço para considerar que o espetáculo Kanarô, do grupo Vivarte (em sua qualificada experiência de 20 anos de teatro de rua, de floresta e também de caixa cênica), é declaradamente um produto direto da influência destes dois projetos/referências da dramaturgia local. Nessa linha, Kanarô, ao seu modo e no tempo de agora, se propõe muito humildemente a ser um manifesto político-estético da força de um De Olho na Coisa e também um manifesto estético-político pautado nas experimentações cênicas e respeito antropológico de um Adsabá. Se acaso este desejo/desafio não se realizar – pela percepção atenta de cada um dos que o expectarem no arena do Sesc - Kanarô não perderá viagem se for aceito como uma homenagem ao teatro acreano, por estas suas duas expressivas vertentes. Quem assistir verá.
HOJE, DOMINGO, É A ÚLTIMA APRESENTAÇÃO DE KANARÔ, NO ARENA DO SESC, ÀS 19 HORAS.

segunda-feira, 26 de março de 2018

AS VERDADES HISTÓRICAS SOBRE A PÁSCOA (por Eduardo Carneiro)


AS VERDADES HISTÓRICAS SOBRE A PÁSCOA

Prof. Dr. Eduardo Carneiro (UFAC)

O QUE SIGNIFICA A PASCOA?
A Páscoa é um memorial religioso comemorado tanto por judeus, quanto por cristãos católicos, embora cada um atribua significados diferentes a ele.

ENTÃO, EXPLIQUE O QUE SIGNIFICA A PASCOA PARA O JUDAÍSMO.
Etimologicamente a palavra tem origem no vocabulário hebraico cujo sentido literal é “passar por cima”. A palavra foi empregada no livro de Êxodo, que faz parte do pentateuco judaico, durante a narrativa da décima praga proferida por Moisés ao povo egípcio. Segundo a narrativa, o “espírito da morte” passaria “por cima” da casa que estivesse marcada com sangue de cordeiro nos umbrais da porta principal, poupando assim, a vida do primogênito que estivesse dentro dela. O próprio Deus judaico estabeleceu o episódio como um memorial quando diz: “e este dia vos será por memória, e celebrá-lo-eis por festa ao Senhor; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo [...] E acontecerá que, quando vossos filhos vos disserem: Que culto é este? Então direis: Este é o sacrifício da páscoa ao Senhor, que passou as casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu aos egípcios, e livrou as nossas casas” (Êxodo 12:14, 26 e 27). Assim sendo, esta é a origem da pascoa do ponto de vista judaico e a festa pascoal anual tem a ver com a comemoração do êxodo, ou seja, libertação do povo hebreu da escravidão do Egito.

AGORA EXPLIQUE O QUE SIGNIFICA A PASCOA PARA O CRISTIANISMO.
Para os cristãos católicos, a páscoa, que ocorre no ultimo dia da Semana Santa, que é a parte final da quaresma, faz referência à “paixão” de Jesus Cristo, sua a morte e ressurreição. Tais eventos ocorreram no período em que os judeus comemoravam a páscoa, e é por conta disso, e do sincretismo religioso com outras religiões que promoviam festas no mesmo período (início da primavera), que a pascoa acabou se tornando uma das principais festas do ano litúrgico católico romano. É bom que se diga que a maior parte dos cristãos de tradição protestante não comemora a páscoa.

COMO ASSIM NÃO COMEMORAM?
Os protestantes entendem que a páscoa era uma festa característica da religião judaica e que ela era apenas uma tipificação, uma sombra, um símbolo, uma prefiguração da obra redentora que Jesus haveria de consumar. Assim sendo, a festa pascoal judaica teria perdido a sua razão de ser com a nova aliança promovida por Jesus Cristo na cruz do Calvário, já que um sacrifício definitivo fora promovido pelo próprio Jesus, o “cordeiro pascoal” (I Co 5:7) “imaculado” (I Pe 1:19), que “tira o pecado do mundo” (Jo 1:29, 36). A páscoa judaica fazia referência a uma morte vicária, a de um cordeiro inocente em favor de um condenado. A casa marcada com o sangue inocente preservava o primogênito da morte. Em analogia, Jesus foi este cordeiro inocente sacrificado em favor de todos os que haveriam de crer nele. Pelo sangue de Jesus, o “cordeiro pascoal”, é que o cristão, pela fé na morte expiatória feita, é poupado da condenação eterna (1 Pedro 1:19). E o memorial da “paixão” de cristo, apesar de ter acontecido no período da ceia pascoal judaica, segundo os protestantes, não é a páscoa propriamente dita, e sim a Santa Ceia.

EXPLIQUE MELHOR ESSA RELAÇÃO ENTRE A PÁSCOA E A SANTA CEIA?

A chamada Santa Ceia, a última refeição que Jesus tomou com seus discípulos antes de ser crucificado, foi uma ceia realizada no momento em que se dava a ceia pascoal judaica. Como o próprio Jesus disse: “desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça” (Lucas 22:15). No entanto, no momento da realização da ceia judaica pascal, Jesus modifica o ritual mosaico, em vez do cordeiro, ele introduz novos elementos – o pão e vinho. E afirma que os fatos a serem lembrados a partir de então seriam a sua própria morte e ressurreição, e não mais a libertação dos judeus do Egito (Mateus 26.26-30). Portanto, os protestantes entendem que o memorial de sua “paixão” não seria a páscoa e sim a Santa Ceia que, como já foi falado, foi instituída no contexto histórico da comemoração da pascoal judaica.

OBS: há, atualmente, uma tendência judaizante dentro de algumas igrejas protestantes neopentencostais de importa práticas, símbolos e festas judaicas, daí ser comum presenciar nelas comemoração não só da festa de pascoa, como também a dos tabernáculos, etc.

E O QUE OVO E O COELHO TEM A VER COM A PASCOA?
Nada! Absolutamente nada. Não tem nada a ver nem com a páscoa judaica e nem com a páscoa cristã. Tanto o ovo quanto o coelho foram incluídos na festa cristã da páscoa por conta da miscigenação cultural e religiosa que aconteceu após a oficialização do cristianismo como religião oficial do império romano. Com a cristianização forçada dos povos germânicos, muitas práticas religiosas “pagãs”, por questões políticas, foram incorporadas ao cristianismo. No mesmo período da pascoa, os germânicos prestavam culto à deusa Ostara (Deusa da primavera), que era simbolizada na forma de coelho. Ora, coelho não põe ovos. Mas os ovos, assim como os coelhos, eram símbolos da fertilidade, por isso, no fim do inverno e início da primavera, era costume adoradores da deusa presentearem-se mutuamente com ovos. É bom que se diga que o ovo era considerado algo místico por inúmeros povos da antiguidade. Portanto, tanto o ovo quanto o coelho foram resultados do sincretismo religioso entre o cristianismo católico romano e o ostaracismo. 


ENTÃO COMER OVOS DE PASCOA TEM UM SENTIDO RELIGIOSO?
Sim, claro que tem, no entanto, um sentido pagão, do ponto de vista cristão. Por exemplo, se alguém participar da ceia pascoal judaica, mesmo sem saber, participa de um ato religioso. Assim também, quando alguém consome ovos de pascoa e enfeita sua casa com coelhos, está, mesmo que não tenha consciência disso, pactuando com o patrimônio histórico religioso de culto à deusa Ostara. Muitas festas culturais ocidentais têm origem religiosa, a páscoa é só mais um exemplo disso, o carnaval é outro. No entanto, tanto uma quanto a outra são mercantilizadas, perdendo, com isso, o conteúdo religioso e ganhando formas puramente comerciais. É a capitalização da cultura, isso acontece quando tradições são mantidas e revalorizadas especialmente para dar lucro - estimular a compra e venda de certos produtos e serviços. E claro, promover a alienação coletiva.

E POR QUE OVOS DE CHOCOLATES?
A história dos ovos de chocolates é bastante recente. O costume anterior era o de enfeitar ovos de galinha com pinturas. A chocolatização dos ovos de páscoa aconteceu a partir da década de 1930 na Inglaterra, quando o cacau passou a ser industrializado em larga escala.

QUAL A REAL DATA DE COMEMORAR A PASCOA?
Não existe uma data certa, o que existe é uma convenção estabelecida no Concílio de Nicéia (325), que para diferenciar a data da páscoa judaica, leva em consideração a astrologia para marcar a páscoa cristã - a primeira lua cheia após o equinócio de primavera (20/21 de março). Acontece que a tal primeira lua cheia não tem data fixa, tornando a comemoração da páscoa algo móvel ano após ano. Além do mais, como é sabido, no século XV, o Papa Gregório XIII promulgou outro calendário, o “gregoriano”, que pretendia corrigir os erros do  “Juliano”. Isso, obviamente, alterou a data da comemoração da páscoa. No oriente, os chamados cristãos ortodoxos levam em consideração o antigo calendário juliano, comemorando a páscoa geralmente em abril.


VOCÊ ACHA CERTO A COMEMORAÇÃO DA PÁSCOA?
Acredito que cada um deve fazer uso de sua liberdade de culto e comemorar o que bem entender, porém, o Estado não deveria endossar nenhuma data religiosa como feriado nacional. 




sexta-feira, 2 de março de 2018

Professor da UFAC lançará livro sobre Análise do Discurso nas Ciências Humanas

"Apesar da aparente distância entre as duas ciências, elas guardam algumas relações comuns entre si, podendo se auto ajudarem na elucidação dos seus respectivos objetos de estudo. Afinal, todo fenômeno linguístico também é um fenômeno histórico, uma vez que é um produto das ações dos homens no tempo. E todo fenômeno histórico, quando narrado oralmente ou graficamente, também se constitui em um fenômeno linguístico, uma vez que terá que fazer uso inevitável da linguagem para ser preservado na memória coletiva. " Dr. Eduardo Carneiro

domingo, 17 de dezembro de 2017

PROFESSOR UNIVERSITÁRIO QUESTIONA A DATA OFICIAL DE ANIVERSÁRIO DE FUNDAÇÃO DA CIDADE DE RIO BRANCO (O DOUTOR EDUARDO CARNEIRO)


Dr. Eduardo Carneiro, é professor da Universidade Federal do Acre, é licenciado em História (
UFAC), bacharel em Economia (UFAC), mestre em Letras (UFAC),  Doutor em História Social (USP), e doutorando em Estudos Linguísticos pela UNESP. É membro da Academia Acreana de Letras, escritor e editor de livros. Autor de A formação da sociedade econômica do Acre: sangue e lodo no surto da borracha (1876 - 1914); A Fundação do Acre: uma história revisada da anexação (fase invasiva, fase militar e fase diplomática); A Epopeia do Acre e a manipulação da História no Movimento Autonomista & no Governo da Frente Popular; e O Discurso Fundador do Acre(ano): História & Linguística; História do Acre: resumão para concurso; Acreanismo e comemorações cívicas; Poesias Noturnas e Poesias Diurnas.


QUAIS SÃO AS SUAS PALAVRAS INICIAIS SOBRE O ANIVERSÁRIO DE RIO BRANCO?
Bem, primeiro eu precisaria saber sobre qual Rio Branco você está se referindo. Pois historicamente temos vários, cada um com o seu respectivo decreto de criação historicamente datado, a saber: Vila Rio Branco (1904), Município de Rio Branco (1912), Rio Branco como capital do Território do Acre (1920) e Rio Branco como capital do Estado do Acre (1962). Assim devem ser vistos porque são entes da divisão administrativa da República brasileira com identidade geográfica e status jurídico-político distintos. O fato de a grafia dos topônimos serem os mesmos, ou seja, Rio Branco, não significa que estamos nos referindo a uma mesma coisa em estágio de evolução diferentes. São simplesmente fenômenos históricos singulares de mesmo nome, ou seja, homônimos.

TUDO BEM, MAS O SENHOR NÃO MENCIONOU O 28 DE DEZEMBRO DE 1882 E NEM O 13 DE JUNHO DE 1909 COMO DATAS PROVÁVEIS DA CRIAÇÃO DE RIO BRANCO. POR QUÊ?
A não indicação das datas não foi mero esquecimento meu, foi proposital. Primeiro porque tanto a primeira que faz alusão à fundação de um seringal por nome Volta da Empresa, quanto a segunda que faz referência à criação da cidade de Penápolis, não guardam relação homonímica com o topônimo Rio Branco. Segundo por achar que o fato de o seringal e a referida cidade ter se localizado em áreas que atualmente pertencem ao território da capital acreana não os credenciam como parte genealógica do município. Nos dois casos, estamos tratando de vocábulos heteronímicos. Porém sou sabedor da celeuma que muitos políticos e historiadores têm feito a respeito dessas datas, basta lembrar que o cinquentenário da cidade de Rio Branco foi comemorado levando-se em consideração o 13 de junho de 1909, já o centenário, o 28 de dezembro de 1882. O que posso dizer é que as expressões “cidade de Rio Branco” e “município de Rio Branco” só foram usadas oficialmente pelo Decreto Federal Nº 9.831, de 23 de outubro de 1912. Portanto, essa talvez seja a data do nascimento teórico ou jurídico do município, já que, na prática, de fato, como é sabido, ele só veio a ser instalado no dia 15 de fevereiro de 1913.



MAS PROFESSOR, PRATICAMENTE TODOS OS HISTORIADORES AFIRMAM QUE O SERINGAL VOLTA DA EMPRESA, A CIDADE DE PENÁPOLIS E O MUNICÍPIO RIO BRANCO SÃO NOMES DIFERENTES PARA DESIGNAR A MESMA COISA. CERTO?
Errado (Risos). Essa confusão toda foi feita propositalmente para justificar o 28 de dezembro como data de aniversário do Município de Rio Branco. No entanto, uma coisa é um seringal, outra coisa é uma cidade, e outra coisa é um município. Um seringal é uma unidade de produção rural extratora de borracha que, no Acre, no último decênio do século XIX, era fundado por meio da invasão de território estrangeiro, grilagem de terra e genocídio indígena. Já uma cidade é caracterizada por uma população urbana que se dedica a atividades econômicas não rurais, que geralmente se constitui em sede administrativa de um Município, Departamento, Distrito ou Intendência. Município é uma pessoa jurídica de direito público interno, um ente administrativo do Estado, que é criado por força de decreto oficial e abarca um território composto por áreas rurais e urbanas. No caso do Acre, estamos tratando de um seringal fundado ilegalmente em território estrangeiro, que figurava do lado direito do Rio Acre; de uma cidade fundada “por resolução prefeitoral” em um uma área contraditoriamente rural, situada no lado esquerdo do rio Acre, que passou a servir de sede administrativa de um dos Departamentos do antigo Território do Acre; e de um município que é a capital do Estado do Acre, cujo o território abarca tanto áreas rurais quanto urbanas situadas tanto do lado direito do rio Acre, quanto do lado esquerdo. Portanto, geograficamente, identitariamente e juridicamente são fenômenos históricos distintos.
 
O SENHOR ESTÁ AFIRMANDO QUE A FUNDAÇÃO DO SERINGAL VOLTA DA EMPREZA NÃO É A DATA DE ANIVERSÁRIO DO MUNICÍPIO DE RIO BRANCO?
Exatamente. O 28 de dezembro de 1882 é a provável data de aniversário do seringal Volta da Empreza e não do Município de Rio Branco. O referido seringal provavelmente completa 135 anos em 2017, digo provavelmente pois tal data é, até hoje, duvidosa. Já o município de Rio Branco, unidade político administrativa do Departamento do Alto Acre, do Território do Acre, completou 105 anos. Já o município de Rio Branco como capital do Território do Acre completou, neste ano, 97 anos. Já o município de Rio Branco como capital do Estado do Acre completou 55 anos. Foge à minha capacidade cognitiva entender como o aniversário do Município de Rio Branco, capital do Acre, que é um Estado do Brasil, pode ter como data de origem o aniversário de fundação de um seringal que, na época, sequer pertencia ao Brasil, num momento histórico que sequer o Acre existia. Isso é um anacronismo sem tamanho. Acreditar nisso é o mesmo que ter por verdade a ideia de que o Município de Rio Branco já estava presente no ato de fundação do Seringal Volta da Empreza, quer seja em potencialidade a ser realizada, capacidade de vir a ser, ou em forma de uma espécie de  “DNA” (risos). Não há nenhuma linhagem ou lastro de significância entre um seringal e um município. O fato de o território do município de Rio Branco incluir, dentre outras, a área que anteriormente funcionava o seringal Volta da Empresa, não faz do seringal a origem do município. Simples assim! Até porque o Vale do Rio Acre em fins do século XIX já era formado por mais de 65 seringais, que, mais cedo ou mais tarde, no todo ou em parte, também foram dissolvidos e urbanizadas, tendo suas respectivas áreas abarcadas pelo território do Município de Rio Branco. Logo, a depender das coordenadas geográficas escolhidas, a data do início da colonização do território do atual Rio Branco poderia mudar. Interessante dizer que expedição que trouxe Neutel Maia foi a mesma que trouxe os irmãos Leite, que desceram do vapor algumas milhas antes que Maia. Os irmãos Leite também fundaram um seringal, um dos maiores do Vale do Acre na época por sinal, que, por sua vez, também passou a fazer parte do atual território de Rio Branco. Ora, se os irmãos Leite desceram da embarcação antes que Neutel Maia, por que este e não aqueles foi “batizado” como fundador de Rio Branco? 

PROFESSOR, ENTÃO POR QUE SE FALA TANTO EM VOLTA DA EMPREZA COMO ORIGEM DE RIO BRANCO?
Para responder essa pergunta, teríamos que reconstituir o cenário político e as correlações de forças que estavam em jogo no momento em que o Projeto de Lei que instituiu a data oficial de aniversário do município de Rio Branco foi redigida, aprovada e sancionada. Uma coisa posso afirmar, até fins da década de 1970, os prefeitos faziam festas cívicas em homenagem ao aniversário de Rio Branco baseados na data de 13 de junho de 1909. Basta verificar nos jornais da época. O primeiro a fazer uso do 28 de dezembro de 1882 para comemorar o aniversário de Rio Branco foi o então prefeito Fernando Inácio dos Santos. A decisão dele pode ser facilmente explicada quando percebemos que fez recair o centenário da cidade no interstício do seu mandato. Os jornais de dezembro de 1982 revelam a mega festividade que organizou para homenagear o suposto 100 anos de Rio Branco. No Acre é assim, a história muda conforme os interesses de autopromoção dos políticos (risos). No centenário do Acre não foi diferente, o poder executivo também deu aula de manipulação da história. Os políticos e membros da elite acreana sempre torturaram a história do Acre a fim de torná-la testemunha dos seus duvidosos “grandes feitos”. A decisão de comemorar o aniversário da cidade baseado na data do início da colonização praticada por Neutel Maia às margens do lado direito do Rio Acre, tinha forte apoio dos familiares e descendentes da elite riobranquence que, até meados dos anos 1960, dominavam o comércio local a partir do que hoje conhecemos como Segundo Distrito, mais precisamente, do bairro Empresa. Já que, como é sabido, a sede do Departamento criado em 1912, na cidade de Penápolis, ficava no chamado Primeiro Distrito. Eu até suponho que a escolha da data também tenha agradado os funcionários públicos municipais, já que ganhariam um feriado pós natalino (risos).

TUDO BEM, MAS COMO SENHOR EXPLICA O FATO DE O SERINGAL VOLTA DA EMPRESA TER SIDO ESCOLHIDO COMO SEDE DO ENTÃO DEPARTAMENTO DO ALTO ACRE?
A região mais urbanizada do Acre no início do século XX era Porto Acre, era ali que se reunia as melhores condições para uma sede departamental, já que a estrutura governamental deixada pelo governo boliviano colaborava para isso. No entanto, aquele povoado se tornou uma forte área de influência de Plácido de Castro, após a vitória do mesmo contra os bolivianos em janeiro de 1903. Por conta disso, é possível que o General Olympio da Silveira tenha preferido, em abril de 1903, criar a sede do governo brasileiro do Acre Setentrional no Volta da Empreza, para onde levou as tropas do exército. Tal região era dominada pela influência cearense Neutel Maia, que era talvez o homem mais rico de todo o Acre, e que havia se recusado a apoiar Plácido de Castro. E foi justamente essa estadia do General com sua tropa composta por mais de mil soldados que alavancou a região do Volta da Empreza como um povoado urbano com estruturas mínimas para uma futura sede departamental. Se o general tivesse escolhido Porto Acre ou Xapuri, a história da capital do Acre, provavelmente, teria sido outra.  E foi esse povoado, formado no entorno do Seringal, que foi elevado à categoria de Vila em agosto de 1904, com o nome Volta da Empresa. E foi essa Vila, e não o seringal de mesmo nome que, em setembro do mesmo ano, foi indicada como sede provisória do Departamento do Alto Acre com o nome de Rio Branco.

DE QUALQUER FORMA PROFESSOR, O SENHOR NÃO ACHA QUE A HISTÓRIA DO SERINGAL FAZ PARTE DA HISTÓRIA DO MUNICÍPIO?
É bom deixar claro que uma coisa é a história do seringal, outra coisa é a do Município de Rio Branco. A história do Seringal Volta da Empreza é apenas um capítulo da história do homem na região que hoje faz parte do território do Município de Rio Branco. A não ser que assumamos uma postura rigidamente acreanocentrica e etnocêntrica para excluirmos da história a milenar presença das nações indígenas na região. Portanto, a fundação do referido seringal é apenas um marco, arbitrário por sinal, do início da colonização do homem “branco” de nacionalidade hegemonicamente brasileira em território que hoje pertence ao dito município. A história do município de Rio Branco, pessoa jurídica e unidade político-administrativa da República do Brasil, que gerencia a ordem pública em um determinado território geograficamente definido, não pode ser confundida com a história humana neste mesmo território. Até porque a área do antigo seringal Volta da Empresa é apenas uma fração do atual território de Rio Branco e, como já mencionamos, antes de Neutel Maia já havia comunidades ali. Resumindo: a data da fundação do seringal Volta da Empreza não é a data de origem do Município de Rio Branco. A Relação entre um e outro foi construída arbitrariamente por meio do abuso da história. O seringal é tão somente parte da história do início da colonização nordestina em terras que a posteriori fariam parte do território do Município de Rio Branco. Pronto! Só é isso... o resto é imaginação dos escribas do poder (risos).

ENTÃO O MUNICÍPIO DE RIO BRANCO NÃO FAZ 135 ANOS. É ISSO? 
Exatamente isso (risos). Rio Branco não faz 135 anos em 2017, a não ser que me provem que Neutel Maia tenha trazido consigo, em meio as suas bagagens, o Projeto Piloto urbanístico de construção do Município (risos). Brincadeiras à parte, é somente dessa forma, meio que hilária, que seria possível justificar um suposto aniversário de 135 anos de Rio Branco. Apenas em uma narrativa teleológica e manipulada da história é fica visível a existência de um Município no ato fundador de um Seringal. Como comemorar o aniversário de nascimento de um ente numa data em que ele sequer existia? Isso só é válido num ambiente espírita, em que o Município apareceria como a reencarnação do seringal em um estágio mais evoluído (risos). Portanto, o que provavelmente faz 135 anos é tão somente a chegada do vapor Apihy, liderada pelo cearense Neutel Maia, às barrancas do lado direito rio Acre, nas proximidades onde hoje conhecemos como gomeleira. Será que é tão difícil entender isso?

PROFESSOR, NÃO ESTAMOS ACOSTUMADOS COM ESSA EXPLICAÇÃO, COMO O SENHOR CHEGOU ATÉ ELA?
A questão é que grande parte dos historiadores com má formação acadêmica confundem as diversas temporalidades históricas, muitas das quais descontínuas, com o tempo cronológico marcado pelo relógio e calendários, limitando àquelas a estes. Escrevem a histórica como se ela fosse uma narrativa evolutiva rumo ao progresso, uma mera sucessão de fatos marcados no tempo cronológico. Como se o lastro de continuidade fosse algo natural e não um ato arbitrário, resultado de escolhas. Precisamos vencer a ideia de que o presente já existia potencialmente no passado, e que, portanto, caberá ao historiador tão somente a tarefa de realizar a montagem teleológica dos fatos. A história real e empírica é cataclísmica, ela é saturada por várias temporalidades e de acontecimentos simultâneos e desconexos. No entanto, quando a história é representada graficamente por meio de uma narrativa escrita, ela acaba tomando forma, por culpa dos historiadores e escritores “embriagados de evolucionismo”, de uma sucessão cronológica e consequencial de fatos. Mas os fatos históricos não obedecem a uma lógica ritmada do tipo “causa e efeito”, pelo contrário, as relações de forças que envolve cada evento são multiformes, e estamos falando de vários eventos simultâneos e desconexos dos quais a escrita da história cronologicamente marcada não consegue abarcar. A narrativa da história não pode mais ficar refém de uma ideia de tempo absoluto newtoniano (físico Isaac Newton), que já foi superada. A física quântica está aí e a noção de tempo relativo é fato! Portanto, há descontinuidades na história, ela não é uma narrativa do progresso humano. As conclusões a que cheguei sobre esse debate sobre o aniversário de Rio Branco são facilmente percebíveis por qualquer cidadão acreano. Não é preciso se ter um diploma de nível superior para tal. Basta se ter uma compreensão semiológica básica dos seguintes vocábulos, marcando a diferença semântica entre eles, a saber: um seringal, um povoado, uma vila, uma sede departamental, uma cidade, um município, uma capital de estado. Quem domina minimamente o conceito exato que o vocábulo “município” evoca, jamais verá num seringal, a origem de Rio Branco. É só entendermos que quando as terras que anteriormente fazia parte do seringal se urbanizaram, tal região já não era mais exatamente um seringal. Além do mais, a urbanização teve início nos arredores do seringal, que foi, aos poucos, loteado. A área do seringal tendeu a diminuir na proporção que a do povoamento tendeu a aumentar.

ENTÃO, COMO PENSAR A HISTÓRIA DE RIO BRANCO PARA ALÉM DA NARRATIVA LINEAR E EVOLUTIVA?
É fazer exatamente isso que estou tentando aqui. Mas a maioria das pessoas ainda têm resistência a isso, pois estão presas à noção de tempo do século XIX. A história de Penápolis não tem origem na do seringal Empreza; assim como a história de Rio Branco não está potencialmente viva na de Penápolis. Vila Rio Branco, capital de um departamento é uma coisa; Município de Rio branco, Capital do Estado do Acre é outra coisa. Rio Branco, atual capital do Estado do Acre, não é a versão melhorada da Vila Rio Branco (1904). Um não é a continuação evolutiva do outro. Não estamos falando de um mesmo ente com nomes diferentes, pelo contrário, estamos nos referindo a entes com status jurídicos e identidade territorial díspares que assumem nomes iguais, ou seja, são homônimos. De modo que a Vila Rio Branco (1904) não é a mesma coisa que o município de Rio Branco (1912), que por sua vez não são a mesma coisa que a capital do Acre (1920 e 1962). O bairro Empresa localizado no Município de Rio Branco nos anos 1950 não pode ser visto como um estágio evoluído do seringal de mesmo nome. Embora homônimos, são coisas diferentes, com histórias diferentes, embora em alguns aspectos, convergentes.

DOUTOR, PARA FINALIZAR, DEVEMOS COMEMORAR O ANIVERSÁRIO DE RIO BRANCO?
No dia em que um prefeito de Rio Branco parar de fazer uso abusivo de indicações políticas para ocupação de cargos públicos estratégicos para sustentar um projeto de poder ou tomar a iniciativa de parar de pavimentar nossas ruas com asfaltos de “papelim”, nós, o povo, talvez o que comemorar. Fora isso, chega de hipocrisia e publicidade governamental!