domingo, 15 de novembro de 2009

BONIFÁCIO, R. 1º Levantamento sobre Drogas em Rio Branco

I Levantamento Sobre Drogas de Rio Branco - Acre

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O ENTORNO DA PRÁXIS EDUCATIVA NO ENSINO DE HISTÓRIA NO ACRE

JOSE JULIO CESAR DO NASCIMENTO ARAUJO
Josimar da Silva Freitas
José Valderi Farias de Souza

Em Nietzsche, a genealogia, a história, Foucault considera Nietzsche o filósofo do poder. O que Foucault quer mostrar é a abertura produzida por Nietzsche para se pensar as relações de poder em cadeia histórica fugindo do paradigma jurídico- econômico, característico tanto de pensamento liberal, quanto de determinada tradição marxista. A partir desta indicação nietzschiana, Foucault irá propor uma “Microfísica do poder”, capaz de resgatar as lutas do cotidiano, as múltiplas relações de força, as táticas e estratégias de resistência.O que de certa forma pressupõem a construção de uma nova História.

Segundo Foucault, o estudo da microfísica do poder. [...] supõe que o poder nela exercido não seja concebido como uma propriedade, mas como uma estratégia, que seus efeitos de dominação não sejam atribuídos a uma ‘apropriação’, mas a disposições, a manobras, a táticas, a técnicas, a funcionamentos, que se desvende nele antes uma rede de relações sempre tensas, sempre em atividade, que um privilégio que se pudesse deter; que lhe seja dado como modelo antes da batalha perpétua que o contrato que faz uma cessão ou a conquista que se apodera de um domínio(...). O que significa que estas relações aprofundam-se dentro de uma sociedade, que não se localizam na relação de Estado com os cidadãos, ou na fronteira das classes e que não se contentam em reproduzir ao nível dos indivíduos, dos corpos, dos gestos e dos comportamentos, a forma geral da lei ou do governo; que se há continuidade (realmente elas se articulam bem, nessa forma, de acordo com uma série de complexas engrenagens), não há analogia nem homologia, mas especificidades dos mecanismos e da modalidade.
Finalmente, não são unívocas; definem inúmeros pontos de luta, foco de instabilidade comportando cada um de sus riscos de conflito, de luta e de inversão pelo menos transitória da relação de forças (FOUCAULT,2002,26-27). Articulando estas considerações de Michel Foucault com as preocupações de uma “história vista de baixo” de SHARPE e de E.P. Thompson, a História aos poucos procura repensar e recuperar o papel de atores históricos que não assumiram/ assumiam naquela forma de se fazer HISTÓRIA papel relevante. Tal possibilidade de conjuga a história da experiência e do cotidiano das pessoas comuns do povo, dando-lhe a oportunidade de reintegrar a sua história aos grupos sociais que podem ter pensado tê-la perdido, ou que nem tinham conhecimento da existência de sua história (SHARPE,1994).

A historia enquanto componente curricular, obrigatório no ensino fundamental e médio, era vista no passado do prisma factual. O ensino da História era o aprendizado dos fatos históricos, das fases, das civilizações e suas contribuições para a vida moderna, das datas, dos nomes e feitos dos atores históricos. Hoje, o estado de criticidade dos tempos modernos obrigou pesquisadores, historiadores e professores a repensar como se faz e se ensina História.

Em 2007, estivemos na Escola de E. F.M.C. para a realização de uma pesquisa em relação ao procedimento metodológico da pratica educativa em historia. Nas entrevistas aplicadas aos alunos pode-se aferir que em relação a afinidade dos alunos com o componente curricular, não há duvidas que este tem forte vínculos com os alunos. Isso ocorre, subjetivamente, porque os alunos observados possuem uma admiração exacerbada pelo professor da disciplina.
Aos serem perguntados sobre a melhor aula de História alguns relembram aulas passadas, mas em geral consideram todas as aulas do professor ótimas. O conceito de história na conceituação dos alunos não foge aos padrões de antigos manuais didáticos. Os alunos atribuem o gosto pela disciplina ao fato ‘’ do professor explicar bem’’; ‘’ se aprofundar nos assuntos’’ e ‘’ dá muitos exemplos’’.

Percebe-se com isso, que ao conquista os alunos como sua prática o professor consegue forjar competência nos alunos. Em relação aos procedimentos metodológicos usados pelo professor percebeu-se que na maioria das vezes o professor se vale de aulas expositivas, intercalando com exemplificações, desenhos e avaliações orais.
Uma técnica metodológica interessante que é usada pelo professor, é o uso do ‘’Momento da Notícia’’, onde alunos são escolhidos para assistirem ao noticiário da TV e na aula seguinte expor e apresentarem pontos de vista e opinião critica sobre as matérias assistidas. Isso de certa forma cumpre os pressupostos de Holiem G. Bezerra, ao afirma: ‘’ O objetivo primeiro do conhecimento histórico é a compreensão dos processos dos sujeitos históricos.

O desvendamento das relações que se estabelecem entre os grupos humanos em diferentes tempos e espaços’’(BEZERRA, Holiem G. O ensino da história: conteúdo e conceitos básicos (in) KARNAL, Leandro (org.). A História em sala de aula. São Paulo: Contexto,2000 ). O fato de implementar essa nova metodologia mostra que este assume o postulado do professorado crítico e consciente que a história é uma construção do presente onde participam os sujeitos sociais.

O aluno ao estabelecer com os noticiários da TV relação de critica faz história por que crítica o próprio momento no qual está inserido. Foi notável, também, que os discentes são constantemente levados ao exercício da pesquisa que é feita em livros, revistas ou com ajuda dos pais.Pelas respostas dos alunos foi possível perceber que o professor trabalhar muito com a questão da contextualização, ou seja, antes de explica conteúdos faz diversas explanações. Isso ocorre, também, nos exercícios e avaliações como pode-se observar na pesquisa. Sobre a avaliação, o professor observado, e com base nas respostas, utiliza perguntas orais, variando o conteúdo avaliado com filmes de embasamento e a participação ativa dos alunos.

Observou-se, também, que o professor trabalha a partir das experiências dos alunos. Ele prioriza a historia crítica, tentando mudar o costume de estudar. Observando que tudo na historia se constrói com a força das massas.Ficou bem claro nas entrevistas com o professor que este compreende que a história mudou sua s concepções e deve ser trabalhada de maneira diferente.


Referências
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979. FOUCAULT, Michel. Arqueologia das Ciências e História dos Sistemas de Pensamento. Ditos e escritos vol. II. Manoel Barros da Motta (org.).Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000. SHARPE, Jim. A História Vista de Baixo. In: BURKE, Peter. (org.) A Escrita da História. São Paulo: Unesp, 1998. THOMPSON, E. P. A Formação da Classe Operária Inglesa. 3 volumes. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1987. THOMPSON, E. P. Costumes em Comum: estudos sobre cultura popular tradicional. São Paulo: Cia das Letras, 1998.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A GEOPOLÍTICA DO CAPITALISMO NA AMAZÔNIA BRASILEIRA

Carlos Alberto Franco da Silva e Flávio Almeida Reis
FONTE: http://www.marxismo.org.br/index.php?pg=artigos_detalhar&artigo=377


Com este breve artigo de estudiosos da UFF (Universidade Federal Fluminense), iniciamos um conjunto de contribuições para o debate sobre a expansão da fronteira capitalista na Amazônia brasileira.

A questão ambiental no Brasil envolve dois padrões de desenvolvimento que se apresentam como contraditórios na aparência, mas são parte integrante do modelo capitalista de produção.O primeiro possui uma vertente industrial, mineral e agrícola e consolidou-se a partir de 1960. A abertura da fronteira agrícola capitalista, a expansão da fronteira urbana, a exploração do subsolo, os projetos de colonização privados e oficiais e a instrumentalização técnica do território eram parte da geopolítica de integração econômica do país em direção às regiões consideradas “periféricas”.


Logo, projetou-se na Amazônia o imaginário de região atrasada e vazia, a fim de legitimar um processo de inserção de áreas privilegiadas nos circuitos de acumulação de capital em escalas nacional e global. Para tanto, o desmatamento se afirma como ideário de inserção do Cerrado e da Floresta Equatorial no projeto desenvolvimentista do Estado.O “país do futuro” possuía uma natureza rica, mas hostil.
O progresso demandava controle da natureza. A sagração da Natureza convocava a nação para a marcha rumo ao Norte, ao Oeste, ao Sertão. A Amazônia era o Eldorado a ser conquistado. Tais signos escamotearam as lutas de classes no Brasil. A abertura da fronteira se tornava uma válvula de escape para as questões fundiárias. A nação una e indivisível se afirmava na incorporação de terras e uso indiscriminado dos recursos do subsolo.
Tal imaginário ainda se verifica quando se analisa os projetos capitalistas previstos para a Amazônia. Assim, os capitalistas subordinaram os trabalhadores à sua ideologia dominante. Ou seja, mascararam seus interesses particulares como interesses nacionais. Entre 1960 e 1985, a nação foi colocada a serviço do ideário desenvolvimentista do país. Toda oposição era vista como ameaça comunista aos interesses nacionais, mas na verdade ameaçava os pecuaristas, sojicultores, industriais e grupos mineradores.
O segundo padrão, a partir de 1980, possui uma vertente tecno-ecológica. A questão ambiental passa a ser uma preocupação do capital, a defesa de saberes culturais e a manutenção da biodiversidade se tornam estratégicos para aumentar os lucros. É como se o capital se vestisse de verde, um “eco-capitalismo”, com preocupações agro-ecológicas. Desenvolvimento sustentável, crédito de carbono e aquecimento global são alguns dos pontos-chave dessa agenda. A Amazônia encerra esses dois padrões de acumulação.
O agronegócio, de um lado, e a agro-ecologia, do outro, simbolizam o debate entre duas aparentes forças contraditórias.Se o agronegócio na Amazônia representa um padrão que demanda expansão da lavoura, desmatamento, concentração fundiária e exclusão social, a agro-ecologia revela duas faces. Uma delas envolve os movimentos sociais de resistência ao agronegócio. A outra apesar do discurso contra-hegemônico ao capital não é capaz de revolucionar a sociedade.
Trata-se de um discurso radical que não combate as raízes do sistema, mas somente tenta reformá-lo; Acaba sendo uma “prática humanista” que não vai até o fim dos reais problemas. Não busca a destruição do mercado capitalista e suas leis orientadas para acumulação. Sem esse combate, não é possível inverter a situação que temos hoje: alimentos sendo produzidos, não para alimentar pessoas, e sim para dar lucro às grandes corporações.
A luta contra a propriedade privada dos meios de produção e pela planificação da economia, isto é, o planejamento democrático da produção, circulação e consumo das mercadorias, são as bandeiras dos revolucionários, e isso não aparece no cerne da luta pela agro-ecologia. Outro debate é a atuação do Estado, que é contraditório, mas funcional ao capitalismo. Os embates atuais entre os ministérios da Agricultura e Planejamento x Meio Ambiente revelam as contradições da coalizão que compõem o governo Lula. Debateremos isso nos próximos artigos.

sábado, 7 de novembro de 2009

MEMMI, Albert. Retrato do Colonizado precedido do Retrato do colonizador. Trad. Marcelo Jacques de Moraes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 200

- Foi escrito antes da Guerra da Argélia. Os primeiros trechos foram publicados nas revistas Les temps Modernes e Esprit em 1956.
- É bom que os líderes dos povos colonizados sejam homens de ação e não filósofos.
- O livro é um clássico para os historiadores da colonização.
- O livro revela os mecanismos comuns à maior parte das opressões em qualquer lugar do mundo.
- A colonização fabrica colonizados assim como fabrica colonizadores.

PREFÁCIO DO AUTOR (1966)

“Um dia certamente acabarei fazendo esse retrato geral do oprimido” p. 12.
“Realizei este inventário sobre a condição do colonizado primeiramente para compreender a mim mesmo e identificar meu lugar entre os outros homens” p. 13.
“Eu estava assim descobrindo, em suma, que todos os colonizados se pareciam; e deveria em seguida constatar que todos os oprimidos se pareciam em alguma medida” p. 13.
“A noção de privilégio, como, no entanto, repeti com freqüência, está no cerne da relação colonial [...] o aspecto econômico da colonização é para mim fundamental” p. 16.
“O privilégio colonial não é unicamente econômico” p. 17.
- A relação opressora não se mostra apenas no viés econômico, ela tem outras facetas.
“No fundo, não sabemos inteiramente o que o homem é em definitivo, o que é essencial para ele, se é o dinheiro ou o sexo, ou o orgulho, se a psicanálise tem razão contra o marxismo, ou se isso depende dos indivíduos e das sociedades” p. 17-18.
“Esse retrato do colonizador era também em parte o meu; um retrato projetado, digamos, no sentido dos geômetras” p. 20.
“Cada um é o que sua condição objetiva faz dele, já o disse várias vezes” p. 21.
“Eu me perguntava se teria realmente conseguido condenar tão vigorosamente a colonização se tivesse me beneficiado mais dela” p. 21.
“Sou incondicionalmente contra todas as opressões” p. 21.
“Se a colonização destrói o colonizado, ela apodrece o colonizador” p. 22.

PREFÁCIL (Jean-Paul Sartre/1957).
“Os jornais de lá (Argélia francesa) nos repetem que apenas o colono está qualificado para falar da colônia” p. 25.
“A conquista se deu pela violência; a superexploração e a opressão exigem a manutenção da violência e, portanto, a presença do exército” p. 27.
“O colono desfruta lá na Metrópole, dos direitos democráticos que o sistema colonial recusa aos colonizados” p. 27.
“O colonialismo recusa os direitos do homem a homens que submeteu pela violência, que mantém pela força na miséria de subumanidade” p. 28.
- O racismo é uma prática colonialista (cf.: p. 28).
“Não há bons ou maus colonos: há colonialistas” p. 29.
“O conservadorismo engendra a seleção dos medíocres. Como é que esta elite de usurpadores conscientes de sua mediocridade pode fundar seus privilégios? Só há um meio: rebaixar o colonizado para engrandecer a si mesmo, recusar aos nativos a qualidade de homem, defini-los como simples privações” p. 29.
“Os opressores produzem e mantêm pela força os males que, aos seus olhos, tornam o oprimido cada vez mais semelhante ao que precisaria ser para merecer sua sorte” p. 30.
“O colono só pode absolver a si mesmo ao perseguir sistematicamente a desumanização do colonizado, isto é, ao identificar-se a cada dia um pouco mais com o aparelho colonial. O terror e a exploração desumanizam, e o explorador se sente autorizado por essa desumanização a explorar ainda mais” p. 39.
Como fazer de um seringalista o herói, pois ele se beneficiou do sistema que o fez grande, que o fez rico, sistema esse que produziu milhares de desumanizados. A humanização do seringueiro poria em risco a espoliação. A opressão não pode, enfim, ser motivos de “comemorações” e “festejos”, pois é alimentada pelo ódio e pela violência.
“A opressão é primeiramente o ódio do opressor contra o oprimido. Só há um limite para esse empreendimento de extermínio: o próprio colonialismo” p. 30.
“O sistema quer a um só tempo a morte e a multiplicação de suas vítimas; qualquer transformação lhe será fatal: quer se assimilem ou se massacrem os nativos, o custo da mão-de-obra não vai parar de subir” p. 30
- Os que movem o sistema estão obrigados a se manterem mais perto da morte do que da vida.
- O opressor ressuscita a humanidade que quer destruir. “Uma vez que a nega nos outros, reencontra-a em toda parte como uma força inimiga” p. 31.
- O sistema colonial é uma força em movimento.
“Esses excluídos reinvindicarão sua exclusão sob o nome de personalidade nacional: é o colonialismo que cria o patriotismo dos colonizados” p. 30.
- O sistema opressivo que torna o colonizado em animal leva o povo a pensar que só a morte o libertaria. A partir de então, são capazes de morrer pelo que defendem ser a pátria. A defesa da pátria nada mais é do que a defesa de dias melhores. “É seu infortúnio que se tornará em coragem; desta eterna recusa que a colonização lhe opõe ele fará a recusa absoluta da colonização” p. 32. Pode ser que os seringueiros tivessem sido bombardeados com a idéia de que os bolivianos fossem o mau de toda aquela opressão. Por isso, deram as vidas para a causa acreana. A atroz agonia do seringueiro não produziu nada mais do que uma sociedade conservadora ao extremo... Esse é o produto direto da revolução!!!!.

PARTE 1 – RETRATO DO COLONOLIZADOR

O sentido da viagem colonial

“Os motivos econômicos da empreitada colonial já foram esclarecidos por todos os historiadores da colonização; ninguém mais acredita na missão cultural e moral, mesmo original, do colonizador” p. 37.
- A partida rumo à colônia geralmente não é uma escolha incerta, uma aventura como se costuma dizer. A viagem é uma tentação à facilidade.
- Quais razões do colono se expatriar e quais os motivos dele ter persistido no exílio?
“Nosso viajante nos proporá a melhor definição que existe da colônia: lá se ganha mais e se gasta menos. Vai-se para a colônia porque as situações são asseguradas, os tratamentos elevados, as carreiras, mas rápidas e o negócios mais frutuosos” p. 38.
- A colônia é um purgatório remunerado no qual enriquecerá para voltar à metrópole. “Seu exílio, na verdade, é de base econômica: o do novo-rico que corre o risco de ficar pobre [...] quanto mais o tempo passar, mais durarão as vantagens” p. 39.
“Nem mesmo aqueles que chamamos na colônia de pássaro de passagem manifestaram pressa excessiva de partir” p. 39.
“Mas se um dia o econômico é atingido, se as situações, como se diz, correm riscos reais, o colonizador se sente então ameaçado e pensa, seriamente desta vez, em voltar para a metrópole” p. 40.
“Ele percebe que esse lucro só é tão fácil por ser arrancado de outros” p. 40.
- é a relação com o colonizado que cria o privilégio do colonizador. “Se seu nível de vida é elevado, é porque o do colonizado é baixo” p. 41
- O discurso oficial é sempre escrito por ele. “É ele que concebe as leis que fixam seus direitos exorbitantes e os deveres dos colonizados [...] é ele o beneficiário de toda a empreitada” p. 42.
“Estrangeiro, chegado a um país pelos acasos da história, ele conseguiu não somente criar um espaço para si como também tomar o do habitante, outorgar-se espantosos privilégios em detrimento de quem de direito” p. 42.
- As leis locais, legitimam a desigualdade pela tradição. É um usurpador – um privilegiado não legítimo. E isso, “não apenas aos olhos do colonizado, mas aos seus próprios olhos” p. 42.
“Os colonizados mais favorecidos jamais deixarão de ser colonizados” p. 43.
“O colonial seria o europeu vivendo na colônia sem privilégios, em condições de vida que não seriam superiores às do colonizado de categoria econômica e social equivalente. Por temperamento ou condição ética seria o europeu benevolente, que não teria em relação ao colonizado a atitude do colonizador. Ora, vamos dizer logo, a despeito da aparência ultrajante da afirmação: o colonial assim definido não existe, pois todos os europeus das colônias são privilegiados” p. 43-44.
“Se o pequeno colonizador defende o sistema colonial com tanta firmeza, é porque é mais ou menos beneficiário dele. A mitificação reside no fato de que, para defender seus limitadíssimos interesses, ele defende outros infinitamente mais significativos, dos quais, por outro lado, é a vítima” p. 45.

“Em maior ou menor grau, todo colonizador é privilegiado” p. 45.
- Há um preconceito do próprio colonizado, “que concede a ele mais do que aos melhores dos seus” p. 46.
- Os valores dos colonizadores são reinantes na colônia.
- Os colonizados querem escapar da condição de colonizado. “Por isso, eles se esforçam para se assemelhar ao colonizador, na esperança declarada de que este pare de reconhecê-los como diferentes” p. 48.
“Ao decidirem se colocar a serviço do colonizador e defender exclusivamente os interesses dele, acabam adotando sua ideologia, mesmo em detrimento do próprio grupo e de si mesmos” p. 49.

PARTE 2 – O COLONIZADO QUE RECUSA A SI MESMO (p. 53).

O colonizador de boa vontade...

“Antes da colonização, os colonizados já não estavam atrasados? Se se deixaram colonizar foi precisamente porque não tinham porte para lutar, nem militar nem tecnicamente” p. 60.
“Existe incontestável mal-estar da esquerda européia diante do nacionalismo” p. 64.
“A esquerda atual está desorientada diante do nacionalismo” p. 65.
“Ora, por múltiplas causas, históricas, sociológicas e psicológicas, a luta dos colonizados por sua libertação assumiu uma fisionomia nacional e nacionalista pronunciada” p. 65.
- O socialismo é exportável? O marxismo é universal?




PARTE 3 – O COLONIZADOR QUE ACEITA A SI MESMO

... ou o colonialista (imigrante!!!).

“O colonialista, em suma, é apenas o colonizador que se aceita como colonizador. E que, então, ao explicitar sua situação, busca legitimar a colonização” p. 83.
“É comum opor o imigrante ao colonialista de nascimento. O imigrante adotaria mais frouxamente a doutrina colonialista” p. 83.
- Decidir fazer a vida na colônia já não é um bom sinal. O imigrante, de início, está disposto a aceitar tudo.
“Vindo expressamente para provar do benefício colonial, ele será colonialista por vocação” p. 84.

O RETRATO
“Geralmente o homem é jovem, prudente e civilizado, tem a espinha curvada e os olhos grandes. Em qualquer circunstância justifica tudo, as pessoas de posição e o sistema... está atento a possibilidade de conquistar uma posição, de obter sua parte. Na maioria das vezes, aliás, ele foi chamado ou enviado para a colônia: um protetor o envia, um outro o recebe, e sua posição já está à sua espera” p. 84.
“Como é que tais outros não se regozijariam por terem vindo para a colônia? Não estariam convencidos da excelência do sistema, que faz deles o que são?” p. 85.
“Desde então o defenderão agressivamente e acabarão achando que é justificado. Em suma, transformaram-se em colonialistas” p. 85.

O COLONIALISTA POR PERSUASÃO
“Funcionário nomeado ali por acaso, ou primo a quem o primo oferece asilo, ele pode até mesmo ser de esquerda ao chegar e se transmudar irresistivelmente, por meio do mesmo mecanismo fatal, em colonialista intratável ou dissimulado” p. 85.
- Os mais éticos partem da colônia... “não aceitam se beneficiar da injustiça cotidiana” p. 85. Os interesseiros e gananciosos esperam dali saírem ricos.
“Os medíocres ficam, e pelo resto da vida. Pois eles não esperavam tanto, uma vez instalados, evitarão largar sua posição; a não ser que lhes seja oferecida uma melhor, o que só pode lhes acontecer na colônia” p. 87.
“A promoção dos medíocres não é um erro provisório, mas uma catástrofe definitiva, de que a colônia jamais se recuperava” p. 88.
“Essa seleção gradual dos medíocres, que necessariamente se opera na colônia, é ainda agravada por um campo exíguo de recrutamento. Apenas o colonizador é chamado por seu nascimento, de pai para filho, de tio para sobrinho, de primo para primo, por uma jurisdição exclusiva e racista, para a direção dos negócios da cidade. Assim, a classe dirigente, que provém unicamente do grupo colonizador, de longe o menos numerosos, só é beneficiada de uma irrisória aeração” p. 88.
“É o MEDÍOCRE, enfim, que impõe o tom geral da colônia. É ele o verdadeiro parceiro do colonizado, pois é quem mais precisa de compensação e da vida colonial [...] De maneira que, se nem todo colonialista é um medíocre, mas todo o colonizador deve aceitar em alguma medida a mediocridade da vida colonial, deve compor com a mediocridade da maioria dos homens da colonização...” p. 88.
- O usurpador é o privilegiado não-legítimo.
- Fazem qualquer coisa para tornar sua usurpação em legitimidade. a) ressaltando os méritos do usurpador, “tão eminentes que pedem uma recompensa como essa” p. 99.
“A inquietação do usurpador, sua sede de justificação exigem dele, ao mesmo tempo, que se auto-eleve às nuvens, e que afunde o usurpado para baixo da terra” p. 90.
“quanto mais o usurpado é esmagado, mais o usurpador triunfa na usurpação, para depois se confirmar em sua culpabilidade e em sua condenação” p. 90.
- A simples existência do usurpado é o bastante para caracterizar o usurpador.
“Uma vez que tomou consciência da injusta relação que une ao colonizado, precisa aplicar-se sem trégua à absolvição de si mesmo. Jamais se esquecerá de ostentar publicamente suas próprias virtudes, agirá com impetuosa tenacidade para parecer heróico e grande, merecendo amplamente sua fortuna” p. 62.
“A situação colonial fabrica colonialistas assim como fabrica colonizados” p. 93.
“Pois não é impunemente que se tem necessidade da política e do exército para ganhar a vida, da força e da iniqüidade para continuar a existir. Não é sem danos que se aceita viver permanentemente com a própria culpa” p. 93.

O PATRIOTA (p.95)
- é na metrópole que ele busca se encontrar. Ele apela à Metrópole, pois é o meio de diferenciar-se do colonizado.
“Ele apelará, portanto, para as qualidades de sua pátria de origem, celebrando-as, amplificando-as, insistindo em suas tradições particulares, em sua originalidade cultural” p. 96.
- Ao colonizado é negado a participação do esplendor da Metrópole.
“Seu puro fervor pela pátria faz dele, enfim, o patriota verdadeiro, aquele que melhor a representa, e no que ela tem de mais nobre” p. 96.
- POLÌTICA DO PRESTÍGIO: mostrar a força para não ter que utilizá-la.

O CONSERVADOR
“O nacionalismo do colonialista é, na verdade, de uma natureza particular. Ele se dirige essencialmente ao aspecto da pátria que tolera e protege sua existência sua existência ao aspecto da pátria que tolera e protege sua existência como colonialista. Uma metrópole que se tornasse democrática, a ponto, por exemplo, de promover uma igualdade de direitos até mesmo nas colônias, correria também o risco de abandonar as empreitadas colônias” p. 99.
- O nacionalismo é o rosto da pátria.
“Para que ele possa subsistir como colonialista, é necessário que a metrópole permaneça sendo eternamente uma metrópole. E na medida em que isso depende dele, compreende-se que se dedique à causa com todas as forças” p. 100.
“Toda nação colonial carrega assim, em seu seio, os germes da tentação fascista. O que é o fascismo se não um regime de opressão em proveito de alguns? [...] não há qualquer dúvida, para quem o viveu, de que o colonialismo é uma variação do fascismo” p. 100.
“O colonialista só pode sustentar governos e tendências opressivos e reacionários, ou no mínimo conservadores” p. 100.
“O colonialista é um germe de apodrecimento da metrópole” p. 101.
“O perigo e a ambigüidade de seu excessivo ardor patriótico podem ser, aliás, reencontrados e constatados na ambigüidade mais geral de suas relações com a metrópole. É claro que ele a glorifica e se agarra a ela, a ponto de paralisá-la, de afogá-la se for preciso” p.101.
“O colonialista não ignora que obriga a metrópole a sustentar um exército, e que se a colônia, para ele, só representa vantagens, para o metropolitano custa muito mais do que lhe dá em troca” p. 102.
“É notável que o racismo faça parte de todos os colonialismos, sob todas as latitudes. Não é uma coincidência: o racismo resume e simboliza a relação fundamental que une colonialista e colonizado” p. 107.
“O racismo colonial é tão espontaneamente incorporado aos gestos, às palavras, mesmo as mais banais, que parece constituir uma das estruturas mais sólidas da personalidade colonialista” p. 107.
“Um esforço constante do colonialista consiste em explicar, justificar e manter, tanto pelo verbo quanto pelo comportamento, o lugar e a sorte do colonizado, seu parceiro no drama colonial, e, portanto, seu próprio lugar” p. 107.
- Marcas do racismo: a) evidenciar as diferenças; b) valorizar as diferenças em benefício dele; c) afirmar que tais diferenças são essenciais e definitivas. Agem para que realmente passem a sê-las.
“A conversão do colonizado à religião do colonizador teria sido uma etapa no caminho da assimilação. Foi uma das razões pelas quais as missões coloniais fracassaram” p. 109.
“O paternalismo mais aberto se revolta assim que o colonizado reivindica alguma coisa, seus direitos sindicais, por exemplo,” p. 112.

PARTE 3 – RETRATO MÍTICO DO COLONIZADO

O nascimento do Mito p. 117

“Assim como a burguesia propõe uma imagem do proletário, a existência do colonizador demanda e impõe uma imagem do colonizado” p. 117.
“Nada melhor para legitimar o privilégio do colonizador do que seu trabalho; nada melhor para justificar a penúria do colonizado do que sua ociosidade. O retrato mítico do colonizado abarcará, portanto, uma inacreditável preguiça” p. 117.
“O que é suspeito é a unanimidade da acusação e a globalidade de seu objeto; de maneira que nenhum colonizado é salvo, nem nunca poderia ser” p. 119.
“Por meio de sua acusação, o colonizador institui o colonizado como ser preguiçoso”
“O colonizado não é livre para decidir se é colonizado ou não colonizado” p. 124.
“Um colonizado que dirige um automóvel é um espetáculo com o qual o colonizado se recusa a se acostumar; nega-lhe toda normalidade, como uma pantomima simiesca” p. 124.
“A ideologia de uma classe dirigente, como se sabe, se faz adotar em larga escala pelas classes dirigidas” p. 125.
“Para que o colonizador seja completamente o senhor, não basta sê-lo objetivamente; é preciso ainda que ele creia em sua legitimidade; e para que essa legitimidade seja completa, não basta que o colonizado seja objetivamente escravo, é necessário que ele se aceite como tal. Em suma, o colonizado deve ser reconhecido pelo colonizado” p. 126.
“Assim como o colonizador é tentado a aceitar-se como colonizador, o colonizado é obrigado, para viver, a aceitar-se como colonizado” p. 127.
Que o fez seringueiro? Quem o fez seringalista? A economia gomífera impõe a distinção. Era necessário que irmãos nordestinos se odiassem um ao outro, que um oprimisse o outro e que ambos fossem espoliados por um acima deles.
A situação do colonizado p. 129.
“Podemos dizer que a colonização fabrica colonizados, assim como vimos que fabrica colonizadores” p. 132.
“Munido apenas de sua língua, o colonizado é um estrangeiro em seu próprio país” p. 147.
“Curioso destino o de escrever para um outro povo que não o seu! Mais curioso ainda é escrever para os vencedores do seu povo!” p. 150.
“O esmagamento do colonizado está compreendido nos valores colonizados. Quando o colonizado adota esses valores, adota também sua própria condenação” p. 164.
- os primeiros homens são sempre os portadores da moral universal.

CONCLUSÃO
“Chega o dia em que o colonizado reergue a cabeça e faz oscilar o equilíbrio sempre instável da colonização” p. 188.
“A simples existência do colonizador cria a opressão, e só a liquidação completa da colonização permite a libertação do colonizado” p. 188.
“O que tem menos de trinta anos já não compreende a moderação dos mais velhos” p. 189.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

TRATADO DE PETRÓPOLIS

“É fora de dúvida que teoricamente, isto é, baseado em tratados, convenções, etc., só o Peru e a Bolívia têm o direito de pretender ou discutir a soberania do Acre e terras que o circundam” (Genesco de Castro, p. 21).

HISTÓRIA DA BOLÍVIA (Júlio Chiavenato. Bolívia com a pólvora na Boca)
- Tornou-se parte do império Inca no século XV. Quando os espanhóis chegaram no século XVI, a Bolívia, rica em depósitos de prata, foi incorporada no vice-reino do Pelo, e mais tarde no de La Plata.
- 1524: Francisco Pizarro[1], Diego de Almagro e Hernando de Luque lideraram a conquista espanhola do Império Inca.
- As colônias espanholas na América Latina estavam divididas em quatro VICE-REINOS: Nova Espanha; Nova Granada, Peru e Prata.
- O Alto Peru, inicialmente parte do Vice-reinado do Peru, juntou-se ao novo Vice-reinado do Rio da Prata (sendo a capital Buenos Aires) quando foi criado em 1776. Em 1784, a Espanha estabeleceu quadro intendências distritais no Alto Peru, cobrindo as atuais repartições administrativas de La Paz, Cochabamba, Potosí e Chuquisaca.
- Em 1782 o Alto-Peru se desliga do Vice-Reino de Lima e passa a fazer parte do Vice-Reinado de LA PLATA (hoje Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia).
- 26 de maio de 1825: Bolivar cria a República do Alto-Peru (que passaria a chamar Bolívia, a partir de 6 de agosto).

- GRANDE SECA (1876-79) – 20 mil morrem.
- TERREMOTO (1877)
- PESTE (1877) – dizimou sua lavroura.
- GUERRA COM O CHILE (1879-82) - a Bolívia perdeu seu acesso ao mar.
- GUERRA CIVIL (1899)
- Implantação Liberal (1899) – Golpe do General Pando.
- - - - - -- -- -
- É um paíse saqueado, perdeu mais de três quartos de seu território. “País do exército que perde todas as batalhas contra o invasor, mas que venceu todas contra seu próprio povo” (CHIAVENATO). Brasil, Paraguai, Chile e Argentina colocam suas réguas e dividem esse país. Geopolítica – fome territorial dos sub-imperialistas.
- País em que os Generais dão golpe de Estado para assegurar o contrabando de cocaína. 85% do país é formado por etnias indígenas.
- Sua economia é baseada na exportação de estanho.
“O exército boliviano era um amontoado de famintos” (CHIAVENATO).

CONCLUSÃO: diante da caótica situação, a Bolívia não tinha condição de estabelecer a ORDEM no Acre.

A Bolívia e o Acre
- As terras apareciam nos Mapas Bolvianos como “Tierras Non Descobiertas[2]”.
- A Bolívia não colonizou o Acre por que: a) sua atenção econômica estava voltada para a extração de ouro e prata; b) a mão-de-obra escrava estava quase totalmente alocada nas minas; c) tinha sua penetração dificultada pelos seringalistas brasileiros e pelo governo amazonense. d) Até chegar ao Acre exigia uma caminhada de 2 mil km pela selva.
- 02 de janeiro de 1899: Fundação da Alfândega (Aduana) Boliviana. Os Amazonenses perdem o direito de cobrar impostos sobre a produção da borracha (medo da crise fiscal). Dentre os vários decretos permitiu a navegação estrangeira ao rio amazonas. A polêmica fez Paravicini revogá-la. Nomeou vários brasileiros como funcionários.
- Após a deposição dos bolivianos por José Carvalho, o Governo Andino passa a negociar com os EUA. A trama é denunciada por Galvez.
*1901-1902: o ano mais boliviano no Acre.
*1902 – 1º de julho - Formação da Junta Revolucionária (Joaquim Vitor, Rodrigo de Carvalho, José Galdino, Gentil Norberto e Plácido de Castro). Os três primeiros já envolvidos com atentados anteriores.
*1902 – 03 de dezembro (Barão de Rio Branco é nomeado como Ministro das Relações Exteriores).
*1903 – 15 a 24 de janeiro (Vitória de Plácido de Castro – conquista Porto Acre). A tropa foi formada por seringueiros do Bom Destino, São Jerônimo e Caquetá.
*1903 – 21 de março (MODUS VIVENDI).
- BARÃO DE RIO BRANCO ficou com medo do confronto entre as tropas do presidente Pando e as de Plácido de Castro. - Por isso, manda o General Olímpio com uma tropa de 3 mil homens para o local (mais um couraçado, um contra-torpedo e um cruzador). O objetivo era manter a paz até que as negociações diplomáticas terminassem (Paz Armada)[3].
*1903 – 28 de janeiro (Decreto nº 03 de Plácido de Castro, define os limites do Estado Independente do Acre).


RELAÇÕES DIPLOMÁTICAS ENTRE BRASIL E BOLÍVIA
- O Brasil Imperial chegou a impedir que bolivianos navegassem pelo rio Amazonas. Isso só mudou por ocasião da Guerra do Paraguai (1864-1870).


Tratado de Ayacunho (27 de março de 1867)
- Foi assinado sem que ambos conhecessem a região. Não houve Comissões Demarcatórias.
- Foi assinado Malgarejo oprimia os indígenas.
- A linha BENI-JAVARI foi substituída pela MADEIRA-JAVARI.
- O artigo 11 fazia referência ao UTI POSSIDETIS.
- 1870: Comissão Demarcatória liderada pelo Visconde de Maracaju.
- 1878: Outra tentativa de levar a efeito o tratado com a Comissão Demarcatória liderada pelo Barão de Paima. As duas comissões fracassaram. A partir daí. O Tratado é esquecido.

Protocolo de 19 de fevereiro de 1895
- Estabelecimento de uma Comissão Demarcatória com o fim de estabelecer os limites do Tratado de Ayacucho.
- Brasil: Cel. Thaumaturgo de Azevedo. Bolívia: José Manuel Pando.
- Sob pressão do Ministro Castro Cerqueira, Thaumaturgo de Azevedo pede demissão e dá lugar à Cunha Gomes.

Acordo Medina-Carvalho, em 14 de junho de 1895
- O ministro boliviano Frederico Medina veio ao Brasil para discutir o processo demarcatório. O acordo foi assinado, no entanto, o Congresso Nacional brasileiro não o aprovou.

Linha Cunha Gomes (1898)[4]
- Resultado do acordo entre Brasil e Bolívia. “Da confluência do Rio Beni com o Mamoré (onde começa o rio madeira), para o este seguirá a fronteira por uma paralela (linha) tirada da sua esquerda, na latitude 10º 20’ até encontrar a nascente do Rio Javari” (7º 17’).
- O Congresso Nacional também ainda me parece que não havia aprovado a dita Linha.

Bolivian Syndicate (1899-1903).
- A idéia foi do embaixador boliviano em Londres Félix Aramayo.
- O objetivo era barrar o ímpeto revolucionário (conter o imperialismo brasileiro) e agilizar a exploração econômica da região.
- Tinha como um dos chefes o filho do presidente Roosevelt.
- Aramayo dizia que o Brasil queria fazer uma “América do Sul para os brasileiros”.
- Se propagou que o Sindicato era uma forma de amenizar os conflitos raciais nos EUA. Diziam que uma migração de negras para a região estava sendo organizada.

TRATADO DE PETRÓPOLIS (17 de Novembro de 1903)[5].
- Foi assinado diante da região dominada militarmente pelo Brasil.
- Evitou que organizações financeiras internacionais tivessem lugar na região.
- Põe fim ao Estado do Acre Meridional, a que Plácido de Castro administrava.

CONCLUSÃO: a) a Bolívia teria trânsito livre nos rios acreanos; b) 2 milhões de libras esterlinas; c) construção da ferrovia Madeira-Mamoré[6] (350 quilômetros), tinha o objetivo de transportar matérias-primas à Bolívia. d) cessão de terras no Mato Grasso.







[1] Dezessete cavalos e 200 aventureiros foram suficientes para dominar o Império Inca com 15 milhões de habitantes.
[2] Era longe dos centros administrativos. Era de difícil acesso.
[3] Manteve tropas no local forçando a Bolívia assinar o Tratado. “A Bolívia nada mais havia que fazer se não entregar o território”.
[4] Vale dizer que até o momento a região banhada pelo Rio Acre, Yaco e Purus era administrada pelo município amazonense chamado Floriano Peixoto.
[5] Ler Cláudio Araújo Lima que diz que a solução foi boa para a Bolívia por ter evitado a presença yanke na região.
[6] Concluída em 1912, a Madeira–Mamoré foi construída por 30 mil trabalhadores, dos quais 6 mil perderam a vida na empreitada (daí muitos a chamarem de “Ferrovia da Morte”). A importância econômica da Madeira–Mamoré foi efêmera. Em 1912, o Sudeste Asiático já despontava como o novo centro produtor que desbancaria a borracha brasileira. Mais tarde, a própria Bolívia perderia seu interesse pela ferrovia, pois uma estrada de ferro construída pelo Chile passou a ligá-la ao Oceano Pacífico de forma rápida e muito mais barata. Na década de 1960, o governo brasileiro finalmente desativou a Estrada de Ferro Madeira–Mamoré, da qual restam hoje em operação 27 quilômetros, utilizados apenas para fins turísticos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

TEORIA: A HISTÓRIA FALADA

História Falada

História do Negro no Brasil

Livro - Uma Historia Do Negro No Brasil

Criacionismo x Evolucionismo

Philip Yancey - Feito de Um Modo Especial e Admirável

LIVRO: Da Monarquia à República - Emilia Viotti.

Emilia Viotti Da Costa - DA MONARQUIA À REPÚBLICA (Momentos Decisivos

O ACRE POR UM CAVALO BRANCO

Por Marcos Vinícius Neves (*)
É normal para os brasileiros, que estudam ou trabalham na Bolívia, ouvirem uma estranha história de que o Acre foi trocado com o Brasil por um cavalo branco. É uma história estranha porque aqui, no Brasil, não conhecemos essa história, mas basta conversar um pouco com os bolivianos pra descobrir de onde surgiu isso.
Dizem os bolivianos que, infelizmente para eles, tiveram durante um período de sua história um presidente louco chamado Mariano Melgarejo. Coube a esse Presidente, ridicularizado por seu próprio povo, negociar com o Brasil a questão de limites entre os dois países no período da Guerra do Paraguai.
Isso era importante para o Brasil porque interessava ao governo brasileiro neutralizar qualquer possibilidade da Bolívia se unir ao Paraguai na guerra que estava sendo travada entre esse país e a coalizão formada por Brasil, Argentina e Uruguai. Por isso, sob pressão, o governo brasileiro se propôs a rever o Tratado de Madri (1750), que até então definia a fronteira entre o Brasil e a Bolívia.Entretanto, o consul brasileiro na Bolívia, Regino Correa, conhecendo a paixão do presidente Melgarejo por cavalos, antes mesmo de iniciar as negociações, o condecorou com uma medalha e lhe deu de presente um casal de lindos cavalos brancos de raça.
Contam que o Presidente boliviano ficou tão feliz com o presente recebido que na hora da negociação deu de presente para o Brasil dois dedos de terra marcados no mapa, uma vez que se tratava de terras despovoadas. Com isso, a linha divisória, que a partir de 1750 era reta, passou a ser oblíqua, dando origem à linha imaginária conhecida hoje como Linha Cunha Gomes.Entretanto, essas terras ao norte da linha oblíqua Cunha Gomes, não pertencem ao Acre, mas hoje fazem parte do território do Estado do Amazonas.
Sendo que as terras ao sul da linha Cunha Gomes foram conquistadas pela luta dos brasileiros do Acre durante a Revolução Acreana e legalmente anexadas ao Brasil através do Tratado de Petrópolis (1903), assinado com a Bolívia, e do Tratado do Rio de Janeiro (1909), assinado com o Peru.A seguir textos mais antigos, já publicados, que detalham um pouco melhor a questão dos Tratados de Limites.
(*) O historiador Marcos Vinícius Neves é presidente da Fundação Garibaldi Brasil.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

FUNDO PREVIDENCIÁRIO DO ACRE

Ednei Muniz

O governador Binho Marques (PT) afirmou nesta segunda-feira, 26, durante o “Seminário de Previdência do Estado do Acre”, que o Fundo Previdenciário Estadual é uma verdadeira bomba-relógio. Disse, ainda, que a saúde financeira do mesmo poderá não ser satisfatória para arcar com o pagamento das aposentadorias que virão no futuro próximo.

O problema, bastante previsível à época em que começou a ser produzido, é grave e precisa entrar na pauta de todos os sindicatos, e demais instituições, imediatamente. O alerta já foi dado, sabiamente, pelo governador.

Para ilustrar a situação, e também para ajudar na reflexão do problema, faremos alguns comentários, inevitáveis, diga-se, a cerca do histórico do Fundo Previdenciário Estadual desde que foi criado.

Desde o nascedouro, em 1994, o Fundo Previdenciário nunca deixou de causar polêmicas. Já no ano de sua criação, o então governador Romildo Magalhães pegou emprestado R$ 1,5 milhão para complementar as despesas de pagamento dos servidores públicos, referente ao mês de julho, e também para garantir o repasse do duodécimo dos Poderes Legislativo e Judiciário, bem como do Ministério Público e do Tribunal de Contas, referente ao mês de agosto daquele ano. Na época, o procedimento contou com o aval de todas as instituições interessadas. Ninguém disse nada, até mesmos os sindicatos assinaram em baixo. Detalhe: o procedimento foi ilegal.

Em 1996, mais especificamente em 30 de março, o governo, mais uma vez contrariando a lei, solicitou ao Fundo um empréstimo de R$ 7 milhões para, novamente, pagar os salários atrasados dos servidores. A medida foi adotada após o governo argumentar que o Estado passava por dificuldades financeiras, o que foi desmentido pelo Tribunal de Contas logo em seguida, ao afirmar que havia disponibilidade financeira de R$ 13 milhões.

Levantamentos realizados à época confirmaram que no período de 1º de abril de 1994 a 31 de março de 1996 foi descontado dos servidores para o Fundo Previdenciário R$ 26 milhões. No entanto, nesse período todo, apenas R$ 7 milhões foram destinados efetivamente para as contas do fundo.

Até hoje não se sabe ao certo onde o dinheiro foi parar. Segundo o Ministério Público Federal, Orleir Camelir teria argumentado que seria para investimentos em casas, mas que nunca saíram do papel. Os fatos chegaram a constar do pedido de impeachment do ex-governador, que como já narrado por mim em outra oportunidade, acabou em cachaça e coca-cola em pleno salão nobre da Aleac. Ainda existe gente afirmando que alguns deputados foram comprados com dinheiro do fundo.

Enfim, o tempo passou, veio o atual governo e tentou evitar o pior (é preciso reconhecer), mas, ao que tudo indica, as feridas do passado foram mais profundas do que se imaginava na época negra em que instituições públicas e sindicatos, entre a cruz e a espada, assinavam acordos ilegais para destruir a aposentadoria futura de pobres trabalhadores.

Por fim, fica a pergunta: quem pagará a conta?

♦ Edinei Muniz é advogado

Fonte: http://altino.blogspot.com/

III Simpósio Linguagens e Identidades da/na Amazônia Sul-Ocidental: Línguas, Linguagens e Fronteiras

23 a 27 de novembro de 2009

Programação Oficial

23/11/09, segunda-feira, das 14:00 às 17:00hs. Sessão Inaugural: “Oralidade, memórias da resistência e lutas pela terra nas fronteiras Bolívia-Peru-Brasil-Paraguai”.
• Doris Domiguez Ecuari (Federación de Mujeres Campesinas Bartolina Sisa de Pando - Bolívia).
• Dercy Teles (Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri – Brasil).
• Jorge Gomes (Liderança kaiowa Guarani, aldeia Pirakua, Bela Vista Mato Grosso do Sul – Brasil).
• Egon Dionisio Heck (Conselho Indigenista Missionário – CIMI, Mato Grosso do Sul – Brasil).


23/11/09, segunda-feira, das 19:00 às 22:30hs. Sessão e Conferência de Abertura: “Amazonía: imaginario y discurso”.
• Ana Pizarro (Universidade do Chile).

24/11/09, terça-feira, das 08:00 às 12:00 hs.
• Oficina: “A sala de aula no Atlântico Negro: escolarizando a temática da diáspora”, com Salomão Jovino da Silva (músico e historiador, São Paulo - Brasil).
• Oficina: “Ritmos negros de tambores do sudeste”, com José Carlos da Silva – Caçapava (músico – São Paulo – Brasil).
• Mini-curso: “Globalização, sociedades regionais e etnicidade”, com Eliseo López Cortés e César Pérez Ortiz (Universidade de Guadalajara - México).
• Mini-curso: “A violência e o corpo coletivo da mulher negra na diáspora", com Christen A. Smith (Universidade do Texas – EUA).
• Mini-curso: “Como documentar línguas e culturas indígenas através de gravações digitais de áudio e vídeo: os equipamentos, métodos e técnicas mais recentes”, com Denny Moore (Museu Paraense “Emílio Goeldi” – Brasil).
• Mini-curso: "América Latina: problemas culturales en la modernidad tardía", com Ana Pizarro (Universidade do Chile).

24/11/09, terça-feira, das 14:00 às 17:00 hs. Sessão Temática: “Histórias, territorialidades e línguas indígenas nas Amazônias”.
• Denny Moore (Museu Paraense “Emílio Goeldi” - Brasil).
• José Ribamar Bessa Freire (Universidade Estadual do Rio de Janeiro/Universidade do Rio de Janeiro - Brasil).

24/11/09, terça-feira, das 19:00 às 22:30 hs. Sessão Temática: “As Amazônias nas literaturas de viajantes naturalistas e ‘À margem da história’ de Euclides da Cunha”.
• Hideraldo Lima da Costa (Universidade do Amazonas - Brasil).
• Cesar Augusto de Oliveira Casella (Universidade Federal do Acre - Brasil.
• Cássio Santos Melo (Universidade Federal do Acre - Brasil).

25/11/09, quarta-feira, das 08:00 às 12:00 hs.
• Oficina: “Ritmos negros de tambores do sudeste”, com José Carlos da Silva – Caçapava (músico – São Paulo – Brasil).
• Mini-curso: “Globalização, sociedades regionais e etnicidade”, com Eliseo López Cortés e César Pérez Ortiz (Universidade de Guadalajara - México).
• Mini-curso: “A violência e o corpo coletivo da mulher negra na diáspora", com Christen A. Smith (Universidade do Texas – EUA).
• Mini-curso: “Como documentar línguas e culturas indígenas através de gravações digitais de áudio e vídeo: os equipamentos, métodos e técnicas mais recentes”, com Denny Moore (Museu Paraense “Emílio Goeldi” – Brasil).
• Mini-curso: "América Latina: problemas culturales en la modernidad tardía", com Ana Pizarro (Universidade do Chile).

25/11/09, quarta-feira, das 14:00 às 17:00 hs. Sessão Temática: “Territórios, fronteiras e identidades nas Amazônias e um pouco além”.
• Eliseo López Cortés (Universidade de Guadalajara - México).
• César Pérez Ortiz (Universidade de Guadalajara – México).
• Maria de Jesus Morais (Universidade Federal do Acre - Brasil).
• Irma Norka del Aguila Peralta (School for International Training - Peru).

25/11/09, quarta-feira, das 19:00 às 22:30 hs. Sessão Temática: “Perspectivas dos estudos linguísticos nas Amazônias”.
• Júlio César Barreto Rocha (Universidade de Rondônia - Brasil).
• Vicente Cruz Cerqueira (Universidade Federal do Acre - Brasil).
• Aldir Santos de Paula (Universidade Federal de Alagoas - Brasil).

26/11/09, quinta-feira, das 08:00 às 12:00 hs.
• Oficina: “Recital de violão afro-brasileiro”, com Valder Pereira do Lago - Dinho Nogueira (músico – São Paulo – Brasil).
• Mini-curso: “Globalização, sociedades regionais e etnicidade”, com Eliseo López Cortés e César Pérez Ortiz (Universidade de Guadalajara - México).
• Mini-curso: “A violência e o corpo coletivo da mulher negra na diáspora", com Christen A. Smith (Universidade do Texas – EUA).
• Mini-curso: “Como documentar línguas e culturas indígenas através de gravações digitais de áudio e vídeo: os equipamentos, métodos e técnicas mais recentes”, com Denny Moore (Museu Paraense “Emílio Goeldi” – Brasil).
• Mini-curso: "América Latina: problemas culturales en la modernidad tardía", com Ana Pizarro (Universidade do Chile).

26/11/09, quinta-feira, das 14:00 às 17:00 hs. Sessões de Comunicações Livres.

26/11/09, quinta-feira, das 19:00 às 22:30 hs. Sessão Temática: “Colonialidade e decolonialidade de saberes históricos em Áfricas e Américas ao Sul”.
• Márcio Souza (Escritor amazonense, Manaus - Brasil).
• Maria Antonieta Antonacci (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - Brasil).
• Marcos Vinicius das Neves (Fundação Municipal de Cultura “Garibaldi Brasil”, Rio Branco – Brasil).

27/11/09, sexta-feira, das 14:00 às 17:00 hs. Sessão Temática: “Diáporas negras e afroindígenas nas fronteiras Atlânticas”.
• Bebel Nepomuceno (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - Brasil).
• Agenor Sarraf Pacheco (Universidade da Amazônia - Brasil).
• Christen A. Smith (Universidade do Texas – EUA).

27/11/09, sexta-feira, das 19:00 às 22:30 hs. Sessão Especial de Encerramento: “Viola de Angola, percussões, letras, músicas e diálogos afrodescendentes”.
• Salomão Jovino da Silva (músico e historiador – São Paulo - Brasil).
• Cassius Jansen Coelho da Silva (músico – São Paulo – Brasil).
• Valder Pereira do Lago - Dinho Nogueira (músico – São Paulo – Brasil).
• Rogério da Silva Carlos – Temporini (músico – São Paulo – Brasil).
• José Carlos da Silva – Caçapava (músico – São Paulo – Brasil).

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

História do Acre em Slade - Galvez e a República do Acre

SLADE 6 - Galvez, A República do Acre e o Manifesto

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Plácido de Castro - Anotações sobre a Revolução Acreana.

CASTRO, Plácido. Anotações sobre a Revolução Acreana

sábado, 17 de outubro de 2009

PARA QUESTIONAR A COMUNICAÇÃO PÚBLICA NO ACRE

Por João Veras - Músico, advogado e outras coisas mais...

A propósito da conferência nacional de comunicação, também acho que é fundamental compreender a comunicação social no Acre muito além da idéia que aqui se tem dela como instrumento de propaganda governamental. Nesse sentido, não quero ficar analisando, neste momento, o que acontece fora daqui e fora dela (estaria alguma coisa mesmo fora?), muito menos entreter-me em discussão teórica sobre o nome, papel e “fenomenologia” das novas tecnologias no campo da comunicação. Não quero o desvio.

O que desejo é o enfrentamento reto das questões que envolvem as políticas governamentais de comunicação daqui. Interessa-me questionar a comunicação relacionada à cidadania local. Prefiro o que está ao meu alcance como, inclusive, cidadão consumidor da gestão dos meios de comunicação públicos no contexto republicano.

E já faço isso aproveitando a visibilidade do debate, que o governo local, não por gosto, mas por desgosto, foi levado a “abrir”, empurrado pela avalanche política do movimento popular pré-conferência nacional de comunicação - este que também empurrou o governo federal - e, com o mais legítimo interesse e a mais profunda franqueza, questionar se a política de comunicação pública, praticada pelo chamado sistema público estadual de comunicação do Acre, continuará sendo tão-só instrumento de propaganda dos feitos e idéias governamentais. Mais que isso. Se ele continuará impedindo que a pluralidade e diversidade de idéias, manifestações e informações locais seja objeto de suas transmissões igualmente locais.

Se ele continuará selecionando, sob critério da não-crítica, as caras e assuntos merecedores de difusão pública. Se ele continuará censurando o que não é espelho de dividendos eleitorais. Se ele continuará forjando uma imagem unívoca daquilo que tem denominado de acreanidade. Se ele continuará sendo alheio à pluralidade e diversidade da produção artística e científica locais. Se ele continuará sendo antidemocrático, também no aspecto da participação social na formulação de sua política de difusão radiofônica e televisiva (alguém conhece o Decreto Estadual 2.097, de 11/05/00?). Se continuará dominando, com mão de ferro, a imprensa local com a sua política de “distribuição” de verbas de mídia de governo.

O que me interessa tem cheiro de terra, de tempo imediato, de realidade, de mudança. Não me interessa simulações e truques. Apesar de saber que continuaremos envoltos em truques e simulações, apesar de saber que a caravana da insatisfação social passará enquanto os cães da comunicação continuam ladrando e lambendo suas patas de cifras, votos e enganos, com ou sem “conferências-tur” rumo à capital federal.

(por João Veras – joão_veras@hotmail.com)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

História do Acre - os povos milenares e o heroísmo acreano

SLADE 4 - Questao indígena no acre

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

PALESTRA - A Mídia atual: seus poderes e resistência.


sábado, 10 de outubro de 2009

História do Acre - Da questão dos limites à José Carvalho

SLADE 5 - História do Acre: Da questão dos limites até José Carvalho

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A modernização econômica do Acre: a transformação da Amazônia sul-ocidental de um estado brasileiro.


Fonte:

Por Daniel da Silva Klein.
Sobre o autor[1].


No dia 26 de abril de 1969 foi inaugurada no bairro 6 de Agosto, no segundo distrito da capital do Acre, Rio Branco, a Serraria Montenegro, com uma festa iniciada às nove da manhã e que teve a participação do então governador do estado do Acre Jorge Kalume, deputados e personalidades da vida pública local[2]. Na solenidade a professora Clarisse Fecury cortou a fita inaugural e uma benção de todo o estabelecimento foi feita pelo padre Nilo Zanini.

Logo em seguida o proprietário Sylvio Montenegro falou que seu investimento representa o começo de uma nova realidade, que deve superar toda a problemática tradicional de falência da borracha, mas não desprezou décadas de trabalho árduo realizado pelos seringueiros na manutenção dessa atividade econômica. Após o governador saudou o empenho do jovem investidor, ressaltando que o poder público só vinha aplaudir a iniciativa e ato contínuo o chefe das oficinas fez o primeiro movimento das maquinas para mostrar a real capacidade produtiva da serraria[3].

Alguns meses mais tarde a serraria colocava anúncios nos periódicos locais para fazer propagandas de seus produtos, principalmente para os moradores do primeiro distrito da capital, que só tinham acesso ao segundo distrito por barcos, catraias ou balsas. A serraria entregava seus produtos no porto do bairro da Base no primeiro distrito, sendo que seu leque de produtos incluía janelas, tacos, caixilhos e portas, madeiras serradas em geral e lambris variados[4].

Com a Serraria Montenegro iniciava no Acre uma mudança econômica de vulto, que tinha como principal objetivo a modernização de sua zona rural e o fomento de atividades voltadas para o setor de agropecuária e indústria madeireira. Esse projeto tem inicio em 1961, quando o então presidente João Goulart assina um acordo entre o Brasil e o Banco Mundial para o financiamento da construção da Br-364, ligando Cuiabá a Porto Velho.

O acordo previa que entre os mais de dois mil quilômetros de estradas que seriam abertas e asfaltadas, o governo brasileiro deveria bancar projetos de assentamento e fomentar atividades do setor agropecuário[5]. Com esse acordo diversas linhas de crédito para empreendimentos econômicos ligados a esse setor foram abertas na Amazônia e a Serraria Montenegro foi o primeiro estabelecimento no Acre a receber esses incentivos fiscais.
Ao deixar o cargo que ocupou no governo entre 1966 e 1971, Jorge Kalume assume a diretoria financeira do Banco da Amazônia, o BASA, ficando até 1978 gerindo projetos, planos e linhas de créditos que financiavam empreendimentos como serrarias, fazendas e assentamentos dirigidos pelos governos estaduais dos estados amazônicos[6].

Kalume era um político da ARENA e seu governo foi caracterizado de fato pela introdução no Acre do discurso e das praticas de colonização modernizadora da Amazônia, na época um dos pilares do regime militar. A partir do final dos anos 60 os antigos seringais deveriam ser substituídos por outros investimentos, porque pressões nesse sentido eram constantes e a ditadura assumiu como sua principal política pública para a Amazônia brasileira a modernização de sua zona rural e urbana, fomentando em larga escala a economia agropastoril.

Desde a segunda guerra mundial os seringais acreanos já não conseguiam mais sua auto-sustentação, os governos federais e estaduais foram cortando seguidamente os incentivos fiscais e os seus proprietários, os seringalistas, faliram porque não puderam mais manter o arcaico sistema de aviamento, que consistia numa cadeia hierárquica de escambos entre seringueiros, seringalistas, casas comerciais e casas aviadoras. Muitos deles foram viver de rendas nas praias do Rio de Janeiro ou Fortaleza, literalmente abandonando seus investimentos[7].

Era imperativo aos economistas dos governos militares mudarem essa situação. Existiam pressões para que o universo falido dos seringais fosse reocupado e nada mais obvio, então, que o fomento de toda uma política publica de re-ocupação do vale amazônico, que poderia se tornar tanto um receptor de populações indesejadas do centro sul do país como um espaço de investimentos de capital agropecuário.

O Banco da Amazônia vinculava naqueles anos propagandas a nível nacional para atrair pessoas interessadas na exploração da agropecuária em terras amazônicas, afirmando que muitos já eram capazes de tirar proveito daquela vasta região mergulhada em lendas. Vendia-se a idéia de que os estados daquelas paragens eram verdadeiras minas de ouro, capazes de oferecer aos primeiros que chegassem riquezas inimagináveis[8].

Como Jorge Kalume foi o quem iniciou essa política de re-ocupação da Amazônia no Acre, seu sucessor, Francisco Wanderley Dantas, no cargo entre 1971 a 1975, foi quem de fato implantou um forte programa de governo para fomentar esse projeto.

Homem nascido na cidade de Porto Acre, filho de família tradicional, cujo pai, Sebastião Gomes Dantas, lutou ao lado de Plácido de Castro na guerra do Acre, Wanderlei Dantas era experimentado nos estudos humanistas. Formado em geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi professor da Escola Superior de Guerra e escreveu diversos livros sobre a falência dos seringais[9]. Figura, portanto, perfeita para o cargo e para gerir esse grande projeto ao lado de Jorge Kalume, que lhe garantia fundos do governo federal.

Ao contrario de seu antecessor, Dantas chegou ao poder com um projeto já encaminhado e pronto para ser desenvolvido. O Acre daqueles tempos ainda dependia muito da falida economia da borracha, que há tempos vivia devido aos subsídios do governo federal. A estratégia de seu governo foi continuar maciçamente com as campanhas publicitárias sobre os incentivos fiscais na região, dando especial atenção, porém, a facilidade de compra de terra para implantação de fazendas de gado.

Chegou mesmo a pagar para que a Rede Globo fizesse um documentário sobre essa temática no Acre, que foi apresentado pelo jornalista Amaral Neto em cadeia nacional e deveria ser o programa televisivo responsável pela atração de pecuaristas para região[10].

Corria o ano de 1972 quando os primeiros fazendeiros do centro sul motivados por esses incentivos todos chegaram ao Acre. Tinham adquirido o antigo e vasto seringal Catuaba, uma propriedade gigantesca com mais de 150 mil hectares de terras, localizado no rio Acre logo abaixo da cidade de Rio Branco e margeando, pelos fundos, a recém inaugurada Br-364.

Já fazia algum tempo que os seringueiros desse seringal não viam os donos daquela propriedade, nem mesmo os noteiros que cuidavam da sede, que se encontrava fechada e tombando de velha. Não havia controle sobre a produção e há uns cinco anos produziam o que bem entendiam, sem se preocupar com a propriedade das terras[11].

Os novos donos do seringal encontraram um jeito diferente de tomar posse de suas terras, que eram ocupadas há décadas por gerações de famílias desses seringueiros. Contrataram dois jagunços com a incumbência de expulsar esses antigos moradores do lugar. Seu Raul, seringueiro residente na colocação Limeira, nas proximidades do deposito Desengano, foi o primeiro a receber a visita desses jagunços, que chegaram a sua casa ameaçando-o de expulsão imediata. Não sabendo do que se tratava, pois não tinha sido avisado da venda do seringal, seu Raul começou a discutir com os jagunços. A discussão descambou para um tiroteio onde seu Raul matou os jagunços e fugiu da região. Ninguém do Catuaba jamais o veria de novo[12].

A noticia desse tiroteio correu os varadouros dos seringais do vale do rio Acre. Poucos sabiam o que estava se passando, mas logo entenderam os motivos da visita daqueles jagunços. A parte do seringal Catuaba que margeava a Br-364 seria desocupada nos meses seguintes ao evento e suas florestas seriam derrubadas, dando lugar a grandes fazendas. A senhora Ivanilde Lopes que morava então nesse seringal não entendia como ele tinha falido, porque o Catuaba:

era um seringal que tinha três campos de gado. Na sede do seringal tinha também trinta e cinco moradores. Todos trabalhavam no barracão, uns trabalhavam na sede, outros comboieiros, outros eram vaqueiros, outro era escrivão do barracão, aí tinha o caixeiro, tinha o gerente do seringal [...] era um seringal muito grande[13].

Mas que de uma hora para outra foi sendo abandonado. Todos pensavam que os donos tinham se ausentado, mas voltariam e não imaginavam que alguém pudesse derrubar suas ricas florestas cheias de seringueiras prontas para serem exploradas. O que tinha acontecido de fato era que o Catuaba tinha sido vendido para um grupo de pecuaristas, que o dividiram entre si e que foram expulsando os seringueiros do local. Muitos saíram outros ficaram, resistiram e com o passar dos anos conseguiram a posse de suas terras através de um projeto de assentamento[14].

Paradoxalmente o discurso e as praticas econômicas modernizadoras iniciadas por Jorge Kalume e continuadas por Wanderley Dantas trouxeram vários conflitos, porque a substituição dos antigos seringais por fazendas e madeireiras não levava em conta o que fazer com uma legião de seringueiros que moravam nessas regiões.

A expulsão dos seringueiros se tornou corrente a partir de 1972 e desde então os fazendeiros passaram a ver sua atividade como uma luta, que opunha, por um lado, agentes de um sistema econômico falido e, de outro, arautos da modernidade agropastoril. Mario Junqueira, grande fazendeiro do sudeste, via assim seu trabalho na Amazônia:

os seringalistas, outrora um homem rico e hoje, em sua maioria endividados no Banco da Amazônia, sem condições de saldar seus compromissos, melhor será também enfrentar as novas estruturas, o novo desafio, e unir-se aos investidores que chegam, ou abandonar o campo de luta[15].
.
A modernização da Amazônia era um projeto extremamente conflituoso e que movimentava cifras estratosféricas, tanto que durante o governo de Wanderley Dantas foram vendidos mais de 4.000.000 de hectares de terras no Acre para apenas 284 pecuaristas. Esse número é ainda mais intrigante quando se fica sabendo que de toda essa área adquirida apenas quatro pessoas compraram mais de 1.200.000 hectares, ou seja, mais de 30% da área total do estado estava na posse de alguns poucos latifundiários[16].

O objetivo de implantação de uma economia agropecuária tornou-se posteriormente uma norma comum nos governos acreanos, tanto que Geraldo Mesquita, no cargo entre 1975 e 1979, realizou um grande seminário para discutir essa questão assim que assumiu seu mandato. Esse evento deveria tratar com profundidade esse problema e viabilizar com celeridade a modernização agropecuária na região.

Nomeado como Secretario do Fomento Econômico dessa administração, o professor José Fernandes do Rêgo deu uma pequena palestra nesse seminário, discutindo, dentre outras pautas, o trabalho do seringueiro. Segundo ele esse agente não estava apto a exercer os ofícios ordenados de uma fazenda, porque trabalhava nos momentos que quisesse. O objetivo de sua fala era enfatizar a idéia de que o meio agrícola moderno do Acre deveria impor a esse sujeito a emigração para as cidades[17].

Outro palestrante da mesa, o senhor Assis Couto, então coordenador regional do INCRA, concordou com os rumos apontados pelo senhor José Fernandes, afirmando ainda que esse sujeito econômico, o seringueiro, estava tornando-se a cada dia um elemento indesejável aos investidores, devendo, portanto, ser tratado como um elemento a ser eliminado. Geraldo Mesquita fechou os trabalhos lembrando que em seu governo algo seria feito com relação a essa classe de pessoas esquecidas e inaptas ao desenvolvimento moderno do Acre[18].

Essa reviravolta modernizadora da zona rural trouxe suas conseqüências. Os conflitos pela posse da terra no Acre acentuaram-se a tal ponto que diversos seringueiros e seringueiras foram barbaramente assassinados, populações inteiras foram deslocadas de suas colocações nos seringais para as cidades acreanas, sobretudo para Rio Branco, e os fazendeiros modificaram ao extremo a paisagem do vale do rio Acre. Antes onde se viam florestas verdejantes, viam-se extensas pastagens ocupadas por gado nelore.

A economia do Acre no inicio dos anos 80 já era baseada na agropecuária e o governo de Joaquim Falcão Macedo, que geriu o estado entre 1979 a 1983, foi responsável pela ampliação dessa política publica modernizadora. A principal característica de seu governo foi o esquema montado para receber as populações seringueiras que migravam em massa para as cidades do vale do rio Acre, principalmente Rio Branco.
A tônica na virada da década de 70 para a de 80 não era mais o fomento de uma economia agropastoril, mas a garantia de seu sucesso, tendo em vista que já era uma realidade no estado.

Antes dos anos 50 a cidade de Rio Branco era apenas uma pequena vila urbana encravada no meio da selva, porém sua população começa a dar saltos e nas duas décadas seguintes apresenta um significativo crescimento, que atinge seu ápice durante os anos 80. Entre 1970 e 1985 sua população quase duplica de tamanho e sua estrutura urbana entra em falência quase que completa. A modernização tinha chegado a capital do Acre e a sua zona urbana.

Informações dão conta de que nessa década de crescimento exorbitante bairros surgiam da noite para o dia, áreas que dormiam como matagais acordavam com dezenas de casebres de papelão. Um exemplo de bairro surgido impulsionado pelo êxodo dos seringueiros, que rumavam sem parar para a cidade de Rio Branco é o Triangulo Novo que tem seu núcleo original em uma ocupação datada de 1975.

Nos primeiros dias desse ano mais de 60 famílias limparam um matagal em uma área entre o bairro Triangulo Velho, a escola Carlos Vasconcelos e o igarapé do Almoço, construindo barracas de lona, madeira e papelão. Imediatamente os donos do terreno entram com um pedido de reintegração de posse e uma diligencia com carpinteiros, tratores e policiais comandados pelo delegado Enoch Santos e enviada ao local[20].

O proprietário do local afirmava que o terreno é de sua família desde a época em que o Acre ainda era território federal e exigia que as casas fossem todas derrubadas, o que causou ainda mais conflitos com os ocupantes. Alguns chegaram a perder todos os móveis por causa dos tratores que derrubaram as barracas sem prévio aviso[21].
Os anos passaram e a ocupação do Triangulo Novo foi tomando corpo até que a comunidade conseguiu a desapropriação do terreno para fins sociais em 1981, e a partir de então os moradores conseguiram de fato transformar a ocupação em bairro[22].

A saída encontrada pela administração de Joaquim Falcão Macedo para os graves problemas habitacionais da cidade foi inusitada: sua tática era esperar que uma ocupação de um determinado bairro aglomerasse um número significativo de pessoas, que se formasse ali uma comissão de ocupação e somente depois ele desapropriava o terreno ocupado, sem, contudo, realizar nenhuma benfeitoria no local.

Outro caso que demonstra essa estratégia de intervenção é o caso da ocupação do bairro João Eduardo. A área desse bairro no final de 1979 era apenas um grande matagal, habitado apenas por bois que pastavam por ali e entrecortado por caminhos de terra batida por onde circulavam moradores dos bairros vizinhos como o Bahia e o Palheiral.

Mas esse local estava ficando extremamente perigoso, porque os moradores dos bairros circunvizinhos estavam sofrendo violências das mais variadas, incluindo três assassinatos graves em pouco tempo. Após o último desses assassinatos, lideranças resolveram que a área deveria ser ocupada, então:

Este bairro foi construído a partir de uma tomada de posição dos moradores da Bahia, quando no final de 1979, acontecia a terceira vítima de violento assassinato em um matagal que separava aquele bairro da cidade, sendo desta vez a estudante Hosana Cordeiro[23].

Hosana Cordeiro foi estuprada, esquartejada e seu corpo foi deixado nessa área. Morava nas proximidades e quando foi assassinada estava voltando da aula a noite. O caso em si chocou a comunidade do Bahia que resolveu direcionar uma ocupação no bairro que tinha dois objetivos, um de sanar o problema da violência e outro de oferecer uma oportunidade às pessoas que naquele momento não tinham casas em Rio Branco.

Uma comissão formada pelas lideranças João Eduardo, Grangeiro, Maria do Cabelão e outras tomou a frente e começaram a divulgar uma ocupação na área, demarcando lotes e ruas. Em pouco tempo casebres de madeira e papelão eram erguidos e toda uma área encontrava-se habitada por mais de 200 famílias, que foram formando desde logo uma comissão mais ampla para reivindicar a posse da terra junto ao governo do estado[24]. José Granjeiro Mendes fazia parte dessa comissão e se refere a ele nesses termos:

A nossa comissão tinha dez pessoas e eu posso ainda citar alguns nomes, que eram o João Eduardo como presidente e eu como vice-presidente, tinha o Miguel Soares que chamavam de ‘Miguelzinho’, o Chico Bezerra, que foi o primeiro presidente da associação do bairro João Eduardo depois da comissão, e a dona Maria do Cabelão e tantos outros companheiros completando um número de pessoal. Essa era a comissão organizadora que foi eleita numa assembléia geral para cuidar da organização para que os moradores que ocupassem a área realmente não tivessem dificuldades e para que se pudessem evitar conflitos[25]

Nessa comissão João Eduardo logo assumiu a frente dos trabalhos de demarcação dos lotes, que tinham todos o formato de 10 metros de frente por 25 de fundos e com a frente para alguma rua. Toda a ocupação foi se desenhando e o futuro bairro assumia um padrão quadriculado de ruas em quadras.
Dessa forma, João Eduardo começou a ser conhecido como engenheiro da ocupação[26]. Os trabalhos da comissão eram o de impor um mínimo ordenamento urbano necessário ao lugar, que no futuro poderia receber benefícios estatais dos mais variados como implantação de escolas, construção de praças ou pavimentação de ruas.
Após alguns dias de ocupação os moradores do bairro resolveram fazer uma passeata em direção ao palácio Rio Branco, a sede administrativa do governo do estado do Acre. Conseguiram arregimentar mais de 500 pessoas e seguiram a pé do bairro até o centro da cidade, portanto cartazes e entoando musicas de cunho religioso das comunidades de base da igreja católica.
Chegando em frente ao palácio a comissão de ocupação foi recebida pelo então governador Joaquim Falcão Macedo e seu chefe de gabinete, Elias Mansour, que garantiram aos moradores a desapropriação do terreno ocupado. O governo garantia apenas a posse dos ocupantes e a regularização fundiária do local, mas não previu nenhum investimento no lugar. A demarcação dos lotes e o encaminhamento das documentações sobre os mesmos deveriam ser encaminhados pela comissão de ocupação, que teriam livre acesso aos órgãos governamentais[27].
Dessa maneira o governo reconhecia a ocupação do lugar, garantia a posse aos ocupantes e não realizaria nenhum investimento no bairro nascente. A estratégia adotada por Joaquim Macedo refletia a incapacidade do estado à época em resolver o problema da moradia, que atingia níveis de calamidade pública para uma cidade do porte de Rio Branco.
Por conta de problemas na ocupação João Eduardo foi morto ao demarcar um lote por um cidadão que se sentia prejudicado, mas os trabalhos continuaram e em 1980 o bairro já estava todo formado, recebendo o nome do líder comunitário. Nos anos seguintes os investimentos do governo não chegaram, as ruas continuavam sem pavimentação e a violência era tão alta, que motivou o surgimento de uma outra passeata rumo ao palácio do governo para exigir um posto policial no bairro[28].
O primeiro investimento no bairro só foi construído em 1985, quando o governo inaugurou ali uma pequena escola. A instituição, porém, teve que encerrar provisoriamente as aulas durante alguns dias do primeiro semestre do ano letivo porque os mais de 450 alunos não tinham acesso à água. A diretora Zilda Florêncio afirmou então que a escola João Paulo I só voltaria a funcionar se o abastecimento de água se regularizasse[29].

Esse cenário de calamidade pública foi avolumou-se de tal maneira que Rio Branco foi se tornando um caldo, onde grandes bairros em sua zona periférica não tinham as mínimas estruturas urbanas. Um dos resultados de anos de uma política modernizadora da zona rural acreana foi o êxodo das populações seringueiras, que viam os seringais serem vendidos e suas matas derrubadas para o crescimento de pastagens.

O governo de Joaquim Falcão Macedo concluiu um ciclo de modernização que teve duas frentes: a mudança econômica de toda uma região e o fomento ao crescimento da população urbana. Logicamente que esse ciclo trouxe sérios conflitos e a paisagem acreana foi sensivelmente modificada.

Pode-se dizer que essa modernização foi responsável pela pecuarização da economia acreana bem como pela mudança de um panorama onde a floresta amazônica era dominante. O Acre a partir da segunda metade dos anos 80 seria um estado eminentemente urbano, sua população se concentraria em cidades onde a estrutura urbana era quase inexistente.


Referencias.

Arquivos do Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural do Acre. Divisão de Pesquisa.

ALBERTO, Carlos. História do Acre: novos temas, nova abordagem. Rio Branco: Envira, 2002.

GONÇALVES, Carlos Walter Porto. Geografando: nos varadouros do mundo. Brasília: IBAMA, 2003.

Jornal O Rio Branco, várias edições.

KLEIN, Daniel da Silva. A conquista de Rio Branco: movimentos comunitários e direitos humanos na capital acreana de 1970 a 2000. Belém: Paka Tatu, 2009.

MARTINELLO, Pedro. A batalha da borracha na segunda guerra mundial e suas conseqüências para o vale amazônico. Rio Branco: Cadernos UFAC – Série “C”,1988.

PACHECO, Juraci Regina. A modernização do campo no Vale do Juruá. Rio Branco: edição da autora, S/D.

Revista Temporal: História e fontes orais. Varadouros de uma vida: Matias por ele mesmo. Rio Branco: UFAC, novembro de 1997.

Revista Veja, 12 de novembro de 2008.

www.ibge.gov.br/seculoxx/arquivos_pdf/populaço.shtm.


[1] Graduado em História pela Universidade Federal do Acre – UFAC, cursando o mestrado em Letras dessa mesma instituição. Autor do livro A conquista de Rio Branco editado pela Paka Tatu. Atualmente funcionário público concursado para o cargo de Historiador do Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural do Acre e recentemente aprovado para a cadeira de Estudos em História da UFAC.
[2] Serraria Montenegro Inaugura hoje setor de carpintaria. In: Jornal O Rio Branco, 26 de abril de 1969, Rio Branco, Acre. p. 04.
[3] Serraria Montenegro Amplia suas atividades. In: Jornal O Rio Branco, de abril de 1969. p. 01.
[4] Serraria Montenegro modernize sua residência ou escritório. In: Jornal O Rio Branco, 24 de junho de 1969. p. 03.
[5] KLEIN, Daniel da Silva. A conquista de Rio Branco: movimentos comunitários e direitos humanos na capital acreana de 1970 a 2000. Belém: Paka Tatu, 2009. pp. 38/39.
[6] Pasta Governadores, arquivos do Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural do Acre. Divisão de Pesquisa. Documento Lema dos Governadores do Acre, p. 12.
[7] MARTINELLO, Pedro. A batalha da borracha na segunda guerra mundial e suas conseqüências para o vale amazônico. Rio Branco: Cadernos UFAC – Série “C”,1988. Cap. V.
[8] Chega de lendas, vamos faturar. In: Revista Veja, 12 de novembro de 2008. p. 133.
[9] Pasta Governadores, ibid, p. 1.
[10] PACHECO, Juraci Regina. A modernização do campo no Vale do Juruá. Rio Branco: edição da autora, S/D. p. 113.
[11] KLEIN, ibid, pp. 53-54.
[12] Id, ibid.
[13] SILVA, Ivanilde Lopes da. In: KLEIN, ibid, p. 54.
[14] KLEIN, ibid, p. 58.
[15] GONÇALVES, Carlos Walter Porto. Geografando: nos varadouros do mundo. Brasília: IBAMA, 2003. p. 343.
[16] Id, ibid.
[17] Comissão Parlamentar se reúne. In: Jornal O Rio Branco, 11 de novembro de 1975, p. 2.
[18] Id, ibid.
[19] Essas estimativas populacionais foram retiradas das seguintes fontes: População recenseada. Confronto dos resultados censitários de 1872 a 1960; Brasil – Séries estatísticas retrospectivas. População estimada. Municípios das capitais de 1960 a 1970; Anuário estatístico do Brasil. População presente recenseada, segundo os municípios das capitais de 1872 a 1980; População recenseada estimada. População residente estimada, segundo as unidades da federação e municípios; Anuário estatístico do Brasil. Estatísticas populacionais. População residente, segundo os municípios das capitais. Todas acessadas no site: www.ibge.gov.br/seculoxx/arquivos_pdf/populaço.shtm.
[20] Reintegração no Triangulo. In: Jornal O Rio Branco, 18 de fevereiro de 1975. p. 01.
[21] Id, ibid.
[22] KLEIN, ibid, p. 100.
[23] Associação de Moradores do Bairro João Eduardo, 6 de julho de 1983. Memorando: A Situação do Bairro Hoje. p. 1.
[24] ALBERTO, Carlos. História do Acre: novos temas, nova abordagem. Rio Branco: Envira, 2002. pp. 45/46.
[25] Pasta Revista João Eduardo, arquivos do Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural do Acre. Divisão de Pesquisa. Documento Entrevista de José Granjeiro, 13 de maio de 2005.
[26] Revista Temporal: História e fontes orais. Varadouros de uma vida: Matias por ele mesmo. Rio Branco: UFAC, novembro de 1997. p. 89.
[27] Entrevista de José Granjeiro Mendes, ibid.
[28] Nabor recebe comissão que pede segurança para o bairro. In: Jornal O Rio Branco, 28 de julho de 1984, Rio Branco, Acre. p. 06.
[29] Falta d’água. In: Jornal O Rio Branco, 20 de março de 1985, Rio Branco, Acre. p. 03.

sábado, 3 de outubro de 2009

Marina Silva e os verdes


Hugo R C Souza
Pouco a pouco, aproxima-se mais um processo eleitoral farsesco na semicolônia do Brasil. Ao longo dos próximos meses, os grupos de oligarcas e oportunistas que disputam a primazia do gerenciamento entreguista e serviçal do velho Estado semifeudal brasileiro se exibirão como pavões para as instituições de dominação política do imperialismo e das classes dominantes nativas, esmerando-se para provar lealdade a quem realmente manda. Reunidos em partidos e coligações de partidos, em outubro de 2010 toda a corja se engalfinhará em mais uma eleição presidencial, ápice desta corrida que leva o carimbo indelével do comprometimento de todos os candidatos com as demandas da rapinagem neocolonial, com as políticas anti-povo e com os esforços para dar sobrevida às instituições burguesas em avançado estado de decomposição.Com essa maior proximidade de mais um sufrágio burguês em nosso país, é tempo de pipocarem as falsas alternativas eleitorais, que se apresentam e são apresentadas às massas brasileiras como forças transformadoras identificadas com as classes populares, mas que representam nada mais do que o continuísmo, o reacionarismo e o oportunismo mais predatório escondido atrás da defesa aguerrida da ética dos costumes (trapaça, aliás, que não resiste à primeira necessidade de arranjos no Congresso Nacional, como o "ex-ético" PT não se cansa de demonstrar).Foi assim com Heloisa Helena e o PSOL em 2006, vem sendo assim agora com a senadora Marina Silva e o Partido Verde.
A revista Época que saiu no dia 15 de agosto chegou às bancas do país trombeteando o "fator Marina", dizendo que "entrou oxigênio puro na campanha eleitoral de 2010. A novidade se chama Marina Silva". Reza o perfil da pré-candidata que ela é honesta, serena e defensora da floresta, e que encarna "a chance de um Brasil sustentável". Uma apresentação que além de tudo preza pela bajulação infinita a essa agente de ONGs internacionais.

A farsa da candidatura não-institucional

Marina Silva, inclusive, vem sendo comparada, por oportunistas mais descarados, com o chefe do imperialismo ianque, Barack Obama, sobretudo em razão de um tal caráter "apartidário" da sua figura, ou seja, não-institucional, acima do bem e do mal. Isso, dizem, caracterizaria a sua provável candidatura à presidência da República, em uma estratégia de marketing eleitoreiro idêntica àquela usada por Obama para pedir votos aos estadunidenses.Mas a ligação de Marina com o imperialismo realmente existe e é notória, através das ONGs, principalmente ianques, que atuam livremente em território nacional, tentando assegurar, através de discursos "ecológicos", que nossas riquezas não sejam nacionalizadas.No final de semana, dos dias 15 e 16 de agosto, vários dos maiores veículos da imprensa burguesa nacional dedicaram seus mais nobres espaços para propagandear o nome de Marina Silva como candidata presidencial do Partido Verde em 2010. Repetindo a lenga-lenga de uma candidatura "apartidária", a revista IstoÉ, que estampou Marina na capa, chegou mesmo ao tom de slogan, dizendo que "o Brasil não é só PT e PSDB", não sem mencionar a informação de que números do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) revelaram "forte presença de Marina nas classes A e B", ou seja, entre as classes dominantes.
Tal e qual desenha-se o cenário de Marina Silva não como alternativa para as massas brasileiras oprimidas, mas sim como mais uma opção que o imperialismo tem à disposição para ajudá-lo em sua mais nova doutrina de reafirmação da dominação, a de se mascarar para as semicolônias.Este engodo, o de estar acima do bem e do mal, há tempos é utilizado pelo próprio PV. Entre as várias falácias que compõem sua declaração de princípios, apresenta-se o PV como um partido que "não se aprisiona na estreita polarização esquerda versus direita. Situa-se à frente". Trata-se de um estratagema torpe, oportunista, cujo propósito é se aproveitar da repulsa cada vez maior que emana das massas quanto ao fisiologismo da política partidária da burguesia e ao podre Estado burocrático, a fim de tentar vender ao povo mais uma legenda picareta, embora se autoqualifique como de novo tipo, arrotando ética e sob a fachada ecológica, ansiosa por maior protagonismo nas sucessivas farsas eleitorais.

Reacionários pintados de verde

Este é o PV, agremiação que adere entusiasticamente ao sufrágio universal e a todos os outros princípios da democracia burguesa parlamentar, a do tipo contra-revolucionária. Em seus estatutos, advoga-se panacéias como a redistribuição da renda, o suposto papel regulador e protetor do Estado burocrático, o controle sobre as movimentações especulativas de capitais e a conquista do poder através dos diversos níveis dos poderes legislativo e executivo. Seus dirigentes defendem toda sorte de mecanismos que não interessam às lutas populares autênticas, de mitigação da luta de classes, pregando "o convívio pacífico, harmonioso, solidário e cooperativo entre os cidadãos", como consta no programa do partido.
O mesmo programa, aliás, que não deixa de trazer a reconhecível profissão de fé do oportunismo, ao dizer que o partido "não segue os cânones da esquerda tradicional", o que, no caso dos "verdes", significa a rejeição das premissas científicas da economia política e a adoção dos postulados demagógicos da "ecologia política".Ou seja, nada de novo em relação aos demais grupos que se alinham de olho no butim que a gestão do Estado burocrático reserva a quem ganha o privilégio de o aparelhar. Ou melhor, a novidade fica por conta de que reacionários da estirpe de Alfredo Sirkis e Fernando Gabeira (quem não se lembra do vigor punitivo em matéria de segurança pública advogado por ambos em suas campanhas eleitoreiras no Rio de Janeiro?) arranjaram uma candidatura presidencial pintada de verde que pode ser uma moeda de barganha mais cara nos arranjos partidários para a farsa eleitoral de 2010. Uma candidatura que buscará se valorizar na base da tapeação, falando em exigir dos monopólios certificados inúteis de "responsabilidade socioambiental", para evitar falar dos assuntos que realmente interessam ao povo brasileiro, para passar ao largo da luta de classes e do processo revolucionário em curso.
É preciso ainda dizer que o PV é mais uma sigla a figurar no feudo do senhor do Maranhão, já que Zequinha Sarney, o filho pródigo, é uma das figuras de proa da agremiação.Marina Silva é mais do mesmo, mais uma a chamar de "festa da democracia" os sufrágios da burguesia, que continuarão sendo os sufrágios da burguesia – nada nem ninguém que se apresente para participar deles irá mudar sua natureza anti-povo.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Carlos Drummond de Andrade. O HISTORIADOR




O HISTORIADOR
Carlos Drummond de Andrade

Veio para ressuscitar o tempo
e escalpelar os mortos,
as condecorações, as liturgias, as espadas,
o espectro das fazendas submergidas,
o muro de pedra entre membros da família,
o ardido queixume das solteironas,
os negócios da trapaça,
as ilusões jamais confirmadas nem desfeitas.
Veio para contar
o que não faz jus a ser glorificado
e se deposita, grânulo,
no poço vazio da memória.
É importuno,
Sabe-se importuno e insiste,
rancoroso, fiel.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

DEBATE: Historiografia Amazônica, Local: UFAC, dias 01 e 02 de outubro.


sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil


quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Rsrsrsrsr...Leia e tire suas próprias conclusões!!!

ERA KARL MARX UM SATANISTA? - Richard Wurmbrand

domingo, 20 de setembro de 2009

Do Acre aos Andes (XI)

Fonte:http://www.pagina20.com.br/index.php?option=com_content&task=blogcategory&id=19&Itemid=24


Marcos Vinícius Neves
mvneves@riobranco.ac.gov.br
30-Ago-2009

Depois da extraordinária experiência da rebelião liderada por Juan Santos Atahualpa e de um século inteiro de paz e autonomia para os povos indígenas do Antisuyu, o século dezenove traz uma nova e terrível ameaça: o ciclo da borracha. Uma história relativamente familiar para os acreanos.


Breve história dos Ashaninka – filhos do Sol e da Floresta (V)

Em 1848 o Presidente da Republica do Peru, Dom Ramon de Castilla, pensa poder encontrar na região da selva uma solução para a falta de trabalhadores da região costeira do Peru. Os padres franciscanos são então encarregados de diagnosticar o potencial dos recursos humanos entre os Campa. Mas, mais uma vez, os índios do rio Perene, como ocorreu durante os últimos cem anos, detém a expedição e a obrigam a retroceder.

Apesar deste insucesso inicial, este período marcou a retomada do interesse peruano pela ocupação e exploração da região de selva da montaña. Cabe, então, ao Prefeito do Departamento de Junin coordenar as ações de retomada dos territórios perdidos durante o período de Juan Santos Atahualpa. Uma ação marcada pela violência, pela fundação de fortificações, pelo seqüestro de mulheres e jovens e pelo estimulo à migração de estrangeiros que quisessem se estabelecer nesta região.

Este período, portanto, ficou marcado pelo abandono das idéias de cristianização dos índios e pelo forte militarismo do governo peruano que realiza sucessivas expedições armadas à selva, onde tem que enfrentar a forte resistência dos “Chunchos” (outro nome utilizado para os Campas ou povos Antis).

Uma nova expedição realizada em 1876 consegue chegar até o Cerro de la Sal e reabrir a via dos rios Perene e Tambo para a expansão dos não-indios. E vale ressaltar que esta expedição ao chegar ao Gran Pajonal, centro cultural e político a partir do qual Juan Santos Atahualpa havia deflagrado sua vitoriosa rebelião, se deparou com noticias de uma grande reunião anual dos Antis neste local para celebrar rituais em memória de Juan Santos, revelando que a lembrança do “messias” estava viva e que provavelmente os Campa aguardavam seu retorno a qualquer momento. (Varese, 1973)
Entretanto, o final do século, irá assistir a chegada de uma nova ameaça à integridade sócio-cultural e ao domínio territorial dos Antis sobre a região da “selva” peruana.

Tratava-se do ciclo da borracha que atingiu toda a Amazônia com uma força e uma velocidade assustadoras. Com isso dezenas de aventureiros de poucos escrúpulos se espalharam pela vasta região de Iquitos, Gran Pajonal, Ucayali, Manu ou por onde quer que houvesse arvores de caucho e seringa.
E desta vez as estratégias utilizadas para implantar um regime de dominação das populações nativas foram ainda mais sofisticadas e diversificadas. Além do aprisionamento de jovens escravos indígenas e da morte de seus líderes e de mulheres e homens mais maduros ou idosos que apresentavam maior resistência aos invasores, uma nova estratégia se revelou extremamente bem sucedida: estimular as tradicionais rivalidades tribais.

Assim, bastava entregar aos Cunibo certa quantidade de rifles Winchester que deveriam ser pagos com escravos Campa. Logo a seguir se entregavam aos Campa outros winchester que deveriam ser pagos com escravos Cunibo ou Amuesha. Tinha início assim um longo período de quarenta anos, durante os quais as “correrias” espalharam violências e horrores de toda sorte entre as populações indígenas da floresta.

Se calcula, por exemplo, que só na primeira década do século XX, quarenta mil índios Witoto foram exterminados pelos trabalhos forçados a que foram submetidos. Por toda a selva personagens como Araña em Iquitos e Fitzcarrald no Ucayali e no Madre de Dios, enriqueceram rapidamente às custas de milhares de vidas indígenas enquanto a revolução industrial em curso na Europa e Estados Unidos exigia mais e mais borracha extraída da Amazônia para alimentar sua produção incessante e crescente. Nada muito distinto do que, no mesmo período, estava acontecendo nas florestas acreanas.

E também de forma muito semelhante aos acontecimentos registrados no Brasil, rapidamente o caucho assume papel estratégico nas rendas do governo peruano. Em 1910 calcula-se que cerca de um quinto de todas as exportações do Peru se devem à borracha do caucho e da seringa.
Entretanto, tão repentinamente quanto havia começado, o ciclo da borracha acabou diante da produção sistemática de borracha nas plantações inglesas e holandesas do Sudoeste Asiático, que derrubou definitivamente o preço da borracha no mercado internacional.

Mas para os povos indígenas da floresta amazônica o preço pago durante o “ciclo do ouro negro” foi demasiadamente alto uma vez que tribos e etnias inteiras desapareceram ou foram reduzidas à pálidas sombras do que haviam sido. Neste sentido, os Campas se constituem em uma quase-exceção na medida em que, de uma ou outra forma, haviam conseguido resistir e sobreviver, mesmo sabendo que daí por diante a montaña e a floresta nunca mais voltariam a ser as mesmas.

BRANDÃO, Helena. Introdução à Análise do discurso. Unicamp, 1995.


“O discurso materializa o contato entre o ideológico e o lingüístico”.
“O discurso representa no interior da língua, os efeitos das contradições ideológicas”.
“O ideológico reside no interstício entre a coisa e sua representação significa”.
Bakhtin – a palavra é o signo ideológico por excelência, caracterizada pela plurivalência.
“Dialógica por natureza, a palavra se transforma em arena de luta, vozes situadas em diferentes posições querem ser ouvidas por outras”.
“A linguagem é o lugar onde a ideologia se manifesta concretamente”.
SEMIOLOGIA – caráter ideológico do signo, disciplina que estuda o sentido.
“A linguagem é lugar de conflito, de confronto ideológico”.
“Há uma relação necessária entre o dizer e as condições de produção desse mesmo dizer”.
A.D. – é o estudo lingüístico das condições de produção de um enunciado.
Ideologia em Marx: conceito negativo. Instrumento de dominação de classe. As idéias de uma classe passam a ser as idéias de toda coletividade. É uma visão ilusória da realidade.
Althusser – A classe dominante para manter sua dominação e hegemonia, gera mecanismos de perpetuação de poder. Reproduz as condições materiais, ideológicas e políticas. Através dos aparelhos repressores e ideológicos, a classe dominante submete seus subordinados ao sistema de exploração.
“O homem produz formas simbólicas de representação da sua relação com a realidade concreta”.
“A ideologia perpetua um ato fundador inicial, converte-o em credo. Perpetua a energia inicial para além do período de efervescência”.
“A ideologia impulsiona a prática social. A práxis é movida pelo desejo de demonstrar que o grupo que a professa tem razão de ser o que é”.
“A ideologia nos faz tomar a imagem pelo real, o reflexo pelo original”.
“O signo tem um caráter arbitrário, possibilita novos sentidos no tempo”.
“A regularidade é atingida pela análise dos enunciados que constituem a formação discursiva”
DISCURSO – é o conjunto de enunciado que se remetem a uma mesma formação discursiva. É um conjunto de enunciados que tem seus princípios de regularidade em uma mesma formação discursiva.
A análise da formação discursiva consistirá na descrição dos enunciados que a compõem”.
DISPERSÃO – várias posições do sujeito no discurso.
ENUNCIADO – quando alguém emite um conjunto de signos.
“Uma frase em diferentes contextos jamais representa o mesmo enunciado, pois cada espaço possui uma função enunciativa diferente”.
A geração do discurso é controlada. O discurso é o espaço em que os saberes se articulam. Quem fala, fala de algum lugar, a partir de um direito reconhecido institucionalmente.
A.D. Utiliza:
Materialismo Histórico como a teoria das formações sociais e suas transformações.
Lingüística – como teoria dos mecanismos sintáticos e dos processos de enunciação.
Teoria do discurso – como teoria da determinação histórica do processo semântico.
Psicanálise – Teoria da subjetividade.
A A.D. não analisa os indivíduos, mas os lugares de onde falam.
Na reprodução das relações de produção, a instância ideológica funciona como interpelação do sujeito: faz com que cada indivíduo seja levado a ocupar seu lugar, muitas vezes, inconscientemente.
Os discursos são governados pelas formações ideológicas.
“São as formações discursivas que, em uma formação ideológica específica e levando em conta uma relação e classe, determinam o que pode e deve ser dito, a partir de uma posição dada e em uma conjuntura dada”.
PARÁFRASE: é um espaço em que enunciados são retomados e reformulados num esforço constante de fechamento de suas fronteiras em busca da preservação de sua identidade.
POLISSEMIA: rompe as fronteiras, embaralhando os limites entre diferentes formações discursivas. Instala a pluralidade e a multiplicidade dos sentidos.
“Embora a formação discursiva homogeneíze o discurso, os efeitos das contradições de classe são recuperáveis no interior do discurso”.
“Na materialidade dos discursos estão as marcas das contradições ideológicas”.
“Analisar os discursos é descrever os sistemas de dispersão dos enunciados que o compõe”.
“Dispersão semelhantes, equivalem a formações discursivas iguais”.
ENUNCIAÇÃO – é o processo de apropriação da língua para dizer algo.
“A subjetividade é inerente a toda linguagem”
“Sua fala é um recorte das representações de um tempo histórico e de um espaço social... em sua fala outras vozes também falam” p. 49
Bakhtin critica Saussure por tratar a língua como um sistema monológico.
“Constituindo-se do já-dito, o discurso é determinado ao mesmo tempo pela réplica ainda não dita, mas que já está sendo solicitada e já é prevista” Bakthin.
“O discurso articula-se com o seu avesso ou revesso. Não se reduz a um dizer explícito, pois é permanentemente atravessado pelo seu avesso” p. 54
“O sentido não é dado a priori, mas construídos no discurso”.
Pêcheux: “O sentido de uma palavra, expressão, proposição não existe em si mesmo, mas é determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio-histórico em que elas são produzidas” p. 62
O discurso é a dispersão de textos. Texto é a dispersão do sujeito. O discurso pode está atravessa por várias formações discursivas, todas submetidas a relações de dominância.
AUTOR – é a função social que o eu assume enquanto produto da linguagem.
Não há discurso monológico, toda palavra é dialógica, portanto, fingem a monologia.
INTERDISCURSO – espaço de troca entre vários discursos convenientemente escolhidos.
O estudo de um discurso se faz colocando-o em relação com outros discursos.
UNIVERSO DISCURSIVO – é constituído pelo conjunto de formações discursivas de todos os tipos que interagem numa dada conjuntura.
CAMPO DISCURSIVO – conjunto de formações discursivas que encontram em concorrência, se delimitam reciprocamente em uma região determinada do universo discursivo, ex: campo político, filosófico, gramatical etc. (P. 73)
ESPAÇOS DISCURSIVOS – são recortes discursivos que o analista isola no interior de um capo discursivo tendo em vista a análise.
Produz-se o discurso para o outro. O outro deve ser percebido no texto, mesmo ausente e silenciado. Pois é a parte do sentido que foi preciso sacrificar para se construir a auto-identidade.
O AVESSO é a parte oculta do discurso que se mascara a rejeição do outro, do diferente, co concorrente.
A identidade discursiva se constrói na relação com um outro presente lingüisticamente.
INTERTEXTO: é o conjunto dos fragmentos que o discurso cita efetivamente.
INTERTEXTUALIDADE: abrange os tipos de relações intertextuais definidas como legítimas que uma formação discursiva mantém com outras. Interna – quando pertence ao mesmo campo e Externa – quando dialoga com outros campos.
MEMÓRIA DISCURSIVA – torna possível a formação discursiva fazer circular formulações anteriores, já enunciadas. Essa noção implica o estatuto histórico do enunciado inserido nas práticas discursivas reguladas por aparelhos de Estado. Elege um determinado fato histórico e rejeitam outros, recupera arte do passado e eliminam outros.
ENUNCIAR – é situar-se sempre em relação a um já-dito que se constitui num outro do discurso” p.77
“Na medida em que retiramos de um discurso fragmentos e inserimos em outro discurso, fazemos uma transposição de suas condições de produção. Mudadas as condições de produção, a significação desses fragmentos ganha nova configuração semântica”.
MEMÓRIA LACUNAR – são os vazios, os esquecimentos deixados pela memória oficial e que produz um efeito de inconsistência. Esse efeito é ideologicamente neutralizado pelas manobras discursivas, que homogeneízam e monoformizam as dessemelhanças. Anulam os desníveis, planificam a heterogeneidade. É o processo de apagamento.
A.D. - Volta-se para o exterior lingüístico, procurando apreender como no lingüístico inscrevem-se as condições sócio-históricas de produção. Na reduz o discurso a análise puramente lingüísticas. Sua missão é aflorar as contradições onde a ideologia linealiza. Revela o múltiplo na materialidade do discurso: antagonismos, alianças e dissimulações. É contra a cristalização dos sentidos.
O discurso representa os efeitos das contradições ideológicas no interior da língua.

Bibliografia
BRAGA, M. Produção de linguagem e ideologia. Cortez, 1980.
MACHADO, R. Ciência e Saber: a trajetória da arqueologia de Foucault. Graal, 1981.
DUCROT, O. O dizer e o dito. Pontes, 1987.

Glossário
ASSUJEITAMENTO = INTERPELAÇÃO: fazer com que o indivíduo, sem que tome consciência, seja levado a ocupar seu lugar, a identificar-se ideologicamente com grupos ou classes.
AUTOR: é a função social que o sujeito falante assume enquanto produto da linguagem
DISCURSO: é o efeito de sentido construído no processo de interlocução. “Aquilo que ele diz tem significado com o que ele não disse”.

ENUNCIAÇÃO: emissão de um conjunto de signos que é produto da interação de indivíduos socialmente organizados. É marcada pela singularidade. Acontece no tempo e espaço.
ENUNCIADOR: é a figura da enunciação que representa a pessoa cujo ponto de vista é apresentado. É a perspectiva que o locutor constrói e de cujo ponto de vista narra, quer identificando-se como ele quer distanciando-se dele.
FORMAÇÃO DISCURSIVA: é o conjunto de enunciados marcados pela mesma regularidade, pelas mesmas regras de formação. Ela se define pela relação que mantém com a formação ideológica. Os textos que fazem parte de uma formação discursiva remetem a uma mesma formação ideológica. Determina o que pode e deve ser dito a partir de um lugar social historicamente determinado. Um mesmo texto pode aparecer em formações discursivas diferentes, acarretando variações de sentido.
FORMAÇÃO IDEOLÓGICA – é constituída por um conjunto complexo de atitudes e representações que dizem respeito às posições de classe em conflitos umas com as outras.
FORMAÇÃO SOCIAL: caracteriza-se por um estado determinado de relações (antagônicas, dominância e alianças) entre as classes que compõem uma comunidade em um determinado momento de sua história.
INTERLOCUÇÃO – processo de interação entre indivíduos através da linguagem verba ou não-verbal.
INTERTEXTO – compreende o conjunto dos fragmentos que o discurso cita efetivamente.
INTERTEXTUALIDADE – abrange s tipos de relação que uma formação discursiva mantém com outras.
LINGUAGEM – na perspectiva discursiva, não é vista apenas como instrumento de comunicação e transmissão de informação. É interação, lugar de conflito, de confronto ideológico em que a significação se apresenta em toda sua complexidade.
POLIFONIA – refere-se à qualidade de todo discurso estar tecido pelo discurso de outro, de toda fala estar atravessada pela fala do outro.
SENTIDO – para A.D.. não existe um sentido a priori, mas um sentido que é construído, produzido no processo da interlocução, por isso deve ser referido às condições de produção do discurso. O sentido muda, caso também mude a formação discursiva.
SUJEITO – Para a A.D., é socialmente compreendido, interpelado pela ideologia. O sujeito não é a origem, por que na sua fala outras falas se dizem.
SUPERFÍCIE DISCURSIVA: é constituída pelo conjunto de enunciados pertencentes a uma mesma formação discursiva.
FOUCAULT
“Não se diz o que se quer, em qualquer situação e de qualquer maneira”.
“Analisar o discurso é fazer desaparecer e reaparecer as contradições” p.40
“As diferentes formas de poder fabricam diferentes tipos de individualidades”.
Funções enunciativas do Sujeito Falante (modos hierarquizados de apagamento do sujeito): LOCUTOR – aquele que se representa como eu no discurso. É quem diz. ENUNCIADOR – é a perspectiva que esse eu constrói. É o sujeito divido em suas várias posições no texto.AUTOR – é a função social que esse eu assume enquanto produtor de linguagem. É a ação do discurso sobre o sujeito. É a origem das significações. A linguagem está sob forte controle social.
ILUSÃO DO SUJEITO: pensa que é fonte do que diz, mas, na verdade, retoma sentidos preexistentes e inscritos em formações discursivas determinadas.
O autor implica uma inserção do sujeito na cultura, uma posição dele no contesto histórico-social.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

OLIVEIRA, Luiz Pinto. Expansão da Fronteira, migração e reprodução urbana: o caso do Acre.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Entrevista com o historiador dr. Justo González


Entrevista concedida para o site Teologia Brasileira, durante o 1º Congresso Hagnos e Servo de Cristo.


PARTE 1


Justos Gonzalez ensinou teologia histórica em diversas instituições, entre elas o Seminário Evangélico em Porto Rico, a Escola de Teologia Candler na Universidade Emory, e o Seminário Teológico Columbia. Durante os últimos 30 anos, ele desenvolveu programas de formação teológica para hispanos.
Seus diversos livros sobre a história da igreja foram traduzidos para diversas línguas e são amplamente usados em todo o mundo. Entre eles, temos no Brasil a série Uma História Ilustrada do Cristianismo (10 volumes) e Cristianismo na América Latina: uma história que será lançado no segundo semestre de 2009, também por Edições Vida Nova.


Teologia Brasileira: O que o motivou a estudar “história”, especificamente, “história do cristianismo”?


Justo Gonzalez: Quando eu era jovem, a matéria que eu mais odiava na escola era história. Eram muitos nomes, muitas datas, muita memória e pouca vida. Mas depois, quando eu fiquei um pouquinho mais velho e comecei a estudar Teologia, vi livros de bons teólogos e os melhores sempre falavam de seus antecessores, de gente que eu não conhecia. Havia um livro muito famoso, A teologia Dogmática de Karl Barth, que era um livro muito grande. Quando comecei a ler esse livro, cada página tinha 10, 12 nomes de pessoas que eu não sabia quem eram. Pessoas do século segundo, do século quinze, do século quarto. Naquela época, eu também estudava Filosofia, e logo notei que era impossível estudar Filosofia sem estudar a História da Filosofia. Os cursos de Introdução à Filosofia sempre começam com a Filosofia Grega. Da mesma forma, não é possível estudar Teologia sem conhecer a História da Teologia. Foi isso que me levou a estudar a história do cristianismo. Hoje me interesso mais pela história porque percebo que a História fala da vida dos povos, da vida de homens e mulheres, de quando essas pessoas viviam, as obras que esculpiam. Isso tudo era tão importante para eles como nossa vida é para nós hoje. Por isso não tem nenhuma razão para a História ser algo chato, muito pelo contrário. Você lê um romance histórico, um romance sobre o rei Carlos V e fica muito impressionado porque é ali está a história da vida dele.


Teologia Brasileira: Existe uma história do cristianismo separada da História?


Justo Gonzalez: Existe, mas não deveria existir. Lamentavelmente, a História do cristianismo é escrita com exclusão da História geral da humanidade. No entanto, acho que isso não é bom dos pontos de vista teológico, metodológico e também pedagógico. Não é bom teologicamente porque nosso Senhor é o Senhor da História, toda a História está em suas mãos. É evidente que na história há também pecado, mas Jesus é o Senhor da História e nós aguardamos o fim da História. Logo, não é possível falar da História da humanidade sem falar da História de um Deus que age dentro dessa história. Portanto, não deveriam existir duas Histórias. Isso que fazemos nas escolas de separar a História secular não deveria existir. E ao mesmo tempo não é correto, pois a História da Igreja, a vida da igreja tem lugar sempre dentro do contexto da vida geral da humanidade. Você não pode falar da igreja no Brasil, sem falar do Brasil. Você não pode falar das mudanças que têm ocorrido na igreja brasileira nos últimos cinquenta anos, sem falar das mudanças que têm ocorrido na história do Brasil como país inteiro nos mesmos cinquenta anos.Teologia Brasileira: Em termos de pensadores da história cristã, quais as influências mais marcantes em sua história pessoal?Justo Gonzalez: Ah! São muitas, muitas, muitas. Originalmente, quando eu era mais jovem, as influências mais marcantes foram principalmente Martinho Lutero e Agostinho. Depois, Irineu passou a ser mais importante para mim. Ele foi teólogo e bispo na França do final do século segundo. Outra influência foi Karl Barth. Karl Barth foi um teólogo suíço que protestou veementemente contra o nazismo e que criou uma nova maneira de se fazer Teologia no princípio do século XX, por sinal algo que gerou muita discussão. Além desses que citei, tem também meu pai, minha mãe, minha mãe, minha esposa; todos são teólogos que tem me influenciado muito.


Teologia Brasileira: Na sua opinião, o testemunho da igreja cristã tem apresentado uma postura coerente em relação à unidade da igreja?


Justo Gonzalez: Coerente sim, mas boa não. É coerente, mas ruim. O testemunho da igreja tem perdido muito por dois motivos, que são ambos negativos. O primeiro é uma divisão constante, segundo a qual cada igreja pensa que fica só no mundo de Deus, que só ela é igreja. Isto é verdade em igrejas grandes e também em igreja muito pequenas; o problema é o mesmo. Outro problema, outro extremo é quando a unidade da igreja se torna algo administrativo, muitas vezes ditatorial, não voluntário. Os dois são problemas, a unidade da igreja não é apenas unidade: um chefe, um papa, um bispo, um grande pastor. Essa postura fez muito mal para o testemunho cristão.


Teologia Brasileira: Para o sr., quais seriam hoje as formas veladas de intolerância religiosa?


Justo Gonzalez: Muitas não são tão veladas. Naturalmente há intolerância religiosa em todas as religiões e temos de ter cuidado quando falamos em tolerância religiosa entre os cristãos. Há também muita intolerância religiosa entre os muçulmanos, entre os hindus. Agora mesmo um grupo de cristãos tem saído de seus territórios porque os vizinhos estavam matando. O governo diz: “Nós podemos protegê-los, vocês devem regressar às suas casas mas devem ficar em dois para não ter problema”. Isso acontece na Índia agora no século XXI, e principalmente nos países muçulmanos. Agora não acontece com os cristãos. Há muitas e muitas formas de intolerância religiosa. Eu acho que, em nosso contexto particular na America Latina, possivelmente a forma mais velada é a intolerância de alguns chefes, de alguns pastores de igrejas muito grandes que querem que todo mundo pense exatamente o que eles pensam ponto por ponto, de A a Z. Fazem tudo isso para manter o povo, levando-o a fazer o que eles dizem. Isso é intolerância religiosa também. Intolerância religiosa não é um problema só da igreja romana, é um problema de todos os cristãos que acreditam ser possuidores da verdade. O cristão não possui a verdade, a verdade possui o cristão.

domingo, 13 de setembro de 2009

Fuso Horário - Acre

FONTE: http://diegonovaes.blogspot.com/2008/09/poderes-globais.html

(...) "a tentativa de alteração do fuso horário brasileiro sem debate público não é nova, mas com a última onda de pressão sobre os parlamentares, e com a postura submissa destes em relação ao principal grupo de comunicação do país, o que parecia impossível tornou-se uma possibilidade real. Na noite de hoje, 11/4, quatro dias após a entrada em vigor da regra do horário local para a programação de TV, o Senado Federal aprovou em plenário o Projeto de Lei do senador Tião Viana (PT-AC) que altera o fuso horário nessas regiões". (...) Para quem ainda se surpreende com a submissão dos poderes públicos aos interesses mercadológicos, em detrimento da cidadania, o artigo prossegue destacando que, depois dessa vitória, a ofensiva da Globo aumentou: a empresa de comunicação deverá fazer novas investidas, no sentido de tentar derrubar a classificação indicativa."

http://diegonovaes.blogspot.com/




Nazismo

http://cafehistoria.ning.com/video/o-nazismo-proftiago-menta

sábado, 12 de setembro de 2009

VISITE: Espaço Michel Foucault

"Não me pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo".


quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O mito da acreanidade



Por Francisco Aquinei Timóteo Queiroz 09/02/2006 às 21:12


Este artigo levanta uma discussão sobre o mito e a forma como ele se manifesta em nossas vidas. O cenário de minha análise é o meu estado (ACRE), boa leitura. O mito é um discurso e seu enunciado reproduz uma "história feérica" da sociedade; os heróis suprem o imaginário popular através da ascensão ou dos feitos grandiosos cuja função é inocular na "alma coletiva" os símbolos e signos que envolvem os sujeitos sociais.

A narrativa mítica ajusta-se a cada época, momento político e poder central, ratificando uma ideologia e uma gama de significados. A imanência do mito deve-se a sua diacronia significativa, ou seja, a sua atemporalidade semântica. O mito não encerra uma fala centrada no tempo (passado, presente ou futuro); posto seja o resultado de uma ressemantização
contínua.


A imagem mítica suscita também uma forma de poder que se mantém viva através do inconsciente coletivo, que é a camada mais profunda da mente humana. Nessa atmosfera amorfa em que pairam todos os pressupostos constituintes da sociedade; pairam também os mitos, que assumindo um formato reticular integram sub-repticiamente toda a diversidade abstrata do pensamento humano. Tomemos como exemplo a figura de Tiradentes.

Sua imagem não encarna o ideal de liberdade ou democracia; antes estas características só se tornam patentes quando as analisamos a partir de uma hagiografia mítica, ou seja, sua imagem só permanece no inconsciente coletivo porque está envolta em uma transcendência, isto é, na sublimação de sua aparência.


Nilson Lage aludindo Roland Barthes diz o seguinte: "o mito como unidade do discurso: signo lingüístico apropriado para significar outra coisa, de modo que instaura uma duplicidade de entendimentos, inocenta as violações à regra social e a mantém viva ainda quando desmentida pelos fatos." (Nilson Lage, 2001, 76).


Assim sucede aos heróis e à constituição dos brasileiros e do acreano; pois a duplicidade significativa destila tantos sentidos que a assimilação mítica só se torna possível com a criação de novos mitos. É uma "invenção" invariavelmente cíclica que se deixa eternamente interpretar; com isso temos que ver o mito com um olho na sociedade que o produziu e outro olho nos demais mitos que permeiam o contexto social, porque é dessa ambigüidade que ele se nutre.


O mito fundador do Estado do Acre
A história acreana não está centrada nos sujeitos coletivos (seringueiros, índios), estes são meros coadjuvantes encenando uma história que é engendrada por outrem. O seringueiro é apenas um nome, semantizado em um desvão de nomes: são apenas emblema do ofício que executam, são "coisas", são sujeitos reificados.


A figura do índio está inclusa no velho preceito evolucionista que os coloca num patamar de inferioridade em relação aos outros indivíduos, não atendendo ao estereótipo do herói que se deseja materializar para a história. A sede pelo portento, pelo maravilhoso instaura algo que não se prende no tempo; por isso a figura do herói é tão importante para a configuração do mito, porque ela encarna a aura de um povo.

O mito fundador acreano não se firma com a chegada de Neutel Maia no final do século XIX; e, sim com a luta entre brasileiros e bolivianos que finda com a assinatura do Tratado de Petrópoles em 1903. Figuras como Plácido de Castro e Galvez passam a fazer parte do imaginário coletivo, constituindo-se em verdadeiros mitos identificatórios de um povo e de
uma cultura.


São heroificados sob a égide de interesses e para a manutenção de uma memória coletiva. Ora, para a coesão do Território do Acre fazia-se necessário a elevação de sujeitos individuais para a "arquitetura sígnica" e historiográfica de uma coletividade cheia de ambigüidades e visões antagônicas. Portanto, a proposição "mítico-ideológica" tem a função de suavizar as dessemelhanças, instaurando por meio de símbolos, ícones e índices formas sutis e aparentes de realidade.

Plácido de Castro é uma figura marcante da história acreana, exemplifica a partir de sua existência a convergência simbólica de que se nutre uma gama dispare de pessoas. Forma-se um arquétipo mítico no qual todos os cidadãos vêem ressaltadas, sem duplicidade, as qualidades e o vigor audaz dos acreanos, isto sem contradições ou erros. É o passado presentificado a todo momento cujo objetivo é criar uma unicidade inconteste.

Sua imagem firma-se como insígnia da luta, da força e da valentia; torna-se uma espécie de semideus pairando na secularidade do tempo e vivo nos sentidos míticos que o heroificam para a eternidade. A Florestania constitui um mito, que através do discurso político tenciona unificar toda a sociedade sob sua égide. Deseja-se construir uma identidade a partir da configuração regional; entretanto, um pressuposto fica patente nesse enunciado: não é a Florestania que se afirma, mas a legenda partidária que a utiliza como retórica discursiva de seu governo.

Portanto, a Florestania é uma fala mítico-ideológica que se propõe a criar símbolos identificatórios e ordenar discursos políticos, salvaguardando suas oposições. Parque da Maternidade A construção semântica se dá também com a criação de espaços de lazer. O Parque da Maternidade representa um marco, um sinal de mudança que sempre remeterá ao governo Jorge Viana.


O mito não é apenas um discurso ordenado e homogeneizador; é visível a partir das estruturas que o comportam e validam. Estes espaços são o "pão e circo" modernos, porque têm o papel "lúdicocatártico" do convencimento aparente; são antes manutenção da fala do que aplicabilidade democrática, isto é, são espaços sígnicos de poder.

Semióforos midiáticos
A imagem televisiva é um processo vicário do real, transcendendo-o. Os semióforos midiáticos apoiam-se na verossimilhança para criar seus mitos e montar seus discursos. Cria-se uma fidelidade platônica com a imagem em contraposição às incertezas práticas do real, ou seja, a imagem vale mais do que a objetividade do real.


O grande inconveniente dos semióforos midiáticos e que precisam ser ressemantizados continuamente, atendendo aos interesses dos grupos de poder. Portanto, os semióforos televisivos são simulacros discursivos que estão assentados numa suprarrealida

Da guerra

José Luís Fiori 09/09/2009

Entre 1495 e 1975, as grandes potências estiveram em guerra durante 75% do tempo, começando uma nova a cada sete ou oito anos. Mesmo nos anos mais pacíficos desse período, entre 1816 e 1913, essas potências fizeram cerca de 100 guerras coloniais. E, ao contrário das expectativas, a cada novo século houve mais guerras do que no século anterior. (J. Levy, "War in the modern Great Power System", Ky Lexington, 1983) Por isso, pode-se dizer que as guerras foram a principal atividade dos Estados nacionais europeus, durante seus cinco séculos de existência e, agora de novo, o Século XXI já começou sob o signo das armas.

Mas, apesar disto, segue sendo um tabu falar e analisar objetivamente o papel das guerras na formação, na evolução e no futuro do sistema interestatal capitalista que foi "inventado" pelos europeus nos Séculos XVI e XVII e só se transformou num fenômeno universal no Século XX. Talvez porque seja muito doloroso aceitar que as guerras não são um fenômeno excepcional, nem decorrem de uma "necessidade econômica". Ou porque seja difícil entender que elas seguirão existindo, mesmo que não ocorram enfrentamentos atômicos entre as grandes potências, porque não precisam ser travadas para cumprir seu "papel" dentro do sistema interestatal. Basta que sejam planejadas de forma complementar e competitiva.

À primeira vista, tudo isso parece meio absurdo e paradoxal. Mas tudo fica mais claro quando se olha para o começo desta história e se entende que o sistema mundial em que vivemos foi uma conquista progressiva dos primeiros Estados nacionais europeus. E desde os seus primeiros passos, esse sistema nunca mais deixou de se expandir, "liderado" pelo crescimento competitivo e imperial de suas grandes potências, que lutam para manter ou avançar sua posição relativa dentro do sistema.
Por isso, tem razão o cientista político norte-americano John Mearsheimer, quando diz que "as grandes potências têm um comportamento agressivo não porque elas queiram, mas porque elas têm que buscar acumular mais poder se quiserem maximizar suas probabilidades de sobrevivência, porque o sistema internacional cria incentivos poderosos para que os Estados estejam sempre procurando oportunidades de ganhar mais poder às custas dos rivais...". (Mearsheimer, "The tragedy of the great powers", 2001: 21).
Nesse processo competitivo, a guerra, ou a ameaça da guerra, foi o principal instrumento estratégico utilizado pelos Estados nacionais para acumular poder e definir a hierarquia mundial. E as potências vencedoras - que se transformaram em "líderes" do sistema - foram as que conseguiram conquistar e manter o controle monopólico das "tecnologias sensíveis", de uso militar. Mas essa competição por tecnologia e pelo controle monopólico dos recursos bélicos deu origem à uma dinâmica automática e progressiva de preparação contínua para as guerras, numa disputa que aponta todo o tempo na direção de um império único e universal.

Paradoxalmente, esse império não poderá ser alcançado sem que o sistema mundial perca sua capacidade conjunta de seguir se expandindo. Por quê? Porque a vitória e a constituição de um império mundial seria sempre a vitória de um Estado nacional específico. Daquele Estado que fosse capaz de impor sua vontade e monopolizar o poder até o limite do desaparecimento dos seus competidores. Se isto acontecesse, entretanto, acabaria a competição entre os Estados e, nesse caso, os Estados não teriam como seguir aumentando o seu próprio poder.

Ou seja, nesse sistema interestatal inventado pelos europeus, a existência de adversários é indispensável para que haja expansão e acumulação de poder e a preparação contínua para a guerra é o fator que ordena o próprio sistema. Assim mesmo, como a "potência-líder" também precisa seguir acumulando poder para manter sua posição relativa, ela mesma acaba atropelando as instituições e os acordos internacionais que ajudou a criar num momento anterior. Ela é quem tem maior poder relativo dentro do sistema e, por isso, ela é que acaba sendo, quase sempre, a grande desestabilizadora de qualquer ordem internacional estabelecida.
Agora, a preparação para a guerra, e as próprias guerras, nunca impediram a complementaridade econômica e a integração comercial e financeira entre todos os Estados envolvidos nos conflitos. Pelo contrário, a mútua dependência econômica sempre foi uma peça essencial da própria competição. Às vezes predominou o conflito, às vezes a complementaridade, mas foi essa "dialética" que se transformou no verdadeiro motor político-econômico do sistema inter-estatal capitalista, e no grande segredo da vitória europeia sobre o resto do mundo, a partir do Século XVII.

Entre 1650 e 1950, a Inglaterra participou de 110 guerras aproximadamente, dentro e fora da Europa, ou seja, em média, uma à cada três anos. E entre 1783 e 1991, os Estados Unidos participaram de cerca de 80 guerras, dentro e fora da América, ou seja, em média, também, uma a cada três anos (M. Coldfelter, "Warfare and armed conflicts", MacFarland, Londres, 2002). Como resultado, neste início do Século XXI, os Estados Unidos têm acordos militares com cerca de 130 países ao redor do mundo e mantém mais de 700 bases militares fora do seu território. E assim mesmo devem seguir se expandindo - independente de qual seja o seu governo - sem precisar ferir necessariamente o direito internacional, e sem precisar dar explicações a ninguém.

Por isto, soa absolutamente cômica e desnecessária a justificativa de que as bases militares dos EUA na Colômbia têm a ver com o combate ao narcotráfico e à guerrilha local, assim como os argumentos que associam a instalação do escudo antimísseis dos EUA na fronteira com a Rússia ao controle e bloqueio de foguetes iranianos. Como soa ridícula, nesse contexto, a evocação do "princípio básico da não ingerência" na defesa das decisões colombianas, polacas ou checas. Nesse "jogo" não há limites e, por mais lamentável que seja, os "neutros" são irrelevantes ou sucumbem, e só restam duas alternativas, para os que não aceitam aliar-se ou se submeter à potência expansiva: no caso dos mais fracos, protestar; e no caso dos demais, defender-se.

José Luís Fiori é professor titular do Instituto de Economia da UFRJ e autor do livro "O Poder Global e a Nova Geopolític

domingo, 30 de agosto de 2009

A SAGA DE CHICO MENDES

Por: Clenaldo Freire Monteiro e Denise Schulthais dos Anjos Monteiro

Apresentação

A presente pesquisa surgiu da necessidade de levar às crianças, jovens e adultos um pouco da história de Francisco Alves Mendes Filho, o “ Chico Mendes”, filho da floresta brasileira, que por ela lutou , e pagou com a própria viva a sua perseverança em fazer deste mundo um espaço melhor para se viver.

Sua luta não se resumiu a melhorar as condições de vida do homem trabalhador, mas foi muito além. Ele lutou pela melhoria de vida de todas as pessoas do planeta, e por isso teve seu nome reconhecido internacionalmente e ganhou vários prêmios. O premio maior, entretanto, não está nas condecorações e nos discursos em que foi homenageado. Está na conscientização de que a vida tem maior valor quando se cuida da natureza.

Infelizmente enquanto Chico Mendes cuidava da vida da floresta, não cuidaram de sua vida. Hoje ele já não está entre nós e não faz parte da comunidade terrena, mas as sementes que plantou germinaram. Isso é que faz a sua vida tão breve ter tido um grande valor.

SUMÁRIO

1- QUEM FOI CHICO MENDES.................................................................
2- FATORES ECONÔMICOS DA REGIÃO AMAZÔNICA....................
3- UMA HISTÓRIA MAL CONTADA........................................................
4- O POVO COMEÇA A SE ORGANIZAR................................................
5- A ORIGINALIDADE DA LUTA..............................................................
6- PERSEGUIÇÃO E RESISTÊNCIA.........................................................
7- CHICO PREVÊ A PRÓPRIA MORTE E PEDE SEGURANÇA.........
8- CONSIDERAÇÕES FINAIS.....................................................................
9- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS......................................................
10- ANEXOS......................................................................................................

CRONOLOGIA

1944-Nasce Francisco Alves Mendes Filho
1962- Chico conhece Euclides Fernando Távora, seu mestre
1962- Aos dezoito anos Chico inicia seu processo de alfabetização
1970- 1975- Chegam os fazendeiros do sul
1975- Eleito secretário geral do sindicato
1975- Início do processo de organização dos primeiros sindicatos rurais
1976- É realizada a primeira “trincheira”
1977- Eleito vereador pelo MDB
1977- Participa da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri
1979- Chico Mendes transforma a Câmara Municipal num grande fórum de debates
1979-Acusado de subversão é submetido a interrogatórios, sendo torturado.
1980- Assassinato do grande líder Wilson Pinheiro
1980- É enquadrado na Lei de Segurança Nacional
1980- Surge o “empate”
1982- Chico Mendes é candidato a Deputado Estadual pelo PT
1985- Criação do Conselho Nacional dos Seringueiros
1985- Primeiro Encontro Nacional de Seringueiros (Brasília)
1987- Chico denuncia a devastação ao senado norte-americano.
1987- Chico Mendes é premiado pela ONU como um dos mais importantes defensores da natureza
1987- Chico recebe prêmios e reconhecimentos nacionais e internacionais.
1987- Membros da ONU visitam Xapuri e comprovam a devastação da floresta
1988- Criação da Primeira Cooperativa Agoextrativista
1988- É aprovada por aclamação a tese “ Em defesa dos povos da floresta”
1988- Terceiro Congresso Nacional da CUT
1988- Morre Chico Mendes

1-QUEM FOI CHICO MENDES

Francisco Alves Mendes Filho nasceu em 15 de dezembro de 1944, no Seringal Porto Rico, Xapuri, no Acre. Desde os primeiros anos de vida, já acompanhava o pai, com quem aprendeu o ofício.

Conhecido por “Chico Mendes”, filho de um nordestino, não teve oportunidade de aprender a ler e escrever quando criança. Seu grande mestre foi Euclides Fernando Távora, que o ensinou a ler nos sábados e domingos, quando Chico já tinha cerca de dezoito anos de idade. Távora era um ex-oficial do Exército, um exilado político, com vinte e poucos anos, que vivia na selva, na clandestinidade que garantia sua liberdade.

O material usado para sua alfabetização foi números atrasados de jornais, os únicos que conseguiam chegar até o local. A leitura das notícias de trabalhadores socialistas e de outros países da América Latina despertou em Chico Mendes o interesse pela causa do trabalhador.

A importância que Chico Mendes dava a escolarização era tamanha, que inconformado com o analfabetismo da população, criou um grupo e alfabetizou cerca de cinqüenta pessoas.

Esse trabalho teve que ser interrompido devido às pressões sofridas pelo prefeito e pelo padre, que alegaram a formação de um grupo de agitadores. Entretanto, quando foi criada a cooperativa agroextrativista, novamente a importância da alfabetização como forma de liberdade do homem voltou à tona com a primeira escola de alfabetização dos seringueiros. Foi criada a Poranga, cartilha elaborada com o apoio do Cedi, de universitários e professores. O nome da cartilha se deu porque poranga é a luz que o seringueiro usa na cabeça para caminhar na selva.

Sobre a pessoa de Chico Mendes, analisando sua luta, as opiniões são divergentes, uma vez que para alguns, a referência maior foi sua dedicação à preservação da natureza. Para outros, o destaque se deu no âmbito político, em defesa do trabalhador. Cita Júlio Barbosa, presidente do sindicato dos trabalhadores rurais de Xapuri:


No Brasil, existe um monte de ecologistas que defende a ecologia, mas defende da seguinte maneira: defende o verde, defende a não poluição das águas, defende a respiração do oxigênio puro. Mas em meio a esses ecologistas surgiu um que não foi formado em universidade nenhuma, que foi ecologista na prática, vivendo o dia-a-dia
( http://www.senado.gov.br/web/senador/marinasi/ch)


Chico Mendes casou-se com Ilzamar Mendes, em Xapuri, a 170 quilômetros de Rio Branco, no Acre, quando ela tinha 15 anos. Tiveram um casal de filhos: Elenira e Sandino.

A originalidade com que lutou a favor da justiça social e da preservação da natureza fez com que fosse reconhecido internacionalmente.

Homem simples, da floresta, conquistou a admiração de muitos, mas sua persistência e coragem atraíram desagrado e a ira de muitos, inclusive dos latifundiários e da UDR- União Democrática Ruralista. Para compreender como tudo ocorreu, é preciso conhecer um pouco da estrutura econômica.

2-FATORES ECONÔMICOS DA REGIÃO AMAZÔNICA

A economia da região apresenta características baseadas na extração de látex, onde a produção de borracha ocupa o primeiro lugar. Todavia, a falta de uma política de produção que envolve o comércio do produto causa muita polêmica.

Os seringueiros vivem de forma bastante modesta, ocupando casas construídas por eles próprios, que utilizam materiais da própria floresta. Quando questionado sobre sua proposta de preservação da Amazônia e ao mesmo tempo da necessidade de exploração dos produtos, Chico Mendes expôs seu pensamento a respeito:

Temos a castanha que é um dos principais produtos da região e que está sendo devastada pelos fazendeiros e madeireiras. Temos a copaíba, a bacaba, o açai, o mel de abelhas, uma variedade de árvores medicinais que até hoje não foram pesquisadas, o babaçu, uma variedade de produtos vegetais cuja comercialização e industrialização garantiria que a Amazônia, em dez anos, se transformasse numa região economicamente viável, não só para o país mas para o mundo. O que precisamos hoje é que o governo dê prioridade à industrialização desses produtos. (Entrevista realizada durante o 3º Congresso Nacional da CUT ( 9/9/88 )


3-UMA HISTÓRIA MAL CONTADA

Os índios eram considerados os legítimos donos da Amazônia, que a partir de 1877, começou a ser desbravada. Para isso, foram trazidos os nordestinos, que formaram um grupo semi-escravizado. Os nordestinos eram atraídos pela propaganda de que a borracha era uma mina e que logo retornariam a sua terra natal com bastante dinheiro.

Eram trazidos de navio até Belém, onde existia uma praça que funcionava como a sede principal dos seringalistas. Dali os nordestinos eram levados pelos “patrões” para a selva e não tinham como voltar.

Os seringalistas pertenciam a grupos mantidos por entidades internacionais e possuíam uma determinada área. A produção da borracha era marcada como forma de controle de cada lote. Esses nordestinos foram explorados pelos seringalistas, chamados “patrões”, que preparavam o nordestino para lutar contra os índios.

Os banqueiros internacionais, interessados na borracha da Amazônia, também faziam parte desse grupo contra os índios. Assim se inicia o conflito entre índios e brancos.Muitos grupos tribais foram massacrados. Com o fim do monopólio estatal da borracha, na década de 70, implantou-se o sistema latifundiário.

Chegam os fazendeiros do sul que espalham centenas de jagunços pela região, queimando barracos, matando pessoas, expulsando posseiros e índios. Em pouco tempo, a região estava sendo transformada em um enorme pasto.

4-O POVO COMEÇA A SE ORGANIZAR

Começa a nascer a consciência entre as pessoas, e os grupos iniciam uma organização. O processo é lento, a falta de esclarecimento é grande e impede que se agilizem ações mais rápidas. Mas junto com a Igreja Católica, são organizados os primeiros sindicatos rurais.

A região perdia a passos largos seus recursos naturais. Em cinco anos aproximadamente, castanheiras, árvores de madeira de lei e árvores medicinais foram destruídas pelo fogo e pelas motosserras. Era preciso agir com mais rapidez.

Desde a década de 70, os seringueiros mudavam-se para a capital do Acre, engrossando o cinturão de miséria. Via-se miséria, tráfico de drogas, prostituição e toda sorte de problemas, enquanto isso, na floresta, o solo era castigado, ficando improdutivo. Os projetos com recursos do exterior se ampliavam.

5-A ORIGINALIDADE DA LUTA

Um dos fatores que mais repercutiu na imagem de Chico Mendes foi a sua forma de organizar as lutas para combater a devastação da terra. Em 10 de março de 1976, para evitar que uma área fosse devastada, foi feito uma “trincheira” na selva.


(...) fazíamos um cordão de mãos dadas e cercávamos a área que estava sendo desmatada, não deixávamos os caras entrar e desmontávamos os seus acampamentos. Ninguém ia armado, quer dizer, tínhamos duas ou três pessoas armadas mas com a firme recomendação de só agir nas últimas conseqüências, no caso de estarem matando alguém. Nosso objetivo era tentar convencer os peões a ficar do nosso lado. E sempre conseguíamos a adesão. Agora, quando a polícia chegava, esses mesmos peões eram obrigados a ficar contra nós. Lembro de umas quatro vezes em que a gente foi preso e ficamos lá deitados no chão e eles batendo na gente e depois, todos ensangüentados, nos jogavam no caminhão, com muita gente junta, começávamos a cantar os hinos da Igreja. Chegávamos na delegacia, mais de cento e tantos homens, não tinha lugar para alojar todo mundo e ficávamos pelos corredores. A polícia cercava o prédio e, por fim, tinham que nos liberar. (idem).


Surge em 1980, o famoso “empate” que consistia em formar um mutirão de pessoas que se colocavam diante dos peões, impedindo assim que avançassem no desmatamento. Participaram do movimento homens, mulheres e crianças. As crianças eram colocadas como escudo, evitando que os pistoleiros atirassem.

Nessas ocasiões, Chico Mendes e outros representantes conversavam com os peões, que por muitas vezes passaram a ficar do lado do movimento. Entretanto, os fazendeiros contratavam a polícia, que agia sem piedade. Muita pancadaria e muitas prisões foram efetuadas.

Em 1982, Chico Mendes se lança candidato a Deputado Estadual pelo PT. Em outubro de 1985 ocorre o Primeiro Encontro Nacional de Seringueiros em Brasília. Desse encontro participaram observadores nacionais e estrangeiros. Índios e seringueiros se uem em busca de propostas. Essa união fortificou o sindicato.

A situação foi denunciada por Chico Mendes, quando participou de reunião do BID-Banco Interamericano de Desenvolvimento, em Maiame, no ano de 1987.Ele falou do desmatamento como conseqüência dos projetos financiados pelos bancos internacionais, e conseguiu sensibilizar o Congresso Americano. O banco suspende o resto do desembolso para o asfaltamento da estrada, o que representou grande avanço do Conselho Nacional dos Seringueiros e nas propostas dos índios.

Chico Mendes recebeu vários prêmios e reconhecimentos nacionais e internacionais pela defesa da ecologia.

6- PERSEGUIÇÃO E RESISTÊNCIA

Em 1977, Chico sendo vereador, recebe as primeiras ameaças vindas dos fazendeiros. Seu partido político- MDB- não é solidário às suas lutas. Em 1979, a Câmara Municipal serve de local para debates entre lideranças, o que não agradou a diversas autoridades do governo.

Chico Mendes é enquadrado na Lei de Segurança Nacional em 1980, e no ano seguinte é acusado de insitar a violência entre os posseiros. Foi julgado no tribunal Militar em Manaus. Todavia, foi absolvido.

O ano de 1988 assistiu a uma série de atos violentos e assassinatos. Os crimes não eram apurados e a insegurança tomava conta do local. Com tantas perseguições e ameaças, não foi difícil Chico Mendes e as pessoas que com ele conviviam prever que algo de ruim iria acontecer.

7-CHICO PREVÊ A PRÓPRIA MORTE E PEDE SEGURANÇA

Um dia Chico Mendes afirmou:


Se descesse um enviado dos céus e me garantisse que minha morte iria fortalecer nossa luta até que valeria a pena. Mas a experiência nos ensina o contrário. Então eu quero viver. Ato público e enterro numeroso não salvarão a Amazônia. Quero viver.


O governador colocou dois seguranças para acompanhar Chico Mendes, que menciona sua preocupação e denuncia a situação no Jornal do Brasil


Minha segurança ultimamente foi reforçada no Acre por decisão do governador Flaviano Melo. Ele sabe que meu assassinato vai complicar a situação do Estado. Não que a morte de seringueiro no Acre seja novidade. Mas é que nosso movimento tornou-se conhecido mundialmente. Principalmente junto às autoridades do Banco Mundial, do BID e do Congresso Americano. Ora, não se bate de frente nessas entidades. Hoje minha vida passa pelos policiais da PM.

Tenho tido uma relação amigável com os meus ‘seguranças’. Eu tenho consciência de que todas as lideranças populares nesses últimos dez anos- advogados, padres, pastores, líderes sindicais - todos eles foram mortos mesmo com garantia de vida do governo. Não precisa nem citar exemplos, pois eles estão vivos na memória de todos. Tenho esperança de continuar vivo. É vivo que a gente fortalece essa luta. De parte do governo do Estado não tenho por que temer. Pelo contrário. Agora, por outro lado, eu estou diante de dois inimigos poderosos: a UDR e a Polícia Federal do Acre.(Jornal do Brasil-09/12/1988).


Apesar de seus apelos, e da segurança oferecida pelos dois policiais militares, Chico Mendes foi assassinado com um tiro de escopeta, quando estava no quintal de sua casa, no dia 22 de dezembro de 1988. Chico Mendes deixou sua esposa Ilzamar e dois filhos menores.
Ao saber do crime - que ganhou repercussão internacional -, Ilzamar abraçou os filhos pequenos, então com 4 e 2 anos, e foi até o local do crime. "O choque foi grande", lembra ela, que perdeu noites de sono e emagreceu quase dez quilos nos meses seguintes. Foi com os filhos que ela encontrou forças para dar a volta por cima. "Era uma espécie de mãe e pai e não podia abandoná-los naquele momento", diz.

Mas também não deixou para trás as causas do marido, conhecido em todo o mundo como defensor dos povos da floresta amazônica. Cinco dias depois da morte, começou a erguer a Fundação Chico Mendes, de defesa do meio ambiente, que preside.
Desde a morte do marido, Ilzamar se empenhou em lutar pela punição dos assassinos. "Só
sosseguei quando eles foram presos", diz, referindo-se a Darci e Darly Alves da Silva.
( http://www.terra.com.br/istoe/semana/138718.htm)

8-CONSIDERAÇÕES FINAIS
Lembrando as palavras de Euclides Fernando Távora, mestre de Chico Mendes: “(...)hoje os trabalhadores estão sendo rechaçados, mas por maior que seja o massacre sempre existirá uma semente que renascerá”*

Apresentamos a seguir trechos de documentos e notícias sobre o homem simples, o brasileiro da floresta, que tornou-se imortal pela sua luta e que acreditou que podemos fazer deste um mundo muito melhor.

Lembrando ainda as palavras do próprio Chico Mendes: “Se descesse um enviado dos céus e me garantisse que minha morte iria fortalecer nossa luta até que valeria a pena.” * Essa fala não carece comentários, pois fica na compreensão de cada um analisar o que foi a vida de Chico Mendes, e perceber que ele semeou muito mais que árvores e foi além do solo da terra. Ele encontrou a fertilidade no coração de muitos homens, mulheres e crianças.

Os autores
MONTEIRO, Clenaldo Freire; MONTEIRO,Denise Schulthais dos Anjos. A saga de Chico Mendes. Fevereiro/2001.
denise1@ieg.com.br
c-monteiro@ieg.com.br

PIMENTA, Jósé. "Índio não é tudo igual": a construção ashaninka da História e da Política

Resumo
Os Ashaninka do rio Amônia no Estado do Acre têm uma longa história de luta, repelindo os invasores desde a época do Império Incaico até a economia extrativista da borracha do século XIX e a exploração madeireira no século XX. Num esforço consciente, reverteram as vicissitudes do contato transformando desvantagens em vantagens, incorporando e dando novos significados a diversos conceitos do mundo dos brancos, tais como comunidade, desenvolvimento sustentável, escola, projeto e cultura. A apropriação desses elementos faz parte da estratégia dos Ashaninka do rio Amônia não só para fortalecer sua identidade étnica frente aos seus parentes de outras áreas ashaninka e aos brasileiros regionais, mas também para concretizar suas aspirações políticas no contexto do indigenismo acreano.


Palavras-chaves: índios Ashaninka, Amazônia, Acre, relações interétnicas, indigenismo, ambientalismo, desenvolvimento sustentável
ÍNDICE

INTRODUÇÃO............................................................................................................... 1

1. Apresentação e informações gerais...................................................................2
2. Orientação teórica............................................................................................12
3. O trabalho de campo: características e limites.................................................23
PARTE I: História...........................................................................................................38

Capítulo I: A história ashaninka e a conquista da Selva Central peruana.........39
1.1. Comércio e guerra: Relações interétnicas na Selva Central.........................40
1.2. O “tempo dos espanhóis”: colonização e revoltas indígenas........................51
1.2.1. Entre a cruz e a espada: A colonização espanhola
na Selva Central......................................................................................51
1.2.2. Atahualpa: O filho de Deus e o messianismo indígena.................60
1.3. Os Ashaninka e o Peru independente...........................................................71
1.3.1. A economia caucheira ou o terror na Selva...................................73
1.3.2. “Gringos” e “comunistas”: imagens modernas do terror...............77

Capitulo II: A conquista do Acre e os Ashaninka do rio Amônia.....................85
2.1. A "invenção" do Acre: Conquista, Imaginário e Povos Indígenas...............86
2.2. Os Ashaninka do rio Amônia no tempo dos primeiros patrões....................98
2.3. A "segunda conquista do Acre": Conflitos fundiários, emergência
dos movimentos indígena e seringueiro e a "Aliança dos Povos da
Floresta".....................................................................................................113
2.3.1.Desenvolver e integrar: a “segunda conquista” da região
acreana..................................................................................................113
2.3.2 - A luta dos “Povos da Floresta”: Organização e
consolidação dos movimentos indígena e seringueiro.. ........................117

Capítulo III: Auge e fim dos patrões: Exploração madeireira e luta pela Terra.130
3.1. O “rio da madeira”: A exploração madeireira no rio Amônia e suas
conseqüências............................................................................................131
3.2. Conflitos interétnicos e demarcação territorial...........................................142

PARTE II “Nós e os Outros”: Identidades e alteridades entre os Ashaninka
do rio Amônia
..173

Capítulo IV: A visão ashaninka da alteridade............................................178
4.1. Cosmologia ashaninka: A hierarquia do Bem e do Mal.............................178
4.2. O “Outro” mais distante: As representações simbólicas
sobre o wirakotxa................................................................................................190
4.3. Os “brabos e os mansos”: A construção da alteridade indígena.................204
Capítulo V: Ser Ashaninka: expressões da etnicidade e instrumentalização
da “Cultura
”.....217
5.1. Caboclo, Kampa e Ashaninka....................................................................218
5.2. Identidade contrastiva, instrumentalização da cultura
e a busca de autenticidade.................................................................................224
5.3. Da “educação diferenciada” à “escola tradicional” e ao uso do
vídeo ou como ser Ashaninka com os instrumentos dos brancos......................248
Capítulo VI: “Iguais, porém diferentes”: Identidade étnica e fronteiras nacionais..267
6.1. Antropologia em fronteiras ou a concepção ashaninka da divisa
internacional......................................................................................................271
6.2. “Parentes diferentes”: O exemplo de Sawawo...........................................282
6.3- Invasão madeireira na faixa de fronteira................................................... 297
PARTE III: Política.......................................................................................................305
Capítulo VII. Política interna e organização social................................................306
7.1. Do nampitsi a comunidade: Antigos chefes e novos líderes......................307
7.2. Apiwtxa: “A força da união”......................................................................332
Capítulo VIII. Política interétnica e desenvolvimento sustentável...........357
8.1. A noção de “projeto”: Ayõpari com os brancos.........................................358
8.2. “Ãtame Aniro” ou “A Floresta é nossa Mãe”.............................................373
8.3. APIWTXA versus TAWAYA ou os limites do desenvolvimento sustentável.........394
CONCLUSÃO..............................................................................................................417
BIBLIOGRAFIA..........................................................................................................423

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Imagens que nunca queria ter visto























































domingo, 23 de agosto de 2009

Anais da Biblioteca Nacional em formato digital

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sábado, 22 de agosto de 2009

Biblioteca Virtual - PDL


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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A história do Acre é fantástica ...rsrsr...

“A Revolução Acreana foi muito mais que uma guerra [...] foi, na verdade, um momento singular onde foram estabelecidos os signos que ainda hoje trazemos em nossa identidade mais essencial [...] antes da Revolução não havia acreanos”
(Jorge Viana in: CALIXTO, Validir. Plácido de Castro e a Construção da Ordem no Aquiri)


O enunciado acima foi selecionado pelo fato dele conseguir transmitir de modo bastante simples algumas das principais características do discurso fundador do Acre. Primeiro, fala da existência de um marco fundador do Acre enquanto comunidade: a revolução acreana. Segundo, cerca de áurea esse momento, considerando-o singular. Terceiro, confirma a existência de uma identidade “essencial”. Quarto, afirma que esse episódio inaugural foi capaz de projetar à posteridade signos identitários, sem os quais a identidade acreana não seria plenamente identificável.

Além das características mencionadas acima, sobre o Discurso Fundador ainda pode-se destacar outras, tais como: a) fomentação do culto ao passado - instaurado pelo “eterno retorno” das comemorações, festas cívicas etc.; b) o estabelecimento dos arquétipos – os antepassados nordestinos se tornaram a encarnação do heroísmo qualificador de toda a comunidade; c) a instauração do idealismo patriótico como motivação principal da revolução acreana; d) promove o acreanismo através do orgulho da origem maravilhosa da comunidade; e) é atravessado por um silêncio histórico, a saber, funda uma comunidade numa região onde milenarmente era ocupada por tribos indígenas.

Música de Tião Natureza - Chico Mendes

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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Senadora Marina Silva deixa o PT - Carta de Despedida

Companheiro Ricardo Berzoini,
Tornou-se pública nas últimas semanas, tendo sido objeto de conversa fraterna entre nós, a reflexão política em que me encontro há algum tempo e que passou a exigir de mim definições, diante do convite do Partido Verde para uma construção programática capaz de apresentar ao Brasil um projeto nacional que expresse os conhecimentos, experiências e propostas voltados para um modelo de desenvolvimento em cujo cerne esteja a sustentabilidade ambiental, social e econômica.

O que antes era tratado em pequeno círculo de familiares, amigos e companheiros de trajetória política, foi muito ampliado pelo diálogo com lideranças e militantes do Partido dos Trabalhadores, a cujos argumentos e questionamentos me expus com lealdade e atenção. Não foi para mim um processo fácil. Ao contrário, foi intenso, profundamente marcado pela emoção e pela vinda à tona de cada momento significativo de uma trajetória de quase trinta anos, na qual ajudei a construir o sonho de um Brasil democrático, com justiça e inclusão social, com indubitáveis avanços materializados na eleição do Presidente Lula, em 2002.

Hoje lhe comunico minha decisão de deixar o Partido dos Trabalhadores. É uma decisão que exigiu de mim coragem para sair daquela que foi até agora a minha casa política e pela qual tenho tanto respeito, mas estou certa de que o faço numa inflexão necessária à coerência com o que acredito ser necessário alcançar como novo patamar de conquistas para os brasileiros e para a humanidade. Tenho certeza de que enfrentarei muitas dificuldades, mas a busca do novo, mesmo quando cercada de cuidados para não desconstituir os avanços a duras penas alcançados, nunca é isenta de riscos.

Tenho a firme convicção de que essa decisão vai ao encontro do pensamento de milhares de pessoas no Brasil e no mundo, que há muitas décadas apontam objetivamente os equívocos da concepção do desenvolvimento centrada no crescimento material a qualquer custo, com ganhos exacerbados para poucos e resultados perversos para a maioria, ao custo, principalmente para os mais pobres, da destruição de recursos naturais e da qualidade de vida.

Tive a honra de ser ministra do Meio Ambiente do governo Lula e participei de importantes conquistas, das quais poderia citar, a título de exemplo, a queda do desmatamento na Amazônia, a estruturação e fortalecimento do sistema de licenciamento ambiental, a criação de 24 milhões de hectares de unidades de conservação federal, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e do Serviço Florestal Brasileiro.
Entendo, porém, que faltaram condições políticas para avançar no campo da visão estratégica, ou seja, de fazer a questão ambiental alojar-se no coração do governo e do conjunto das políticas públicas. É evidente que a resistência a essa mudança de enfoque não é exclusiva de governos. Ela está presente nos partidos políticos em geral e em vários setores da sociedade, que reagem a sair de suas práticas insustentáveis e pressionam as estruturas públicas para mantê-las.

Uma parte das pessoas com quem dialoguei nas últimas semanas perguntou-me por que não continuar fazendo esse embate dentro do PT. E chego à conclusão de que, após 30 anos de luta socioambiental no Brasil – com importantes experiências em curso, que deveriam ganhar escala nacional, provindas de governos locais e estaduais, agências federais, academia, movimentos sociais, empresas, comunidades locais e as organizações não-governamentais – é o momento não mais de continuar fazendo o embate para convencer o partido político do qual fiz parte por quase trinta anos, mas sim o do encontro com os diferentes setores da sociedade dispostos a se assumir, inteira e claramente, como agentes da luta por um Brasil justo e sustentável, a fazer prosperar a mudança de valores e paradigmas que sinalizará um novo padrão de desenvolvimento para o País. Assim como vem sendo feito pelo próprio Partido dos Trabalhadores, desde sua origem, no que diz respeito à defesa da democracia com participação popular, da justiça social e dos direitos humanos.

Finalmente, agradeço a forma acolhedora e respeitosa com que me ouviu, estendendo a mesma gratidão a todos os militantes e dirigentes com quem dialoguei nesse período, particularmente a Aloizio Mercadante e a meus companheiros da bancada do Senado, que sempre me acolheram em todos esses momentos. E, de modo muito especial, quero me referir aos companheiros do Acre, de quem não me despedi, porque acredito firmemente que temos uma parceria indestrutível, acima de filiações partidárias.
Não fiz nenhum movimento para que outros me acompanhassem na saída do PT, respeitando o espaço de exercício da cidadania política de cada militante. Não estou negando os imprescindíveis frutos das searas já plantadas, estou apenas me dispondo a continuar as semeaduras em outras searas.

Que Deus continue abençoando e guardando nossos caminhos.

Saudações fraternas, Marina Silva
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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Governadores do Acre

TEXTO: arquivo do Departamento Histórico do Acre

Aníbal Miranda Ferreira da Silva – 06/07/1962-01/03/1963
- 19.10.62 = posse: Prefeito Raimundo Herminio de Melo.

Aníbal Miranda, assumiu o governo provisório do mais novo Estado da federação brasileira, quando Rui Lino deixou o cargo para concorrer as primeiras eleições realizadas em 1962. Seu período foi marcado pela transformação do Acre de Território em Estado.
Aníbal era filiado ao PTB, partido de ascensão nacional e no qual foi indicado governador pelo presidente da República João Goulart, por ocasião da saída do Secretário Geral do Governo, na época Geraldo Mesquita para concorrer as eleições para o legislativo federal. E foi através deste partido, que Aníbal Miranda foi eleito em 1963 à prefeito de Rio Branco. No Governo do Estado deu continuidade ao trabalho deixado por Rui Lino, embora de certa forma já voltado para a candidatura de José Augusto ao governo, e mesmo da sua a Prefeitura de Rio Branco.

Pojucan Ribeiro – 03/11/1962-16/12/1962
O professor Pojucan Ribeiro, assumiu o cargo interinamente na gestão de Aníbal Miranda, durante a curta etapa de um mês, por ter o governador ausentado-se do cargo para tratar de negócios, relacionados ao Estado com o Presidente da República.
Pojucan Ribeiro não governou de forma total, só cumpriu o programa de Aníbal Miranda.

José Augusto de Araújo – 01/03/1963-08/05/1964
José Augusto de Araújo: de 1º de março de 1963 a 08 maio de 1964; quando foi deposto pelos militares que assumiram a presidencia do Brasil.

- 31.07.63 = posse: Prefeito Alfredo Arantes Meira Filho.

- 07.10.63 = posse: Prefeito Anibal Miranda Ferreira da Silva, primeiro e único prefeito eleito.
José Augusto, também do PTB, foi eleito em 1963 por uma razoável quantidade de votos, já que concorria com o autor do Projeto de Transformação do Território em Estado do Acre, Guiomard santos (PSD), que era o nome mais cotado para exercer o cargo, o que não aconteceu. José Augusto foi o primeiro Governador Constitucional do Estado do Acre. Governou entre março de 1963 à maio de 1964, quando foi deposto pelo golpe militar de 64, pois era um ativista político do PTB e exercia um comportamento considerado comunista, postura que não era aceita pelos militares. Seu governo foi muito conturbado, já que os próprios militantes de seu partido aliaram-se aos adversários políticos para articularem a sua deposição. Apesar de seu trabalho ter sido considerável para a maioria da população, uma das causas de sua deposição, ao que tudo indica, foi o não favorecimento de determinadas camadas da sociedade, acostumadas a participarem dos governos passados, ora como tutelados, ora como tutores do dinheiro público.

José Augusto, foi eleito em 63 como o primeiro governador constitucional do Estado do Acre. Governou durante 1 ano e 2 meses quando foi deposto pelo golpe militar em 64.

Capitão Edgard Pedreira de Cerqueira Filho – 08/05/1964-11/08/1966
Capitão Edgard Pereira de Cerqueira Filho: de 08 de maio de 1964 a 14 de agosto de 1966;
- 10.04.64 = posse: Prefeito João Rodrigues de Souza.
- 31.01.66 = posse: Prefeito Wildy Viana das Neves.
- 11.03.66 = posse: Prefeito Antonio Rodrigues Marbosa.

- Edgard Cerqueira Filho, um capitão do exército, que em 64 era comandante da 4ª Companhia de Fronteira no Acre, governou de 64 a 66. Capitão Cerqueira foi indicado para substituir o governador José Augusto. Sua carreira como gestor não atingiu o destaque esperado, pois estava mais como um comandante do que como governante. Não realizou grandes obras, mas uma merece destaque que é o Banco de Produção e Fomento por ele reivindicado. Na verdade, Edgard Cerqueira mantinha a postura que era necessária na ocasião a de manter a ordem e o controle da situação. Ele ainda tentou seguir a carreira política após sua saída do governo, mas devido a sua inexperiência política e a falta de apoio de seus correligionários do partido governista, não foi eleito.

Augusto Hidalgo de Lima – 14/08/1966-13/09/1966
Deputado Augusto Hidalgo de Lima: assumiu o governo provisoriamente na qualidade de presidente da Assembléia Legislativa do Estado do Acre no período de 14 de agosto de 1966;
- 16.08.66 = posse: Prefeito João Rodrigues de Souza.

O médico Augusto Hidalgo de Lima, permaneceu no governo durante a transição do mandato de Edgard Cerqueira que havia se desincompatibilizado do cargo para concorrer as eleições e Jorge Kalume que foram indicado ao cargo. Augusto Hidalgo apenas cumpriu o que foi deixado por Cerqueira. Inaugurou algumas obras que foram concluídas no período de um mês que governou.


Jorge Kalume – 13/09/1966-15/03/1971
Jorge Kalume: governou de 13 de setembro de 1966 a 15 de março de 1971, pela ARENA;
- 30.09.66 = posse: Prefeito Adauto Brito da Frota.
- 05.12.66 = posse: Prefeito Gerardo Madeira de Matos.

Jorge Kalume, foi o primeiro acreano a governar o Acre e o fez no período de 66 à 71, em plena Ditadura Militar, graças ao fato de que era um político de renome regional e também militante do PSD, que logo após o golpe com o bipartidarismo transformou-se em ARENA, e era o partido de sustentação da Ditadura, e pelo qual Jorge Kalume foi nomeado governador do Acre.
Em toda sua gestão, Kalume destacou-se pelas obras significativas que beneficiaram os acreanos, estas obras que vinham de governos passados e que somente em seu mandato foram concluídas. Entre estas obras estavam a construção da ponte metálica de ligação do 1º com o 2º distrito de Rio Branco, facilitando o acesso que só era possível de canoa. Melhorou também o serviço de abastecimento de água da capital, criou a escola técnica, etc. Seu governo foi considerável, o que lhe garantiu mais tarde ser eleito em dois mandatos à Prefeitura de Rio Branco, e depois ao Senado Federal, sendo um dos políticos mais respeitados na atualidade.

Francisco Wandeley Dantas – 15/03/1971-15/03/1975
Francisco Vanderlei Dantas: de 15 de março de 1971 a 15 de março de 1975, pela ARENA
- 08.06.71 = posse: Prefeito José Durval Walderlei Dantas.

Wanderley Dantas, governou o Estado do Acre de 71 à 75, sendo mais um acreano a exercer o mais alto cargo do executivo estadual. Dantas apesar de ser nascido no Acre, não teve por parte dos políticos locais, apoio quando colocou a disposição seu nome ao cargo majoritário. Wanderley Dantas teve em seu favor o grande prestígio que obteve quando foi deputado federal e elaborou um projeto de alfabetização, que lhe consagrou como político. Este projeto foi de grande repercussão nacional, sendo conhecido na época como MOBRAL.
Seu período foi um dos mais marcantes para a história do Acre, principalmente na área econômica, quando o governo federal lançou uma campanha de nível nacional para o desenvolvimento da Amazônia, na qual o Acre estava incluído. Esta campanha visava implantar a pecuária no lugar da economia base que era o extrativismo do látex. De forma abrupta o Acre teve que acatar estas novas medidas, o que desestruturou totalmente a economia acreana.
Wanderley Dantas numa tentativa frustrada de adequar a nova medida, colocou setores do governo à disposição, para que fossem elaborados projetos agropecuários que mobilizassem a implantação do sistema e apoiasse os fazendeiros que vinham ao Acre instalarem-se.
Esta nova proposta econômica do governo federal causou muitos transtornos, principalmente para os seringueiros e posseiros, como também aos seringalistas, que foram expulsos de suas terras devido aos cortes dos incentivos que os ajudavam no beneficiamento e escoamento de seus produtos. O resultado foi o êxodo rural para as cidades mais próximas, principalmente para Rio Branco, aumentando os índices de desemprego e pobreza durante todo este período. Entendemos as medidas do governador Dantas, como inexperiência política, pois ao tentar implantar a pecuária deveria ter sido feito um estudo minucioso da terra, para ver a possibilidade de danos acarretaria a terra. Em algumas fontes encontramos relatos de que o governo sabia que este projeto era inviável, mas que deveria ser executado, o que resultou em um caos para a população acreana.

Geraldo Gurgel de Mesquita – 15/03/1975-15/03/1979

Geraldo Gurgel de Mesquita: de 15 de março de 1975 a 15 de março de 1979;
- 23.04.75 = posse: Prefeito Adauto Brito da Frota [interventor].
- 17.06.77 = posse: Prefeito Fernando Inácio dos Santos.

Geraldo Mesquita exerceu o cargo de governador de 71 à 75 e foi um dos gestores que mais se destacaram no contexto histórico político do Acre. Por sua divergência diante a política que desestabilizou a economia acreana, que seu antecessor Wanderley Dantas adotou. Geraldo Mesquita traçou um plano impedindo a entrada dos grileiros e especuladores de terras no Acre e deu incentivos financeiros e até terras aos pequenos e médios produtores agrícolas, para que voltassem aos locais de onde tinha, saído em busca, de melhores condições de sobrevivência. Com isto Mesquita buscava acabar com os inchaços urbanos que surgiram em decorrência da política de pecuarização, que provocou a saída do homem do campo aos centros urbanos. Todas estas medidas tiveram o apoio do governo federal, que queria a criação dos Projetos de Assentamentos Dirigidos, os PAD’s, surgidos para utilizar as terras federais devolutas através de sua doação aos sem terra para que os mesmos morassem e plantassem para sustentar suas famílias. Com aquela diretriz foi possível resgatar a economia base, o extrativismo pois surgiu outro projeto chamado PROBOR’s que auxiliavam na plantação de seringueiras, que praticamente havia sido extinguida pelo governo Dantas e as medidas do governo federal de pecuarizar a Amazônia.
Geraldo Mesquita, que desde meados da década de 40, quando foi citado como um dos fundadores do PC do B no Acre, até 1975 quando tem o seu nome aprovado pelo regime militar para governar o Acre. Conseguiu realizar um trabalho diferenciado dos exigidos pela ditadura, tão diferente que chegou a ter projetos vetados pelo governo federal, mesmo sem apoio financeiro e com todas essas dificuldades, desenvolve obras de melhoria de vida do homem do campo, dando condições para que os mesmos voltassem aos seus respectivos locais de origem, dos quais tinham sido forçados a sair pelo governo anterior ao seu, na política de desenvolvimento da Amazônia em meados da década de 70, ao qual já mencionamos, Geraldo Mesquita é até hoje apontado como um dos governadores mais dinâmicos e que realmente se preocuparam com o desenvolvimento do Acre, mais cuja história é um pouco confusa, ou seja tem fatos contraditórios que precisam ser esclarecidos.
Geraldo Mesquita, o governador que citamos acima, teve uma particularidade que não encontramos em outros, que foi o seu distanciamento da mídia, ao qual durante todo seu mandato preferiu manter-se isolado, e isto fez com que houvessem pouquíssimas matérias que falassem de seu governo.


Joaquim Falcão Macedo – 15/03/1979-15/03/1983
Joaquim Falcão Macedo: de 15 de março de 1979 a 15 de março de 1983.
Joaquim Macedo assumiu em 79 e ficou até 83. No início de sua gestão, tentou dar continuidade a política de Mesquita, continuar incentivando os PAD’s e os PROBOR’s que ajudavam o homem do campo. Não conseguiu, entretanto, desenvolver o projeto porque estava atrelado ao governo federal, e neste momento o presidente João Figueiredo tinha outras orientações.

Macedo enfrentou diversas crises que lhe fugiram do controle, entre elas as manifestações de descontentamento partidas de setores ligados ao governo, como por exemplo: a primeira greve dos professores do Estado em busca de melhorias salariais. Além de terem sido iniciados os primeiros empates de seringueiros contra fazendeiros, por terem suas terras invadidas pela pastagem.

Este período foi marcado por grandes enchentes e desbarrancamentos que inviabilizaram o desenvolvimento de boa parte do plano governamental, pois os vários financiamentos adquiridos mal davam para atenderem os vários problemas. Outra dificuldade enfrentada, foi o transporte de produtos pela Rodovia Federal BR-364 para abastecerem o mercado local, que em épocas de chuvosas ficava interditada, dificultando a entrada e o escoamento de produtos. Várias reivindicações foram feitas ao governo federal na tentativa de adquirir verbas para a pavimentação, mas não eram atendidas. O Estado passou por momentos de calamidade, chegando a causar a escassez de produtos industrializados, bem como de gêneros de primeira necessidade.

- Flaviano Melo, prefeito de 1981 à 1985

Nabor Teles da Rocha Júnior – 15/03/1983-15/05/1986
Nabor Teles da Rocha Júnior: eleito em 1982, foi governador no período de 15 de março de 1983 a 1986, pelo PMDB;

Nabor Júnior, foi o primeiro governador eleito em 1982 pelo PMDB, após vinte anos de Ditadura Militar. O Acre até então só tinha vivido o processo democrático nas eleições de 62, quando foi eleito José Augusto (PTB) ao governo do Estado, através do voto direto. E vinte anos depois é que o povo do Acre voltaria a conhecer a democracia. Embora muito esperado, esse acontecimento não atingiu as perspectivas almejadas, pois era necessário, para que houvesse uma mudança real, uma verdadeira transformação do quadro a nível nacional, pois o regime ditatorial ainda mantinha-se.
Nabor Júnior permaneceu no cargo de 83 à 86, mesmo com o descrédito que o povo demonstrava para com os governantes, desenvolveu um governo íntegro dentro das condições possíveis que lhes foram oferecidas, o resultado de seu mandato foi tão positivo que renunciou ao cargo para concorrer às eleições ao senado federal, tendo sido eleito pela maioria dos votos. Sua dedicação e honestidade política garantem-lhe até hoje eleitores cativos e uma cadeira assegurada no senado.

- Adalberto Aragão, prefeito em 1985 à 1989.

Iolanda Lima Fleming – 14/05/1986-15/03/1987
Iolanda Lima: era vice-governadora de Nabor Júnior. assumiu o governo por um período de menos de 1 ano em 1986, pelo PMDB;
Iolanda Fleming, foi a primeira mulher no Brasil que exerceu cargo de governadora. Iolanda assumiu o cargo em 86 e saiu em 87, governou com propostas de realizar projetos que suprissem as necessidades do Estado, principalmente na área cultural, tanto que logo de início anunciou a construção de um novo estádio de futebol e um teatro municipal, estas obras ficariam como marcos de seu governo. Mas, novamente as obras no Acre não sairiam das manchetes de jornais, o que revela-se como uma característica da política acreana.
Iolanda apesar de sua popularidade a nível nacional, não chegou a se destacar politicamente durante o seu governo, já que demonstrou imaturidade política. E talvez por ser o Acre um estado conservador com relação a mulheres exercerem cargos majoritários, não tenha conseguido se destacar.

Flaviano Flávio Baptista de Melo – 15/03/1987-02/04/1990
Dr. Flaviano Melo: eleito em 1986. assumiu o governo no período de março de 1987 a 1990, pelo PMDB;
Flaviano Melo ficou no cargo de 87 à 90, segundo governador eleito pelo PMDB. Na década de 80 ele havia sido prefeito da cidade de Rio Branco, cargo no qual fez uma excelente administração, dando-lhe a chance de eleger-se governador do Acre. Em sua gestão, Flaviano Melo ganhou destaque a nível nacional por suas farras promovidas com o dinheiro público, denegrindo a imagem de seu partido, que era dotado de grande credibilidade no Acre, levando-o a renúncia para que não prejudicasse seu partido.
Mas aquele episódio logo caiu no esquecimento do povo, tanto que conseguiu a proeza de eleger-se senador pelo Acre. Hoje Flaviano continua sendo um dos caciques do PMDB, partido pelo qual milita há anos.


Edson Simões Cadaxo – 02/04/1990-15/03/1991
Edson Caxado: era vice-governador do Dr. Flaviano Melo. Assumiu o governo por um período de menos de 1 ano em 1990, pelo PMDB;
Edson Cadaxo, assumiu o governo em 1990 após a renúncia de Flaviano Melo, ficando 11 meses. Em sua passagem pelo governo, Cadaxo tentou restabelecer a imagem de seu partido o PMDB, que tinha sido deturpada por Flaviano. A gestão de Cadaxo não foi de grandes realizações, mas merece destaque pela maneira honesta com que governou.

Edmundo Pinto de Almeida Neto – 15/03/1991-15/05/1992
Dr. Edmundo Pinto: eleito em 1990.
Edmundo Pinto surgiu como a solução para os problemas do Acre. traçou suas metas de trabalho em torno dos principais problemas que o Estado enfrentava, que eram a pavimentação da BR-364 e a construção de um grande canal de saneamento sanitário que beneficiaria a população de Rio Branco. O governador Edmundo Pinto conseguiu com o governo federal, verba para elaborar estas obras. Mas devido às várias denúncias de fraudes de níveis nacional, teve seu nome envolvido e foi indiciado a prestar depoimento na CPI. Deslocou-se até São Paulo para esclarecer os fatos que envolviam seu nome onde foi assassinado, em 19/05/93, antes mesmo de prestar depoimento. Este crime foi de comoção nacional por tratar se de um governador. Ainda assim o crime não foi elucidado e apesar de vários fatores indicarem para um crime político é tratado até hoje como ocasional caso de latrocínio.
Edmundo em pouco tempo de governo, conseguiu permanecer na história do Acre, pelo potencial de trabalho que demonstrou ao tentar solucionar os problemas do Estado.
Edmundo Pinto, elegeu-se em 1990 pelo PDS ao governo do Estado. Após acirrada disputa com o candidato do PT, Jorge Viana.

Romildo da Silva Magalhães – 15/05/1992-01/01/1995

Romildo Magalhães: era vice-governador de Edmundo pinto, com sua morte, assume em 1992 até 1994.
Romildo Magalhães, era o vice-governador de Edmundo e com a morte do mesmo passou a exercer o cargo. Romildo adotou medidas completamente diferentes das de Edmundo, e transformou-se em um dos piores governantes que o Acre possuiu. Em seu mandato houveram muitas denúncias de fraudes, como desvio de dinheiro público, inchaço na máquina administrativa e compra de votos, tantas fraudes sugeriram seu impeachment. Os funcionários públicos ficaram quase seis meses sem receberem salários, ocorreram greves em todas as áreas públicas, neste período o povo acreano viveu seus piores momentos. Romildo Magalhães desestruturou o Estado e também causou a ruína de seu partido o PDS na época, o atual PPB.
Em sua gestão Romildo inaugurou a grande obra esperada pelos acreanos e que foi reivindicada por Edmundo Pinto, que era a pavimentação da BR-364. Com esta rodovia o Acre saiu do isolamento e passou a integrar o eixo rodoviário com os estados do centro-sul.


Orleir Messias Cameli – 01/01/1995-01/01/1999
Orleir Cameli - Eleito em 1994, assumiu o Governo em 1995 devendo permanecer até 1998.
Orleir Cameli, foi eleito em 1994 (pelo PPB) ao governo, pelo trabalho que tinha desenvolvido em Cruzeiro do Sul (interior do Acre), enquanto prefeito. Orleir apesar de não ser conhecido politicamente, era um empresário bem sucedido que se enquadrava no perfil do candidato do povo acreano, muito conservador. Este governo como outros, não realizou grandes obras e simplesmente continuou a política de manutenção do que já estava feito, e de investir em obras que só beneficiaram uns poucos. Por isso também teve seu nome envolvido em escândalos no que foi cogitado seu impeachment, porém as denúncias não foram comprovadas.

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terça-feira, 18 de agosto de 2009

"... a bravura de índios...resultou na formação do Estado Independente do Acre" - A história do Acre é mesma "fantástica" não é verdade...srsrsrsr

Placa localizada logo na entrada do Museu da Borracha Rio Branco/Ac (fev/2008).

"Surpreendentemente, passado pouco mais de cem anos do início do massacre, a figura do índio aparece de mãos dadas com a dos seus algozes. Nas comemorações do Centenário da Revolução Acreana, o governo do Estado inscreveu o índio na memória discursiva da tal revolução, como se ele tivesse se empenhado em defender o Acre que o destruiu. Uma violência simbólica sem tamanho que a história há de julgar. Veja na gravura acima:

A leitura que se fez dela foi que: a) a conquista da “vasta floresta amazônica” pertencente a outro país, no caso, a Bolívia, foi valorada como “gloriosa”; b) essa “gloriosa conquista” foi capaz de enriquecer “os últimos 100 anos do Brasil”; c) a “bravura” foi fundadora do Estado Independente do Acre; d) a formação do Estado Independente do Acre foi um consenso entre índios e seringueiros nordestinos; e) os seringueiros da região eram todos nordestinos, não havendo migrantes de outras regiões ou estrangeiros; f) os índios eram todos iguais, não existindo diferenças étnicas entre eles; g) a chamada revolução acreana foi um consenso entre todos os moradores da região, e que todos (“o povo”) fizeram a revolução; h) o “povo” só foi capaz de realizar a tal revolução por meio da liderança de Plácido de Castro.
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Duas perguntas são inevitáveis: que índios eram esses mencionados pelo discurso cuja bravura foi fundamental para a constituição do Estado Independente do Acre? Que “povo” era esse do discurso, já que provavelmente menos de 5% da população civilizada da região banhada pelo rio Acre foram realmente à guerra"
CARNEIRO, Eduardo. O discurso fundador do Acre (Dissertação de Mestrado)