quarta-feira, 23 de novembro de 2016

ACREANOCENTRISMO x ETNOCENTRISMO



Os gregos tinham desprezo pelos persas, os romanos discriminavam os judeus, o mundo ocidental segrega a cultura islãmica ... criticamos autores europeus de eurocentrismo... e tudo mais.

OBS: Por que não criticamos autores locais de acreanocentrismo? Desde Craveiro Costa ao famoso Leandro Tocantins ... todos contaminados pela visão do homem brando de nacionalidade brasileira... a visão do vencedor.. a visão acreanocentrica da anexação do Acre.

O Eurocentrismo e o Acreanocentrismo são variantes de um mesmo fenômeno = o etnocentrismo, que é tão fundamental para a manutenção de qualquer identidade comunitária.

Se o acreano lutou para ser brasileiro, não está ali um germe de xenofobia? kkkk ... quem tem ouvidos ouça .. ksks

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

ENTREVISTA COM O DR. EDUARDO CARNEIRO SOBRE TRATADO DE PETRÓPOLIS E O BARÃO DO RIO BRANCO




Prof. Dr. Eduardo Carneiro (UFAC)
autor e editor de livros.

“Nem a dita Revolução Acreana e nem Plácido de Castro foram os responsáveis pela anexação do Acre. Nossa historiografia é bairrista e provinciana, olha tudo a partir do umbigo. Foi o corpo diplomático brasileiro quem pôs fim à Questão do Acre, negociando com os EUA, o Bolivian Syndicate, a Bolívia e o Peru. Sem tal negociação, o Acre não teria sido nacionalizado” Eduardo Carneiro.


1. Qual a importância do Tratado de Petrópolis para a anexação do Acre ao Brasil?

Foi fundamental, pois resolveu diplomaticamente a chamada Questão do Acre com a Bolívia, que era naquele momento quem mais reivindicava o território e com o qual os “brasileiros do Acre” já haviam travado uma disputa armada. No entanto, o processo de anexação do Acre ao Brasil e, consequentemente, o fim da Questão do Acre, só veio mesmo em 1909, com o Tratado assinado entre o Brasil e o Peru, já que este último país também pleiteava essa região que hoje chamamos de Acre. Até a assinatura do Tratado de Petrópolis em 17 de novembro de 1903, o Acre não figurava oficialmente nos mapas do Brasil.

2. Como assim não era do Brasil? E os brasileiros na região? E a Revolução Acreana?
Ter brasileiros na região, não faz a região território brasileiro. Assim como o bairro da Liberdade em São Paulo não deixa de ser brasileiro mesmo sendo sediando a maior colonia japonesa do mundo. Os brasileiros não perderiam sua nacionalidade, apenas se tornariam estrangeiros, pois o que estava em jogo era a nacionalidade do território, portanto, o patriotismo não passava de uma artimanha retórica para mobilizar a opinião pública nacional em favor dos interesses fundiários dos seringalistas e das rendas fiscais do governo do Amazonas. E foi exatamente a defesa desses dois interesses que ocasionaram a chamada Revolução Acreana que, diga-se de passagem, não pôs fim a Questão do Acre, pelo contrário, apenas serviu para dar visibilidade nacional à mesma, além, é claro, de produzir dezenas de cadáveres.

3. O senhor está querendo dizer que a tão comemorada Revolução Acreana não foi a responsável pela anexação do Acre ao Brasil?

Não sou eu quem diz, são as evidências históricas quem afirmam isso. Basta analisar os fatos sem o preciosismo típico da literatura acreanocentrica. Senão vejamos: a) independente do conceito de “Revolução Acreana”, quer seja todos os eventos de resistência ao governo boliviano, quer seja apenas aquele liderado militarmente por Plácido de Castro, ela nunca resultou na incorporação de um palmo de terra sequer ao Brasil, o máximo que fez foi tornar o Acre um país independente; b) a vitória militar obtida contra o “miúdo” exército boliviano pelas tropas acreanas em Puerto Alonso em janeiro de 1903 não foi definitiva, já que o próprio Presidente da Bolívia, juntamente com o seu Ministro de Guerra e tropas bolivianas, ameaçaram invadir a região; c) Foi o Barão do Rio Branco quem evitou a carnificina, pois sabendo da “desforra”, tratou logo de acordar um modus vivendis com o governo boliviano; d) a vitória militar parcial obtida pelos acreanos em janeiro de 1993 contra os bolivianos não representou o fim da Questão do Acre, pois o território já estava “arrendado” para o Bolivian Sindicate e, contra esse sindicato internacional, os acreanos pouco ou nada podiam fazer; além do mais, a Revolução, no máximo, garantiria a posse de terra dos brasileiros na região do Purus, já que a do Juruá, o conflito era com os peruanos e não com os bolivianos; e) a dita Revolução foi mais obra da iniciativa do governo do Amazonas do que a dos acreanos propriamente ditos; Plácido de Castro nunca foi o mentor intelectual e nem o político da Revolução, no máximo, foi um líder militar convidado (ou contratado?) para uma causa que não era dele.

Sem a renúncia do Bolivian Syndicate assinada em 26 de janeiro de 1903 e sem a assinatura do modus-vivendi em 21 de março de 1903, tanto o destino do Acre, quanto o dos acreanos estava em suspenso. Por isso é que digo que o destino deles foi mais um resultado diplomático traçado nos gabinetes ministeriais do que um resultado militar traçado nos campos de batalha. Em resumo: a Revolução chegou ao fim sem que o Acre fosse nacionalizado.




4. Então, a participação do Barão do Rio Branco na Questão do Acre foi mais importante do que a do herói Plácido de Castro?

Claro que sim, não tenho a menor dúvida quanto a isso. Como já falei, a fase militar do processo de anexação do Acre ao Brasil não conseguiu incorporar sequer um palmo de terra ao Brasil. De nada adiantaria uma vitória militar definitiva contra os bolivianos, sem o sucesso diplomático que o Itamarati teve com os EUA, com o Bolivian Sindicate e com o Peru. Já pensou se o Bolivian Sindicate não renunciasse seus direitos sobre o Acre? Já pensou se os EUA unidos resolvessem apoiar a Bolívia e o Bolivian Sindicate contra o Brasil? Apesar de ambos serem parceiros comerciais, o Brasil até então se recusava ao alinhamento requerido pela Doutrina Monroe. Foi o esforço diplomático que garantiu a neutralidade dos EUA, a renúncia do Bolivian Sindicate,  além das compensações à Bolívia e do Peru. Plácido de Castro sequer foi convidado a participar das negociações, ele em nada interferiu ou contribuiu com o desfecho diplomático. Foi em meio a essa disputa simbólica sobre quem seria o “herói” do Acre que a figura de Plácido de Castro passou a ser mitificada em âmbito regional como o principal responsável pelo sucesso da anexação do Acre ao Brasil. Isso como uma forma de diminuir a importância do Barão do Rio Branco que, como já foi falado, também foi um dos responsáveis pelo “rebaixamento” do Acre à condição de Território.


5. Por que então foi Plácido de Castro que recebeu uma projeção local como herói dos acreanos e não o Barão do Rio Branco?
Simples, pois os autonomistas preferiram consagrar um líder local do que um nacional. Não devemos esquecer que o Barão do Rio Branco foi um dos mentores do “rebaixamento” do Acre à condição de Território, e tê-lo como herói não era estratégico para a causa autonomista. Os autonomistas queriam tornar o Acre um Estado, para tal propósito, era mais estratégico a escolha de liderança local como herói. O “Barão” sendo aceito como “pai do Acre”, ficaria mais fácil justificar o domínio político federal naquele território. O diplomata Barão do Rio Branco encarnava melhor o caráter nacional dos republicanos. Em contrapartida, a figura de Plácido de Castro fortalecia o regionalismo dos “coronéis” do Acre.  A idolatria a Plácido de Castro foi uma tradição construída e mantida postumamente.  Enquanto esteve vivo, nenhum prefeito endossou práticas comemorativas à “Revolução” ou aos “heróis da Revolução”, muito menos ao próprio Plácido de Castro. A consagração dele como “herói do Acre” só aconteceu porque ao longo da história não faltou quem obtivesse algum tipo de ganho simbólico ou dividendo político com a exaltação dele. Primeiramente os autonomistas, que fizeram dele um patrono de suas causas, depois os próprios militares, que exaltavam Plácido de Castro mais por ele ter sido um militar do que um “revolucionário”. Na literatura nacional, porém, é comum encontrarmos quem dedique o sucesso da anexação do Acre ao Brasil ao Barão do Rio Branco e não a Plácido de Castro. “Rio Branco” foi nomeado um dos centros comerciais mais importantes do Acre naquele início de século. O governo federal, através dos prefeitos, rendia-lhe homenagens, tratando-o como “patrono do Acre” (jornal Acreano, de Xapuri, 1 de novembro de 1909, Nº 56, primeira página). O Barão do Rio Branco ainda estava vivo e seu nome passou a ser utilizado em ruas, estabelecimentos públicos e praça. Sem dizer do “17 de novembro”, data da assinatura do Tratado de Petrópolis, que também virou nome de escola e outros.





EDUARDO DE ARAÚJO CARNEIRO
É licenciado em História (UFAC) e bacharel em Economia (UFAC). É mestre em Linguagem e Identidade (UFAC) e doutor em História Social (USP). Atualmente é aluno do                                 Doutorado em Estudos Linguísticos (UNESP). É Professor da UFAC, blogsta, escritor, editor de livros e poeta nas horas vagas.

LIVROS DO AUTOR (www.eaceditor.blogspot.com):
1)      Amazônia, limites & fronteiras: uma história revisada da nacionalização do Acre;
2)      A Formação da Sociedade Econômica do Acre:  “sangue” e “lodo” no surto da borracha (1876-1914); e
3)       A Epopeia do Acre e a manipulação da história.
4)      A Fundação do Acre(ano): História e Linguística.
5)      “Acreanidade” e comemorações cívicas no Acre (no prelo)


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A propósito da conferência mundial: o que é a ayahuasca mesmo?

A propósito da conferência mundial: o que é a ayahuasca mesmo? – artigo

17.10.20167:51Por Onides Bonaccorsi Queiroz
Tags:II Conferência Mundial da Ayahuascauso da ayahuascauso da ayahuasca no Acre

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O cipó jagube ou mariri e folhas do arbusto rainha ou chacrona (Foto: Sergio Polignano)
O cipó jagube ou mariri e folhas do arbusto rainha ou chacrona, utilizados no preparo da ayahuasca (Foto: Sergio Polignano)

A ayahuasca é uma bebida sacramental de uso milenar. Resulta do cozimento de duas plantas originárias da Floresta Amazônica: o cipó jagube ou mariri (Banisteriopsis caapi) e as folhas da rainha ou chacrona (Psychotria viridis).
Em torno dela, diversas tradições espirituais se estabeleceram entre povos indígenas do Brasil, Peru, Bolívia, Colômbia e Equador. Atualmente, 16 etnias do Acre utilizam a ayahuasca, que também recebe muitos outros nomes, como caapi, yagé, huní, nixi-pãe e kamarãpi.
Entre os não indígenas, o maranhense Raimundo Irineu Serra fundou, no início do século passado, em Rio Branco, a doutrina do Daime. Mais tarde, outro maranhense, seu amigo e seguidor, Daniel Pereira de Mattos, fundou o Centro Espírita e Culto de Orações Casa de Jesus Fonte de Luz, na mesma capital, de onde se originaram também as Barquinhas. Em Rondônia, no início da década de 60, o baiano José Gabriel da Costa fundava a União do Vegetal (UDV).
A ayahuasca é um chá medicinal psicoativo (ou seja, com atuação sobre o psiquismo), que promove a expansão da consciência humana. Seu uso ritual é protegido pela lei brasileira e é comprovadamente inofensivo à saúde.
A substância tem sido estudada por diversas áreas do conhecimento formal, como antropologia, psiquiatria, psicologia, química, botânica e medicina e a observação de seus efeitos antidepressivos têm chamado a atenção de pesquisadores do mundo todo.
Desse modo, esses estudiosos têm voltado seus olhares para uma região que é berço da cultura ayahuasqueira: o Acre.  Daí a realização da II Conferência Mundial da Ayahuasca em Rio Branco, de 17 a 22 de outubro.
Na capital acreana, o Conselho Municipal de Políticas Culturais abriga, desde 2008, a Câmara Temática da Ayahuasca, que reúne regularmente seguidores de várias linhagens em torno de pautas comuns.
Além disso, o Estado do Acre concedeu, em 2010, o título de Cidadão Acreano a cada um dos fundadores das três linhagens tradicionais: Mestre Irineu, Mestre Daniel e Mestre Gabriel, constituindo um passo importante no reconhecimento oficial da contribuição desses cidadãos e de suas comunidades à cultura amazônica e à promoção humana.
Onides Bonaccorsi Queiroz é jornalista, escritora e ayahuasqueira desde 1996.

Carta aberta dos Povos indígenas do Acre sobre Conferência Mundial da Ayahuasca

Carta aberta dos Povos indígenas do Acre sobre Conferência Mundial da Ayahuasca

22 de Outubro de 2016

CARTA ABERTA DOS POVOS INDÍGENAS DO ACRE – BRASIL À CONFERÊNCIA MUNDIAL DA AYAHUASCA (nixi pae, huni pae, uni pae, kamarãbi, kamalanbi, shuri, yajé, kaapi…)

Nós, abaixo-assinados, presentes nesta Conferência, pertencentes aos povos indígenas Yawanawa, Shanenawa, Jaminawa, Huni kui, Apurinã, Manchinery, Katukina, Nukini, Puyanawa, Ashaninka, Madja, Jamamadi, Nawa, Shawãdawa, Apolima-Arara, Jaminawa-Arara e Kuntawa, presentes no Estado do Acre e Sul do Amazonas desde nossas ancestralidades, somos 17 povos indígenas de 36 terras indígenas reconhecidas pelo governo federal, falantes das línguas Pano, Aruak e Arawa, perfazendo uma população estimada em 23.000 indígenas, os quais estão distribuídos em aproximadamente 230 aldeias. Vale lembrar que tais terras estão situadas em 11 dos 22 municípios acrianos.


A II WORLD AYAHUASCA CONFERENCE foi realizada na cidade de Rio Branco-AC entre os dias 17 a 21 de outubro de 2016, tendo como objetivo maior: “promover um espaço de diálogo, partilha e aprendizagem, sinergia e colaboração, no respeito pela diversidade cultural das tradições da ayahuasca”.

Isso ficou evidente a partir do momento em que se constituiu a primeira Mesa, na qual já ficou perceptível qual seria o tom geral do Evento. Nesse primeiro momento, já se verificou que não seria dada condição de amplo debate e participação dos indígenas, tanto dos palestrantes, como da plenária, e percebeu-se que seria este o tom geral da Conferência.

Assim sendo, vimos manifestar nossa insatisfação para com as questões a seguir:

A I Conferência Internacional, que aconteceu em Ibiza, na Espanha, não contou com a participação ampla dos povos indígenas que são os verdadeiros detentores desse conhecimento, posto que na mesma estiveram presentes apenas dois Huni Kui.
Não foi repassado aos povos indígenas nenhuma informação oficial das discussões realizadas nesta primeira Conferência, nem dos encaminhamentos procedidos na ocasião.
Acreditamos ser questionável o próprio nome dado ao evento, “Conferência da Ayahuasca”, uma vez que ele é genérico, e não contempla as diferentes designações dadas por cada povo. Note-se que, um nome, não é apenas “o nome”, uma vez que a ele estão atrelados conceitos simbólicos de suma importância cultural e espiritual para cada um dos povos que faz uso dessa bebida. E bom lembrar também que não estamos conferindo nada acordado anteriormente com qualquer povo indígena.
Ainda que este evento conte com maior número de participantes indígenas, não estamos nos sentindo realmente parte de sua criação e organização.
O formato das mesas também não nos contempla, uma vez que a duração dessas mesas não dá espaço para o debate necessário. Não houve tempo para os palestrantes expressar o que haviam se preparado para dizer, nem houve tempo para debater. Entendemos que o formato do evento é ‘acadêmico’, mas acreditamos que o evento deveria ter compreendido que a maior parte dos participantes não são oriundos do meio acadêmico, e, sequer o assunto da conferência é acadêmico, visto que a Ayahuasca não se restringe a um tema científico, mas fala de identidade, saber, ritual, sacralidade, cultura, vivências e práticas milenares. E entendemos que a Academia deveria considerar e contemplar essas especificidades, e não impor o seu formato.
Nós indígenas não fomos convidados a participar de muitas das mesas, a despeito do fato de que os temas debatidos eram de interesse dos indígenas.
As mesas estão acontecendo de maneira simultânea, o que impede a participação ampla das pessoas, que precisam escolher qual das palestras assistir.
Encaminhamentos

Por meio de um diálogo majoritariamente indígena, nós participantes desta Conferência não tomaremos nenhuma decisão relacionado aos assuntos abordados neste evento, sobretudo, aqueles de caráter mais relevante, sem antes de:

a) promover a realização de encontros indígenas em que se faça presente todos os detentores do conhecimento das plantas (cipó e a folha) com as quais se prepara a bebida sagrada que está sendo chamada de Ayahuasca, com a presença das instituições responsáveis e envolvidas na discussão de patrimonialização.


b) discutir melhor o assunto sobre patrimonialização, pois durante sua abordagem fragmentada ocorrida na conferência, não ficou claro para os povos indígenas o que significa isso na sua essência.


c) fazer um Grupo Técnico (GT) sob a coordenação e orientação dos indígenas para a realização de consultas em respeito aos detentores do conhecimento sobre a Ayahuasca e ao Decreto nº 5.051, de 19 de abril de 2004, que diz que o Brasil deve respeitar a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho – OIT, e consultar as comunidades indígenas antes das obras (prévia), da forma que as próprias comunidades escolherem para ser consultadas (livre) e ainda tem que levar todas as informações que existem sobre o empreendimento (informada).


d) constituir um conselho ético para discutir o assunto da origem e definir critérios sobre o uso e a patrimonialização da Ayahuasca, e a partir dessa perspectiva e entendimento, realizar reuniões com as igrejas e demais segmentos que utilizam essa bebida sagrada, diante disso, poderemos apresentar nossa posição sobre os assuntos.


e) Requeremos a garantia de participação dos povos indígenas dos demais estados brasileiros que fazem uso da bebida sagrada na discussão sobre a patrimonialização;


f) Requeremos, ainda, o direito de deliberação, participação e planejamento do que acontecerá nas próximas Conferências Mundiais da Ayahuasca, a partir da próxima que está previsto a realizar-se em Tóquio no Japão. Requeremos também a participação igualitária em todas as mesas de debate no âmbito do evento;


g) Requeremos, por fim, que as Conferências Mundiais da Ayahuasca e os órgãos públicos e privados que discutem o tema reconheçam as tradições de uso, de cura e de preparo dos líderes espirituais dos povos indígenas.


Por fim, reafirmamos que estamos dispostos a colaborar em todos os processos para os avanços das discussões para o uso e o Direito da consagração da bebida por toda a humanidade.

Rio Branco, Acre, 21 de outubro de 2016.

Congresso Internacional da Ayahuasca

A vinte e cinco anos atrás, na Universidade Federal do Acre, acontecia o I Congresso Internacional da Ayahuasca, sob a batuta do idealista professor Clodomir Monteiro. Em 1991, o Brasil era outro, não havia internet nem celular, a produção acadêmica de pesquisa sobre a Ayahuasca era muito incipiente, mas o Acre já se destacava por um esforço de documentação patrimonial dessa cultura popular no âmbito estadual, mesmo com poucos recursos, trabalho do qual fiz parte no Museu da Borracha e que resultou no atual processo de tombamento da Ayahuasca pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, possivelmente do Ofício de Feitor de Daime, o que representará um enorme progresso, assim como a abertura da Casa de Leôncio Gomes como centro de informação e pesquisa sobre o bairro Irineu Serra, no Alto Santo, em Rio Branco, que marca um novo tempo de cidadania cultural das comunidades ayahuasqueiras do Acre. A AyaConference de 2016 é a modernidade chegando a Rio Branco por iniciativa de uma organização não-governamental espanhola, a ICEERS, que já realizou uma primeira conferência internacional no centro turístico de Ibiza, no Mediterrâneo, e trouxe o projeto dessa nova conferência para a Amazônia brasileira, onde Rio Branco é o polo da cultura ayahuasqueira em maior evidência internacional, em especial nos últimos tempos pelas festividades rituais indígenas que têm sido levadas aos grandes centros urbanos do Brasil e do exterior. Assim como o etnoturismo nas aldeias, apesar de promessas da Funai e do setor cultural, ainda ser improvisado em acordos casuais, sem sustentabilidade assegurada no referente ao contrato social para as atividades turísticas nas aldeias, também é na base do improviso que a ayahuasca tem expandido-se no exterior, sendo que a maioria dos pajés viajam sem a garantia de um visto de trabalho e seguro de viagem para as apresentações artísticas que realizam, algumas vezes como menestréis dependendo de "arrecadação" pelos rituais que apresentam a título de valorizar sua cultura ancestral. Espera-se que a AyaConference sirva para a discussão dos aspectos concretos a serem considerados para a plena liberdade de expressão das culturas da Ayahuasca, dentre os quais a valorização dos pajés como artistas profissionais, e de sua etnoterapêutica como um tesouro a ser respeitado e não dilapidado por projetos individualistas que desconheçam a ética necessária aos convênios e acordos de intercâmbio, que devem beneficiar sempre o direito coletivo das comunidades ancestrais. A liberdade do uso da Ayahuasca está ancorada em legislação aprovada pelo Conselho Nacional Anti-Drogas, o CONAD, órgão do Ministério da Justiça. Ajustes às regras vigentes vêm sendo pleiteados continuamente ao longo dos anos, e será natural que voltem a ser debatidos, normal que se acentuem diferenças, assim como alianças e convênios surgirão certamente entre os diferentes grupos presentes na AyaConference. O importante será aproveitar a oportunidade para uma visão ampla sobre essa cultura tão complexa, em constante evolução, mas ciosa da necessidade de preservação de suas diferentes tradições, sejam elas complementares ou antagônicas, para a continuidade do esforço beneficente desses trabalhos de cunho espiritual. O resultado não poderá ficar apenas no papel: são muitas as lacunas a serem preenchidas para que a consciência das pessoas que se reúnem a esse fim esteja satisfeita, com certeza, mas as respostas surgem do próprio encontro dessas muitas vozes. Será uma chance e tanto, e as sementes aí lançadas, quem sabe, daqui a vinte e cinco anos possam estar verdejando uma nova mentalidade para as relações humanas em geral. A uma cultura tão viva, não se poderá calar: é tão amazônica que é universal! * Eduardo Bayer trabalhou na pesquisa da Cultura da Ayahuasca para a Fundação Elias Mansour, do Acre, de 1988 a 2014. Escritor e engenheiro florestal aposentado, vive atualmente em Santa Catarina.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

UM DIA ESPECIAL CHAMADO HOJE

UM DIA ESPECIAL CHAMADO HOJE

(Poemas Matutinos, Por Eduardo Carneiro)
Que neste dia tão especial,
Em que o sol apareceu a todos,
Com seu brilho sem igual,
O destino nos surpreenda:
Uma ligação tão desejada,
Um encontro ocasional,
Uma mensagem inesperada,
Um bom dia quase acidental,
Um convite de almoço,
Um beijo hiper sentimental
Um abraço apertado,
Uma voz doce quase transcendental,
Um pedido de namoro
Ou um poema como esse, coisas e tal.
VAMOS SER FELIZES HOJE?
Pois o romantismo ainda é fundamental!

Rio Branco, 19/10/2016
Eduardo A Carneiro

UM DIA ESPECIAL CHAMADO HOJE

UM DIA ESPECIAL CHAMADO HOJE

(Poemas Matutinos, Por Eduardo Carneiro)

Que neste dia tão especial,
Em que o sol apareceu a todos,
Com seu brilho sem igual,
O destino nos surpreenda:
Uma ligação tão desejada,
Um encontro ocasional,
Uma mensagem inesperada,
Um bom dia um tanto acidental,
Um convite de almoço,
Um beijo hiper sentimental
Um abraço apertado,
Uma voz doce quase transcendental,
Um pedido de namoro
Ou um poema como esse, coisas e tal.
VAMOS SER FELIZ HOJE?
Pois o romantismo ainda é fundamental!

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Escritos & Poemas de Renã Pontes, escritor e poeta acreano.

A LENDA DA PAXIÚBA: VERSÃO APÓCRIFA
      ______________________
      Por Renã Leite Correa Pontes*

 Há não muitas luas, após ser submetido, com vitória, a um ritual de combate, tornara-se guerreiro-emplumado e saiu em missão: vigiar a fronteira do Norte, ameaçada pelos "peles de pano". Foram dias e noites de fome, frio, privações e agruras enfrentadas com paciência e abnegação.

Durante uma incursão do inimigo, na defesa, foi transpassado na virilha, mas escapou com vida e trouxe, aos anciões da tribo, informações que em muito serviram para resguardar a soberania da comunidade. Os anciões, cumprindo um bom papel, responderam magnanimamente. Na ausência de um sistema de saúde pública, liberaram dez arcos do tesouro comunitário para cobrir as despesas do tratamento.

O que o guerreiro, forçosamente chegado de missão, não sabia, era que, na sua ausência, na calada da noite, a "assembleia de pretextos" decidira, por escrutínio secreto, ceder à "oligarquia dos apuís" o monopólio dos rituais dos xamãs e, ainda, as patentes da manipulação de toda a biodiversidade da floresta, além de deslocar, para bem longe, o hospital homeopático:

- Agora, também, doente nenhum tem mais direito a acompanhante!
Na busca do socorro, alheio aos perigos do caminho, o jovem ferido percorreu, desacompanhado, a distância que conduzia ao hospital dos espíritos benzedores das ervas, sem compreender, ainda, a plenitude do significado da intermediação da milenar cultura guardada pelos pajés.

Depois de uma demorada e desgastante caminhada, o guerreiro chegou ao seu destino. Para adentrar o setor médico, onde outrora trabalhou o próprio Muratutzalipoca, segundo a tradição da tribo, era obrigatória a pronúncia de certas palavras místicas, além da realização de algumas misuras, aos olhos leigos, para ser atendido.

Cumprido o ritual, o doente foi atendido, na triagem, por um sujeito cujo comportamento mais se assemelhava ao de um encarregado de barracão, vestido de auxiliar de curandeiro - o chefe da assistência social, que acumulava também a função do setor de tesouraria.

 - Foi há sete luas...
 - E o pagamento?
 - Para o pagamento, eu trago dez arcos do tesouro dos anciãos, para trocar pelo chá encarnado.
 - Deixe-me ver, então, o ferimento.
 - Hummm, ai.
 - Não é ferimento de morte para um colosso feito você. Isto vai curar com chá de unha de gato mesmo, tomado por dez dias... Mas, você só trouxe dez arcos. Por este material, só posso lhe fornecer chá para cinco dias.
 - Mas, o certo não é eu tomar os dez dias? Eu preciso me curar porque o meu posto está abandonado, meu trabalho espera por mim.
- Veja só amigo, como está se processando o atendimento aqui agora. Por dois arcos, aqui, damos chá para um dia. Você trouxe dez arcos. Faça as contas e verá como estou no justo.
Mas....
- Vamos fazer o seguinte, você volta e vai falar com os colarinhos-brancos, diga que os anciãos já fizeram a parte deles e que você necessita de mais dez arcos e conta a sua história, que eles já conhecem as regras. Você é um guerreiro valoroso, tem serviço prestado e valores para penhorar. Você sabe como fazer.
- Ah, não, eu não vou entrar nestes esquemas. O meu avô dizia: "Dê a morte a um homem que a necessite para continuar homem.". Estas pessoas nos dão as coisas, mas, em compensação, cobram, de volta, a nossa consciência. Eu sei que estes privilégios individuais prejudicam a tribo e produzem o mal de uns, em detrimento do bem-estar de poucos, constituindo-se na causa principal do sofrimento do nosso povo. Eu posso morrer muito feliz sem precisar passar por estas humilhações.
- A franqueza do jovem irritou o funcionário, porque soou como uma crítica ao canibalismo das raposas, dita diretamente à chefa da raposada.
O interlocutor, então, pigarreou e retrucou
- Ah, então o jeito é você tomar chá só por cinco dias, o resto seu corpo reage. Mas, o que te custa mesmo ir lá?
- Não! Definitivamente, eu não vou cometer nenhum ato contra a minha consciência, nem o meu sentido de decoro moral.
- Veja, não é por má vontade, meu bravo, mas assim você me deixa sem alternativa. Você entende? São as novas regras...
E, se eu te entregar também o meu arco pessoal, minhas flechas e os meus "cestus" [1]? Eu a nada mais de penhorável possuo. Este arco, inclusive, é espólio de guerra. Pertenceu a um antigo chefe tucandeira e tem um valor simbólico em meio a nossos bravos.
Bem, com o seu arco, as flechas e os "cestus", eu poderia te dar sete doses e meia.
E, o doente persistiu na justa argumentação, com um tom de voz carregado de uma humildade inaudita:
- Olha, onze arcos não são pouca coisa, considerando que os curumins da nova geração não mais têm demonstrado interesse na arte de fazer arcos. Nós estamos sob ataques constantes, nos quais perdemos armas e vidas. A cada dia está mais comprometida a nossa segurança.
- Saiba meu bravo, eu compreendo sua necessidade e reconheço o seu valor e dedicação. E, para provar o interesse desta casa na cura de um dos nossos benfeitores, te dou oito doses, mas a associação fica com todos os implementos que você carrega consigo. Estamos em trabalho de resgate da nossa reputação institucional e, não queremos que nossos beneficiários saiam daqui pensando que não nos esforçamos o máximo para prestar um bom serviço. Sei que me entende!
Foi aí, então, que a impaciência do jovem guerreiro aflorou, motivada pela impossibilidade de êxito, ou quem sabe, pelo estresse do ferimento
- Sabe, desde que cheguei aqui hoje, tenho percebido que o senhor não tem demonstrado nenhuma preocupação com a minha cura, mas apenas em lucrar com a minha doença. Olha, esta instituição não está me prestando nenhum favor, além das suas obrigações. Reconheça que fui ferido em combate para proteger nossa tribo. Isso inclui o senhor, sua família e até esta instituição comercial que o senhor chama de casa.
Quando o jovem guerreiro pronunciou as últimas palavras, por tratar-se de uma tremenda verdade, o ânimo do encarregado da tesouraria atingiu a estratosfera.
- Bem, nestes termos, vou lhe dizer também a minha opinião a respeito das suas reclamações. A sua relação com os anciãos da tribo... Você tem que entender que aqueles velhos atiram com a flecha dos outros, têm palavra de político. Eu admiro a sua sinceridade, mas, na verdade, penso que você não passa de um megalomaníaco. Não é por sua falta que deixaremos de estar protegidos. Ademais, aqui, nós reconhecemos você é como um crítico acerbo dos costumes desta casa. Reconheça, também, que, em meio a tantos bravos que temos em nossas hostes, você é apenas um número passivo de reprodução.

Novamente ferido, desta vez, na alma, sentindo-se acuado. Nem os sete idiomas que falava, com fluência, foram capazes de fornecer, ao índio, uma simples palavra que fosse. O sofrido guerreiro, aspirando a cura, entregou resignadamente ao atendente, em troca da possibilidade de cura, a materialidade e o impulso da sua defesa.

No longínquo retorno à aldeia, por falha do serviço de contraespionagem, os implementos ora penhorados fizeram falta na defensiva. Ferido, cansado e com sede, o guerreiro solitário parecia presa fácil dos "pés de couro". Por ser ingrediente valioso e exportável, arrebataram-lhe o chá.
Com movimentos difíceis, descoordenados, o guerreiro defendeu-se com as últimas forças: correu pela mata, perseguido por gente descansada, transpondo troncos e riachos; ainda matou dezenas e dezenas de perseguidores, mas eles eram muitos; se trepou em uma bacaba, mas ela era fina e instável; na queda, foi novamente ferido e agravou a ferida já existente, vertendo o restante da vida. Por fim, resistindo, subjugado, recebeu o golpe de misericórdia e entregou seu alento a Tupã.

            Porque o sumiço do guerreiro causara comoção entre seus pares, a diretoria do hospital homeopático desvirtuou a história e pulverizou a notícia de que, na condição de internado, o bravo havia deixado o hospital sem autorização do corpo médico.... Espalharam ainda outros boatos nada lisonjeiros que amiúde a história contada pelo vencedor inspira.
Passadas três luas, os queridos de Ágrafo conseguiram encontrá-lo, e logo, colheram-lhe o corpo e o plantaram, a sete palmos, em local transmontano, sem direito a pompas fúnebres, depois da floresta da grande gameleira, na margem de lá do rio, a casa de Tupã.

           Mas, a verdadeira história, em detalhes, foi registrada no Akasha[2], quando Tupã a leu, comoveu-se e chorou... Em seguida, ficou aborrecido e, além de vingar a morte do guerreiro, limpou-lhe o nome, lavou-lhe a honra e fez brotar, da sua tumba, a palmeira conhecida pelo nome de paxiúba. A planta logo passou a servir para tudo: da tábua para habitações à confecção de flechas... era imponente, rija, hidrófila e resistente as intempéries do tempo de estio. Tupã também a fez fértil e reproduziu-a aos milhares pela floresta.

E, assim, um nome foi lembrado, a história do vencido foi contada e recontada aos curumins das tribos e, com a ajuda do alto, o jovem guerreiro seguiu, através da natureza, protegendo e servindo seu povo.

[1 O "cestus indígena" consistia em uma luva de batalha, geralmente utilizada, durante os combates, para ferir o inimigo e proteger os punhos dos guerreiros indígenas antigos. Quando incrustada de ossos, bicos de aves, dentes de animais ou outros componentes da floresta, manifestava sua versão mais letal (N. do A.).
 [2] Suposto livro da vida ou dimensão onde a natureza mantém, de acordo com tradições antigas de diversas civilizações, em registro, todos os acontecimentos humanos. Termo do sânscrito que significa "céu", "espaço" ou "éter" (N do A.).

* Renã Leite Correa Pontes
É escritor e poeta; Membro da IWA, Toledo, Ohio, EUA; Presidente da Academia dos Poetas Acreanos e Titular da Cadeira 33 da AAL.







CAMONIANO
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Por Renã Leite Correa Pontes

O mundo segue seu curso confuso:
amigos têm prazo determinado!
por isso, as vezes, mesmo censurado,
fazer amigos poucas vezes uso,

porque  percebo que o amor difuso,
dadivoso, fraterno e consagrado,
tem sido torpemente profanado,
por toda sorte de peçonha e abuso.

Amigo que me torne a natureza,
mais afável e repleta de beleza,
existe... em meu poema, em minha prece.

não sou iconoclasta resolvido,
mas, por aquele amigo que hei perdido,
pagaria a fortuna que eu tivesse.