quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O nascimento do sentido: uma fundação sem origem certa

Por: Eduardo Carneiro. A essa aspiração tão comum, a instituição responde de modo irônico; pois que torna os começos solenes, cerca-os de um círculo de atenção e de silêncio, e lhe impõe formas ritualizadas, como para sinalizá-los à distância (FOUCAULT, 2007) O que se encontra no começo histórico das coisas não é a identidade ainda preservada da origem – é a discórdia entre as coisas, é o disparate (FOUCAULT, 2001).
Uma das grandes diferenças entre a Análise do Discurso e a lingüística tradicional é o fato dela não defender a imanência do sentido, ou seja, um significado primeiro, original, imaculado e fixo capaz de ser localizado no interior do significante. Pêcheux já dizia que “o sentido de uma palavra, expressão, proposição não existe em si mesmo, mas é determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio-histórico em que elas são produzidas” (apud BRANDÃO, 1993, p. 62). O que implica na inexistência de uma originalidade semântica no âmago de um signo.
A Análise do Discurso acredita na multiplicidade de sentidos, para ela todo signo é polissêmico. Tanto é que um único significante pode passar por inúmeros processos de significação. E, como afirma Barthes (1993, p. 136-141), o próprio signo pode transformar-se em simples significante de outro signo, em uma dada situação, e, igualmente, um mesmo significado pode ser encontrado em vários significantes. Portanto, o sentido possui um caráter movente. A respeito disso Gregolin (2001, p.10) afirma: Inserido na história e na memória, cada texto nasce de um permanente diálogo com outros textos; por isso, não havendo como encontrar a palavra fundadora, a origem, a fonte, os sujeitos só podem enxergar os sentidos no seu pleno vôo. A identidade do signo é uma aparência facilmente desmascarada. Por trás do significado dicionarizado há uma rede de discursos e de poderes que promoveu a construção da monossemia, que é histórica e ideologicamente naturalizada. Mas as margens que limitam o significado são porosas, o que permite o deslizamento, o fazer-se outro, o estar sempre incompleto. O que se quer dizer com tudo isso é que é impossível encontrar a origem pontual do sentido, bem como sua essência constituinte, pois ambas não existem. E mesmo que existissem, não seria possível vislumbrá-las tanto devido à opacidade da linguagem, que impede a visualização lúcida de seu interior, quanto ao olhar do sujeito observador, que é constitutivamente oblíquo por conta da ideologia.
É por isso que a Análise do Discurso fala em efeito de sentido. O próprio discurso é considerado como um efeito de sentido entre interlocutores. Assim, é inútil procurar a origem do sentido ou do discurso, pois ir ao encontro de uma suposta genealogia deles é o mesmo que ir ao encontro da matriz discursiva que a fundou. Foucault (2001, p. 17-18) explica que: A pesquisa, nesse sentido, se esforça para recolher nela (a origem) a essência exata da coisa, sua mais pura possibilidade, sua identidade cuidadosamente recolhida em si mesma, sua forma imóvel e anterior a tudo o que é externo, acidental, sucessivo. Procurar uma tal origem é tentar reencontrar o que lhe era imediatamente [...] é querer tirar todas as máscaras para desvelar, enfim, uma identidade primeira [...] De fato, ela é apenas uma invenção das classes dominantes. O que se encontra no começo histórico das coisas não é a identidade ainda preservada da origem - é a discórdia entre as coisas, é o disparate. A história ensina também a rir das solenidades da origem. A alta origem é o exagero metafísico que reaparece na concepção de que no começo de todas as coisas se encontra o que há de mais precioso e de mais essencial [...] gosta-se de acreditar que as coisas em seu início se encontravam em estado de perfeição; que elas saíram brilhantes das mãos do criador, ou na luz sem sombra da primeira manhã. A origem está sempre antes da queda, antes do corpo, antes do mundo e do tempo; ela está do lado dos deuses, e para narrá-la se canta sempre uma teogonia. Foucault foi contra a busca da origem, seja em qualquer área do conhecimento. Segundo ele, era preciso ser um metafísico para “procurar uma alma na identidade longínqua da origem” (2001, p. 20). Devido à polissemia do signo, a sua história é descontínua, portanto, sem referência ou coordenada originária, uma verdadeira “miríade de acontecimentos perdidos” (idem, p. 29).
Então, em que consiste o trabalho do analista do discurso nessa discussão da origem do sentido/discurso? O analista desmascara o mito da origem. Ele vai ao encontro do que dizem ser o arché do sentido ou do discurso, para revelar a maneira como foi construído, as condições que possibilitaram a sua emergência no universo discursivo. É fazer desaparecer e reaparecer as contradições, é esfumaçar o núcleo constituinte que dizem ser o portador da verdade semântica. As condições de emergência: pistas em um labirinto sem fim
O discurso é sempre relacionado às suas condições de produção (ROBIN, 1977)
A busca da origem é um tema vencido para a Análise do Discurso. Como já foi visto, é impossível chegar ao momento fundador do discurso. A heterogeneidade constitutiva do discurso remete a origem para o infinito sem fim das relações interdiscursivas.
Apesar da impossibilidade de encontrar o grau zero do discurso, o analista pode descrever as condições que possibilitaram o aparecimento da lei discursiva que o regrou, uma vez que, o “discurso é geralmente definido como um enunciado emitido sob condições ou produção definidas(COURTINE, 2006, p. 65)”. E essa é a grande tarefa da Análise do Discurso, pois Paveau (2006, p. 202) a define como “a disciplina que estuda as produções verbais no interior de suas condições sociais de produção” [grifo nosso].
Portanto, é possível compreender uma fundação através das condições de sua emergência. E tais condições, segundo Orlandi (2005, p.30), compreendem “fundamentalmente os sujeitos e a situação. Também a memória faz parte da produção do discurso”.
Encontrar as regras que geram o aparecimento de um discurso é determinar as condições sócio-históricas que permitiram que tal discurso fosse pronunciado, circulado e arquivado. O arquivo representa a lei que regra o que pode e deve ser dito num dado lugar, numa dada época, ou seja, o “jogo de regras que, numa cultura, determinam o aparecimento e o desaparecimento de enunciados, sua permanência e seu apagamento, sua existência paradoxal de acontecimentos e de coisas” (FOUCAULT, 2005, p.147). O tipo de unidade discursiva procurada não é nem formal nem retorça; não residindo nem nas coisas, nem nas palavras, nem na forma e na retórica; esse tipo também não reside no recorte do universo científico ou pseudocientífico em disciplinas, tampouco na figura do tema ou na do autor. Esse objeto não é constituído pelo discurso, mas pelas condições de possibilidade dos discursos, o campo problemático que lhes assinala um certo modo de existência e que faz com que, em determinada época, em determinado lugar, não se diga, não se diga absolutamente qualquer coisa (ROBIN, 1977, p. 93). O arquivo dá aos textos dispersos uma pseudo-unidade-identidade. Cabe ao analista descrever a regularidade que atravessa esses textos dispersos. Essa regularidade é que sustenta a fugaz estabilização do sentido e quem fornece as pistas para explicar os motivos da pobreza ou raridade enunciativa. Como explica Machado (1981, p. 162): Assim, será preciso definir, na análise dos discursos, um campo de possibilidades temáticas, a regra de formação dos temas possíveis. Os discursos, portanto, não têm princípios de unidade. E daí surge a idéia de analisá-los como uma pura dispersão. A dita unidade de um discurso, com uma ciência, por exemplo, unidade essa procurada ao nível do objeto, do tipo de enunciação, dos conceitos básicos e dos temas, é na realidade uma dispersão de elementos. É por isso que o discurso deve ser analisado enquanto prática do elemento do arquivo, pois, quando é produzido, automaticamente já se filia a uma rede tecida por outros discursos com semelhantes escolhas e exclusões: Uma rede, e pensemos numa rede mais simples, como a de pesca, é composta de fios, de nós e de furos. Os fios que se encontram e se sustentam nos nós são tão relevantes para o processo de fazer sentido, como os furos, por onde a falta, a falha se deixam escolar. Se não houvesse furos, estaríamos confrontados com a completude do dizer, não havendo espaço para novos e outros sentidos se formarem. A rede, como um sistema, é um todo organizado, mas não fechado, por que tem os furos, e não estável, por que os sentidos podem passar e chegar por essas brechas a cada momento. Diríamos que o discurso seria uma rede e como tal representaria o todo; só que esse todo comporta em si o não-todo, esse sistema abre lugar para o não sistêmico, o não representável (FERREIRA. In: INDURSKY, 2005, p. 20). O aparecimento do discurso é regulado porque há conscientemente ou não o desejo de apresentar à posteridade uma imagem positiva de si. E isso acontece através da repetição do sentido por meio de uma rede parafrástica, que indica qual a ordem do discurso vigente. A repetição forja uma identidade ao discurso, porém a unidade não passa de um efeito de sentido tecido pelo próprio discurso: Foucault (1969) concebe os discursos como uma dispersão, isto é, como sendo formados por elementos que não estão ligados por nenhum princípio de unidade. Cabe à análise do discurso descrever essa dispersão, buscando o estabelecimento de regras capazes de reger a formação dos discursos. Tais regras, chamadas por Foucault de regras de formação, possibilitam a determinação dos elementos que compõem o discurso, a saber: os objetos que aparecem, coexistem e se transformam num espaço comum discursivo; os diferentes tipos de enunciação que podem permear o discurso; os conceitos em suas formas de aparecimento e transformação em um campo discursivo, relacionados em um sistema comum (BRANDÃO, 1993, p. 28). E a grande pergunta que se faz é: por que apareceu nessa situação esse discurso e não outro em seu lugar? A resposta mostra o vínculo que o discurso mantém com o desejo e com o poder, pois em todas as sociedades, como supõe Foucault (2007, p. 9): “a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certos números de procedimentos que tem por função conjurar seus poderes e perigos”. Por esse motivo, esse filósofo propõe como deve ocorrer a análise do campo discursivo: Trata-se de compreender o enunciado na estreiteza e singularidade de sua situação; de determinar as condições de sua existência, de fixar seus limites da forma mais justa, de estabelecer suas correlações com outros enunciados a que pode estar ligado, de mostrar que outras formas de enunciação exclui. Não se busca, sob o que está manifesto, a conversa semi-silenciosa de um outro discurso: deve-se mostrar por que não poderia ser outro, como exclui qualquer outro, como ocupa, no meio dos outros e relacionados a ele, um lugar que nenhum outro poderia ocupar (FOUCAULT, 2005, p. 31) [grifos nossos].

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