quarta-feira, 6 de agosto de 2008

“Centenário de morte de Plácido de Castro”:uma análise discursiva do convite do Governo do Estado do Acre.

Não faltam assuntos, nem cores, para fazer epopéias. O pintor que procuramos será aquele capaz de extrair da vida de hoje sua qualidade épica, fazendo-nos sentir como somos grandiosos e poéticos em nossas gravatas e em nossas botas de couro legítimo. No próximo ano, esperemos que os verdadeiros pesquisadores nos contemplem com a extra-ordinária delícia de celebrar o advento do novo (Baudelaire apud BERMAN, 2007, p.171-172).
A materialidade discursiva que o Governo do Estado produziu para convidar os ilustres cidadãos acreanos a participarem da programação alusiva ao Centenário de Morte de Plácido de Castro merece algumas reflexões.
Por que o Estado se preocuparia em celebrar a morte? Não seria a vida um motivo melhor? Mas nesse caso a morte é só um pretexto para manter vivo algo que nem se quer teve existência biológica. Falo da discursividade chamada “herói Plácido de Castro”.
O Plácido de Castro mencionado no convite governamental não é aquele sujeito histórico de mesmo nome que veio para a Amazônia em busca de riqueza fácil em fins do século XIX. Aquele do convite não passa de uma rede de discursos que se entrecruzam num mesmo ponto nodal: a da vontade de potência de seus interlocutores.
A paisagem enunciativa chamada “herói Plácido de Castro” é a imagem deseja que o discurso produziu daquela personalidade real que amaldiçoou a terra que o vira morrer, negando a ela o sepultamento de seu corpo. As comemorações promovem um “eterno retorno” a esse sítio de significância, que ganha status de verdade pela repetição. Mas a “a verdade não existe fora do poder”, já dizia Foucault.
O Estado não faz um convite à reflexão. Ele promove a festa e apela para que a desrazão bata palma. Veja-se que o Plácido de Castro do discurso está qualificado como “herói do Acre e do Brasil”. O legado deixado por ele foi nada menos que “um povo e sua identidade: o Acre e os acreanos”.
Aquilo que seria impossível ao Plácido de Castro real, o imaginado fez. Primeiro por que nenhuma concepção sociológica admitiria que um povo surgisse assim, como num passe de mágica. Segundo, por que a própria concepção de “povo” enquanto coletividade que partilha algo em comum vem sendo duramente criticada. Terceiro, que “a identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia” (Stuart Halls, 2004).
O herói do discurso foi forjado na “revolução acreana” - nome bonito para um conflito armado. Uma guerra não gera heróis e sim mortos. É nela que os mais mesquinhos apetites humanos são expostos à consagração da história, que a tudo dá uma justificativa nobre. A violência vira espetáculo de patriotismo e os assassinatos, cenas de heroísmo.
Mas o herói não pode ser aquele que mata, pois não há nobreza nenhuma nisso. O Herói deve ser aquele que resolve conflitos respeitando a vida. A bravura deve estar nos gestos de tolerância e não nos de eliminação do outro. No amor e não no ódio, na vida e não na morte, no altruísmo e não na xenofobia, no amor e não na violência. Na guerra não há heróis, nela todos se tornam estúpidos, insanos e bárbaros. Aliás, ela é a própria barbárie.
No capitalismo, a guerra sempre acontece em defesa dos interesses econômicos das elites. Na “questão acreana”, não foi diferente, as virtudes heróicas foram manifestadas para realizar façanhas de natureza egoísta.
Além do mais, o “legado” de Plácido de Castro representou o genocídio de centenas de indígenas que milenarmente ocupavam o território no qual o Acre, ente político-administrativo, abocanhou para fixar suas fronteiras. O que para o homem branco tipificado em Plácido de Castro foi uma vitória, para os nativos, representou a extinção de dezenas de tribos e a “evaporação” de todo patrimônio histórico deles.
Qual a necessidade de tantas comemorações? O Estado consagra o herói, para se identificar com ele. Promove a glorificação do passado para nele se filiar, herdando com isso suas pompas. Ao participar do cerimonial, a população adentra no mundo mítico das origens se fazendo uma com ela. O passado "fantástico" transfere ao presente toda sua força, áurea e glamour, legitimando a ordem social vigente. O objetivo de tudo é convencer a sociedade de que o triunfo de outrora pode ser revivido no presente caso ela se deixe conduzir como nos “tempos heróicos”.
A quem interessa os heróis? Como dizia o dramaturgo Bertolt Brecht “infeliz o povo que precisa de heróis”. Nós não precisamos deles, o Estado é quem quer criar tal necessidade no povo, já que ninguém trairia um herói, muito menos aqueles que se dizem herdeiros dele. A passividade e a admiração dos cidadãos acreanos são tudo que se almeja. Paulo Miceli (1994) afirma que “numa sociedade de covardes, a evocação ao heroísmo se torna uma necessidade social”. Já Flávio Kothe (1995) diz que “quando mais fraco os homens numa sociedade, tanto mais eles precisam de super-heróis. E tanto mais super-heróis eles recebem para se manterem fracos”.
O convite foi lançado, comemoremos a morte do herói! Sim, enterremos o herói de vez. Coloquemos um ponto final em nossa covardia e fraqueza. Na imagem do convite o herói aparece só. Ele não precisou do povo para realizar o intento. Não aceitemos essa estória, nós somos quem fazemos a história, não deleguemos ao arquétipo tal tarefa. Morte ao herói, vida a nós!
Eduardo Araújo em reflexões inconclusas...

Um comentário:

Isaac Melo disse...

Caro Eduardo,
Além de relista a sua análise, não deixa de ser coerente. Infelizmente ou não, essa questão de heróis é algo histórico no Brasil, vem desde o seu "achamento". Mas é uma faca de dois gumes também, se por um lado não precisaríamos deles, por outro foram necessários, quer queira quer não. Talvez o que esteja em jogo seja uma questão ideológica, os governos necessitam desses "arquétipos" para perpetuar suas concepções e no final das contas nos manter conformados, e venerando aqueles que se tornaram heróis a custa do sangue de outros, no caso os seringueiros. Que aliás, onde eles ficaram nessa história? Não se trata de negar o valor de Plácido, mas colocar cada um no seu devido lugar.

Fraternalmente,
Isaac Melo