domingo, 10 de agosto de 2008

Depois da Revolução, a autonomia (a vida) perdida.

Por Marcos Vinícius. Fonte: http://www2.uol.com.br/pagina20/10082008/historia.htm
Mapa elaborado por Plácido de Castro em 1907 onde consta o varadouro que ligava a Villa Rio Branco ao Seringal Capatará, no qual aparece o local onde, um ano depois, ele sofreria a emboscada (no mapa assinalado por uma seta negra), bem como o local de seu falecimento (assinalado por uma seta branca)
Os anos de 1904 a 1912 foram, talvez, os anos mais decisivos da história do Acre. Ainda mais importantes do que o próprio período revolucionário, já que até esse momento se buscara apenas definir o status do Acre como espaço brasileiro, no que os brasileiros do Acre foram bem sucedidos. Já nos anos posteriores à Revolução, ainda em pleno período da opulência da borracha, o governo brasileiro definiu o (triste) caminho que o Acre deveria trilhar ao longo de todo o século XX. E a trajetória pessoal de Plácido, que durou apenas a metade deste período tão importante, até 1908, é reveladora e emblemática da tragédia que abateria o Acre daí por diante.
Após o término da Revolução Acreana parecia ser chegada a hora de colher os frutos da conquista que custara tantas vidas e sacrifícios. Com a assinatura do Tratado de Petrópolis, em 17 de novembro de 1903, estava resolvida a questão das terras dos vales dos rios Acre e Iaco. Plácido de Castro fez questão, então, de ir pessoalmente ao Rio de Janeiro, em março de 1904, entregar em mãos de Rio Branco o seu relatório acerca do período de conflito armado. Durante toda a viagem Plácido foi homenageado nas cidades por onde passou, especialmente em Manaus e Belém. Os jornalistas e historiadores que trataram desse assunto descreveram como apoteótica sua chegada ao Rio de Janeiro onde foi recebido ainda a bordo do navio pelo próprio Barão do Rio Branco.
Depois das homenagens na capital da Republica, seguiu ao Rio Grande do Sul para rever a mãe que ficara em sua cidade natal, São Gabriel. Já de retorno ao Rio de Janeiro recusou o oferecimento da patente de coronel da Guarda Nacional que lhe foi feita pelo governo federal, pois julgava ofensiva esta honraria que era comumente feita aos compadres políticos do poder oficial. Finalmente retornou ao Acre onde lhe acenava a expectativa de realizar sua independência financeira.
Com efeito, mais uma vez a ascensão de Plácido de Castro foi rápida. Logo se tornou proprietário do Seringal Capatará, comprado a crédito, onde implantou um sistema diferenciado da maioria dos seringalistas. Baseava sua atuação em uma rígida disciplina de trabalho e obrigava seus fregueses a ter suas próprias plantações de gêneros alimentícios. Em um gesto audaz, entrou no território boliviano para requisitar a posse legal de terras devolutas da Bolívia. Com o sucesso obtido nessa empreitada, rapidamente se tornou um grande latifundiário que sonhava em implantar sistemas mais racionais de exploração de suas terras.
Um de seus mais grandiosos planos era o de estabelecer a criação permanente de bois e muares nas pastagens naturais de algumas localidades acreanas e bolivianas, ramo de grande potencial econômico e origem da riqueza dos proprietários dos campos da Volta da Empreza. Não era outro o motivo de sua preferência pelo seringal Capatará que, além de possuir campos para gado, possuía um varadouro que o ligava à rota do comércio do gado boliviano, motivo de intensas disputas desde o período revolucionário e assunto que já foi em parte tratado em artigos anteriores desta coluna quando abordamos a questão dos campos naturais do Acre e sua relação com os sítios arqueológicos com estruturas de terras.
Todo esse processo culminou com a compra - segundo Genesco de Castro, também a crédito - do grande seringal Bagaço, de seu amigo Basílio Gomes de Lira, consolidando assim a fortuna de Plácido, que se tornou motivo para acusações diversas por parte de seus inimigos. Nesta época a vida no Território Federal do Acre estava sujeita às oscilações e autoritarismo político que caracterizaram os primeiros anos após sua anexação ao Brasil.
Plácido de Castro se veria então envolvido nas discussões sobre os abusos cometidos pelo governo federal que passou a cobrar um imposto escorchante sobre a exportação da borracha e a importação de outras mercadorias. Impostos tão altos que, segundo Craveiro Costa, após cinco anos apenas, o governo já havia recuperado todo o capital utilizado para pagar a indenização à Bolívia e ao Bolivian Syndicate, sem, entretanto, investir no desenvolvimento do Acre, como todos esperavam que fosse feito.
Convocado a participar de uma reunião realizada no seringal Bagé, Plácido se opôs a qualquer movimento armado contrário ao governo brasileiro, limitando-se a negar veementemente a possibilidade de anexação do Acre ao Amazonas e a reivindicar a autonomia acreana através de sua elevação à condição de estado autônomo da federação, como todos os demais estados. Ainda assim não lhe faltaram acusações de estar tramando uma revolta contra o governo federal.
Já entre os anos 1906 e 1907, durante oito meses, Plácido exerceu o cargo de Prefeito Interino do Departamento do Alto Acre, em circunstâncias pouco claras, já que sucedeu sem maiores explicações o Coronel João Rola, seu amigo pessoal, que era quem, por direito de nomeação, deveria ter ocupado o posto interinamente até a chegada de um novo preposto nomeado pelo governo brasileiro.
Ao findar sua interinidade, Plácido remeteu relatório ao Ministro da Justiça brasileiro, onde aparece de forma muito clara e inequívoca um extenso rol de acusações contra a forma vil que o governo federal, através de seus governantes nomeados, estava (des)tratando o Acre. Após nova viagem ao sul, retornou ao Acre onde retomou suas atividades de seringalista até a chegada do novo Prefeito Departamental do Alto Acre nomeado, o Dr. Gabino Besouro, Coronel da arma de engenharia do exército brasileiro, que seria personagem central no desfecho da trajetória do ex-comandante revolucionário.
Na verdade, os acontecimentos que levaram aos desentendimentos entre Gabino Besouro e Plácido de Castro constituem outro capitulo pouco esclarecido dessa conturbada história. A hipótese de alguns historiadores é que tudo se deveu a intrigas forjadas pelos inimigos de Plácido que levaram o novo Prefeito a se predispor contra ele. O mais provável, entretanto é que a própria disputa política regional que marcou o período e que ainda foi muito pouco estudada por pesquisadores tenha sido o principal motivador das disputas e confrontos que se sucederam. Segundo a historiografia tradicional, um dos homens fortes de Gabino Besouro, o Cel Alexandrino - que havia lutado ao lado de Plácido de Castro durante a revolução - assumiu uma postura de confronto direto com Plácido. E é importante ressaltar que neste ponto a oralidade e a memória local divergem das fontes escritas.
O Cel. Alexandrino José da Silva, agora subdelegado nomeado pelo Prefeito, havia ficado famoso durante a revolução como um homem muito valente e cruel, e só pôde ser controlado com muito esforço pelo comandante-em-chefe do exército acreano. Ainda segundo as fontes da história oficial, Alexandrino, por obscuros motivos, começou a esbravejar pela cidade de Rio Branco que mataria Plácido de Castro na primeira oportunidade.
Independente das controvérsias sobre a autoria física do crime, o fato é que, no dia 9 de agosto, ao retornar da Villa Rio Branco para o Seringal Capatará, Plácido acompanhado por seu irmão Genesco, seus amigos José Alves Maia e Barros Campelo e o empregado Chico Acreano, sofreu uma emboscada às margens do Igarapé Distração, próximo ao seringal “Flor de Ouro”, de propriedade do mesmo Subdelegado Alexandrino José da Silva. No ataque de surpresa, Plácido recebeu dois tiros à queima roupa, um dos quais lhe perfurou o pulmão esquerdo. Levado de rede ao seringal Benfica de seu amigo Cel. João Rola, agonizou durante dois dias, e no dia 11 de agosto de 1908 deixou a vida nas terras que ajudou a conquistar.
A partir de sua morte, Plácido de Castro se tornou um símbolo, um mártir, um herói de dimensões desproporcionais aos padrões da vida humana comum. Na prática, por motivos diversos, o crime prescreveu sem que ninguém fosse punido. E neste sentido, Plácido de Castro foi apenas o primeiro de uma longa e trágica tradição de mortes anunciadas que marcou profunda e tristemente a história do Acre.
Matéria publicada na coluna MIOLO DE POTE, no jornal Página 20, no dia 10 de agosto de 2008.

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