domingo, 20 de setembro de 2009

Do Acre aos Andes (XI)

Fonte:http://www.pagina20.com.br/index.php?option=com_content&task=blogcategory&id=19&Itemid=24 Marcos Vinícius Neves mvneves@riobranco.ac.gov.br 30-Ago-2009 Depois da extraordinária experiência da rebelião liderada por Juan Santos Atahualpa e de um século inteiro de paz e autonomia para os povos indígenas do Antisuyu, o século dezenove traz uma nova e terrível ameaça: o ciclo da borracha. Uma história relativamente familiar para os acreanos. Breve história dos Ashaninka – filhos do Sol e da Floresta (V) Em 1848 o Presidente da Republica do Peru, Dom Ramon de Castilla, pensa poder encontrar na região da selva uma solução para a falta de trabalhadores da região costeira do Peru. Os padres franciscanos são então encarregados de diagnosticar o potencial dos recursos humanos entre os Campa. Mas, mais uma vez, os índios do rio Perene, como ocorreu durante os últimos cem anos, detém a expedição e a obrigam a retroceder. Apesar deste insucesso inicial, este período marcou a retomada do interesse peruano pela ocupação e exploração da região de selva da montaña. Cabe, então, ao Prefeito do Departamento de Junin coordenar as ações de retomada dos territórios perdidos durante o período de Juan Santos Atahualpa. Uma ação marcada pela violência, pela fundação de fortificações, pelo seqüestro de mulheres e jovens e pelo estimulo à migração de estrangeiros que quisessem se estabelecer nesta região. Este período, portanto, ficou marcado pelo abandono das idéias de cristianização dos índios e pelo forte militarismo do governo peruano que realiza sucessivas expedições armadas à selva, onde tem que enfrentar a forte resistência dos “Chunchos” (outro nome utilizado para os Campas ou povos Antis). Uma nova expedição realizada em 1876 consegue chegar até o Cerro de la Sal e reabrir a via dos rios Perene e Tambo para a expansão dos não-indios. E vale ressaltar que esta expedição ao chegar ao Gran Pajonal, centro cultural e político a partir do qual Juan Santos Atahualpa havia deflagrado sua vitoriosa rebelião, se deparou com noticias de uma grande reunião anual dos Antis neste local para celebrar rituais em memória de Juan Santos, revelando que a lembrança do “messias” estava viva e que provavelmente os Campa aguardavam seu retorno a qualquer momento. (Varese, 1973) Entretanto, o final do século, irá assistir a chegada de uma nova ameaça à integridade sócio-cultural e ao domínio territorial dos Antis sobre a região da “selva” peruana. Tratava-se do ciclo da borracha que atingiu toda a Amazônia com uma força e uma velocidade assustadoras. Com isso dezenas de aventureiros de poucos escrúpulos se espalharam pela vasta região de Iquitos, Gran Pajonal, Ucayali, Manu ou por onde quer que houvesse arvores de caucho e seringa. E desta vez as estratégias utilizadas para implantar um regime de dominação das populações nativas foram ainda mais sofisticadas e diversificadas. Além do aprisionamento de jovens escravos indígenas e da morte de seus líderes e de mulheres e homens mais maduros ou idosos que apresentavam maior resistência aos invasores, uma nova estratégia se revelou extremamente bem sucedida: estimular as tradicionais rivalidades tribais. Assim, bastava entregar aos Cunibo certa quantidade de rifles Winchester que deveriam ser pagos com escravos Campa. Logo a seguir se entregavam aos Campa outros winchester que deveriam ser pagos com escravos Cunibo ou Amuesha. Tinha início assim um longo período de quarenta anos, durante os quais as “correrias” espalharam violências e horrores de toda sorte entre as populações indígenas da floresta. Se calcula, por exemplo, que só na primeira década do século XX, quarenta mil índios Witoto foram exterminados pelos trabalhos forçados a que foram submetidos. Por toda a selva personagens como Araña em Iquitos e Fitzcarrald no Ucayali e no Madre de Dios, enriqueceram rapidamente às custas de milhares de vidas indígenas enquanto a revolução industrial em curso na Europa e Estados Unidos exigia mais e mais borracha extraída da Amazônia para alimentar sua produção incessante e crescente. Nada muito distinto do que, no mesmo período, estava acontecendo nas florestas acreanas. E também de forma muito semelhante aos acontecimentos registrados no Brasil, rapidamente o caucho assume papel estratégico nas rendas do governo peruano. Em 1910 calcula-se que cerca de um quinto de todas as exportações do Peru se devem à borracha do caucho e da seringa. Entretanto, tão repentinamente quanto havia começado, o ciclo da borracha acabou diante da produção sistemática de borracha nas plantações inglesas e holandesas do Sudoeste Asiático, que derrubou definitivamente o preço da borracha no mercado internacional. Mas para os povos indígenas da floresta amazônica o preço pago durante o “ciclo do ouro negro” foi demasiadamente alto uma vez que tribos e etnias inteiras desapareceram ou foram reduzidas à pálidas sombras do que haviam sido. Neste sentido, os Campas se constituem em uma quase-exceção na medida em que, de uma ou outra forma, haviam conseguido resistir e sobreviver, mesmo sabendo que daí por diante a montaña e a floresta nunca mais voltariam a ser as mesmas.

BRANDÃO, Helena. Introdução à Análise do discurso. Unicamp, 1995.

“O discurso materializa o contato entre o ideológico e o lingüístico”. “O discurso representa no interior da língua, os efeitos das contradições ideológicas”. “O ideológico reside no interstício entre a coisa e sua representação significa”. Bakhtin – a palavra é o signo ideológico por excelência, caracterizada pela plurivalência. “Dialógica por natureza, a palavra se transforma em arena de luta, vozes situadas em diferentes posições querem ser ouvidas por outras”. “A linguagem é o lugar onde a ideologia se manifesta concretamente”. SEMIOLOGIA – caráter ideológico do signo, disciplina que estuda o sentido. “A linguagem é lugar de conflito, de confronto ideológico”. “Há uma relação necessária entre o dizer e as condições de produção desse mesmo dizer”. A.D. – é o estudo lingüístico das condições de produção de um enunciado. Ideologia em Marx: conceito negativo. Instrumento de dominação de classe. As idéias de uma classe passam a ser as idéias de toda coletividade. É uma visão ilusória da realidade. Althusser – A classe dominante para manter sua dominação e hegemonia, gera mecanismos de perpetuação de poder. Reproduz as condições materiais, ideológicas e políticas. Através dos aparelhos repressores e ideológicos, a classe dominante submete seus subordinados ao sistema de exploração. “O homem produz formas simbólicas de representação da sua relação com a realidade concreta”. “A ideologia perpetua um ato fundador inicial, converte-o em credo. Perpetua a energia inicial para além do período de efervescência”. “A ideologia impulsiona a prática social. A práxis é movida pelo desejo de demonstrar que o grupo que a professa tem razão de ser o que é”. “A ideologia nos faz tomar a imagem pelo real, o reflexo pelo original”. “O signo tem um caráter arbitrário, possibilita novos sentidos no tempo”. “A regularidade é atingida pela análise dos enunciados que constituem a formação discursiva” DISCURSO – é o conjunto de enunciado que se remetem a uma mesma formação discursiva. É um conjunto de enunciados que tem seus princípios de regularidade em uma mesma formação discursiva. A análise da formação discursiva consistirá na descrição dos enunciados que a compõem”. DISPERSÃO – várias posições do sujeito no discurso. ENUNCIADO – quando alguém emite um conjunto de signos. “Uma frase em diferentes contextos jamais representa o mesmo enunciado, pois cada espaço possui uma função enunciativa diferente”. A geração do discurso é controlada. O discurso é o espaço em que os saberes se articulam. Quem fala, fala de algum lugar, a partir de um direito reconhecido institucionalmente. A.D. Utiliza: Materialismo Histórico como a teoria das formações sociais e suas transformações. Lingüística – como teoria dos mecanismos sintáticos e dos processos de enunciação. Teoria do discurso – como teoria da determinação histórica do processo semântico. Psicanálise – Teoria da subjetividade. A A.D. não analisa os indivíduos, mas os lugares de onde falam. Na reprodução das relações de produção, a instância ideológica funciona como interpelação do sujeito: faz com que cada indivíduo seja levado a ocupar seu lugar, muitas vezes, inconscientemente. Os discursos são governados pelas formações ideológicas. “São as formações discursivas que, em uma formação ideológica específica e levando em conta uma relação e classe, determinam o que pode e deve ser dito, a partir de uma posição dada e em uma conjuntura dada”. PARÁFRASE: é um espaço em que enunciados são retomados e reformulados num esforço constante de fechamento de suas fronteiras em busca da preservação de sua identidade. POLISSEMIA: rompe as fronteiras, embaralhando os limites entre diferentes formações discursivas. Instala a pluralidade e a multiplicidade dos sentidos. “Embora a formação discursiva homogeneíze o discurso, os efeitos das contradições de classe são recuperáveis no interior do discurso”. “Na materialidade dos discursos estão as marcas das contradições ideológicas”. “Analisar os discursos é descrever os sistemas de dispersão dos enunciados que o compõe”. “Dispersão semelhantes, equivalem a formações discursivas iguais”. ENUNCIAÇÃO – é o processo de apropriação da língua para dizer algo. “A subjetividade é inerente a toda linguagem” “Sua fala é um recorte das representações de um tempo histórico e de um espaço social... em sua fala outras vozes também falam” p. 49 Bakhtin critica Saussure por tratar a língua como um sistema monológico. “Constituindo-se do já-dito, o discurso é determinado ao mesmo tempo pela réplica ainda não dita, mas que já está sendo solicitada e já é prevista” Bakthin. “O discurso articula-se com o seu avesso ou revesso. Não se reduz a um dizer explícito, pois é permanentemente atravessado pelo seu avesso” p. 54 “O sentido não é dado a priori, mas construídos no discurso”. Pêcheux: “O sentido de uma palavra, expressão, proposição não existe em si mesmo, mas é determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio-histórico em que elas são produzidas” p. 62 O discurso é a dispersão de textos. Texto é a dispersão do sujeito. O discurso pode está atravessa por várias formações discursivas, todas submetidas a relações de dominância. AUTOR – é a função social que o eu assume enquanto produto da linguagem. Não há discurso monológico, toda palavra é dialógica, portanto, fingem a monologia. INTERDISCURSO – espaço de troca entre vários discursos convenientemente escolhidos. O estudo de um discurso se faz colocando-o em relação com outros discursos. UNIVERSO DISCURSIVO – é constituído pelo conjunto de formações discursivas de todos os tipos que interagem numa dada conjuntura. CAMPO DISCURSIVO – conjunto de formações discursivas que encontram em concorrência, se delimitam reciprocamente em uma região determinada do universo discursivo, ex: campo político, filosófico, gramatical etc. (P. 73) ESPAÇOS DISCURSIVOS – são recortes discursivos que o analista isola no interior de um capo discursivo tendo em vista a análise. Produz-se o discurso para o outro. O outro deve ser percebido no texto, mesmo ausente e silenciado. Pois é a parte do sentido que foi preciso sacrificar para se construir a auto-identidade. O AVESSO é a parte oculta do discurso que se mascara a rejeição do outro, do diferente, co concorrente. A identidade discursiva se constrói na relação com um outro presente lingüisticamente. INTERTEXTO: é o conjunto dos fragmentos que o discurso cita efetivamente. INTERTEXTUALIDADE: abrange os tipos de relações intertextuais definidas como legítimas que uma formação discursiva mantém com outras. Interna – quando pertence ao mesmo campo e Externa – quando dialoga com outros campos. MEMÓRIA DISCURSIVA – torna possível a formação discursiva fazer circular formulações anteriores, já enunciadas. Essa noção implica o estatuto histórico do enunciado inserido nas práticas discursivas reguladas por aparelhos de Estado. Elege um determinado fato histórico e rejeitam outros, recupera arte do passado e eliminam outros. ENUNCIAR – é situar-se sempre em relação a um já-dito que se constitui num outro do discurso” p.77 “Na medida em que retiramos de um discurso fragmentos e inserimos em outro discurso, fazemos uma transposição de suas condições de produção. Mudadas as condições de produção, a significação desses fragmentos ganha nova configuração semântica”. MEMÓRIA LACUNAR – são os vazios, os esquecimentos deixados pela memória oficial e que produz um efeito de inconsistência. Esse efeito é ideologicamente neutralizado pelas manobras discursivas, que homogeneízam e monoformizam as dessemelhanças. Anulam os desníveis, planificam a heterogeneidade. É o processo de apagamento. A.D. - Volta-se para o exterior lingüístico, procurando apreender como no lingüístico inscrevem-se as condições sócio-históricas de produção. Na reduz o discurso a análise puramente lingüísticas. Sua missão é aflorar as contradições onde a ideologia linealiza. Revela o múltiplo na materialidade do discurso: antagonismos, alianças e dissimulações. É contra a cristalização dos sentidos. O discurso representa os efeitos das contradições ideológicas no interior da língua. Bibliografia BRAGA, M. Produção de linguagem e ideologia. Cortez, 1980. MACHADO, R. Ciência e Saber: a trajetória da arqueologia de Foucault. Graal, 1981. DUCROT, O. O dizer e o dito. Pontes, 1987. Glossário ASSUJEITAMENTO = INTERPELAÇÃO: fazer com que o indivíduo, sem que tome consciência, seja levado a ocupar seu lugar, a identificar-se ideologicamente com grupos ou classes. AUTOR: é a função social que o sujeito falante assume enquanto produto da linguagem DISCURSO: é o efeito de sentido construído no processo de interlocução. “Aquilo que ele diz tem significado com o que ele não disse”. ENUNCIAÇÃO: emissão de um conjunto de signos que é produto da interação de indivíduos socialmente organizados. É marcada pela singularidade. Acontece no tempo e espaço. ENUNCIADOR: é a figura da enunciação que representa a pessoa cujo ponto de vista é apresentado. É a perspectiva que o locutor constrói e de cujo ponto de vista narra, quer identificando-se como ele quer distanciando-se dele. FORMAÇÃO DISCURSIVA: é o conjunto de enunciados marcados pela mesma regularidade, pelas mesmas regras de formação. Ela se define pela relação que mantém com a formação ideológica. Os textos que fazem parte de uma formação discursiva remetem a uma mesma formação ideológica. Determina o que pode e deve ser dito a partir de um lugar social historicamente determinado. Um mesmo texto pode aparecer em formações discursivas diferentes, acarretando variações de sentido. FORMAÇÃO IDEOLÓGICA – é constituída por um conjunto complexo de atitudes e representações que dizem respeito às posições de classe em conflitos umas com as outras. FORMAÇÃO SOCIAL: caracteriza-se por um estado determinado de relações (antagônicas, dominância e alianças) entre as classes que compõem uma comunidade em um determinado momento de sua história. INTERLOCUÇÃO – processo de interação entre indivíduos através da linguagem verba ou não-verbal. INTERTEXTO – compreende o conjunto dos fragmentos que o discurso cita efetivamente. INTERTEXTUALIDADE – abrange s tipos de relação que uma formação discursiva mantém com outras. LINGUAGEM – na perspectiva discursiva, não é vista apenas como instrumento de comunicação e transmissão de informação. É interação, lugar de conflito, de confronto ideológico em que a significação se apresenta em toda sua complexidade. POLIFONIA – refere-se à qualidade de todo discurso estar tecido pelo discurso de outro, de toda fala estar atravessada pela fala do outro. SENTIDO – para A.D.. não existe um sentido a priori, mas um sentido que é construído, produzido no processo da interlocução, por isso deve ser referido às condições de produção do discurso. O sentido muda, caso também mude a formação discursiva. SUJEITO – Para a A.D., é socialmente compreendido, interpelado pela ideologia. O sujeito não é a origem, por que na sua fala outras falas se dizem. SUPERFÍCIE DISCURSIVA: é constituída pelo conjunto de enunciados pertencentes a uma mesma formação discursiva. FOUCAULT “Não se diz o que se quer, em qualquer situação e de qualquer maneira”. “Analisar o discurso é fazer desaparecer e reaparecer as contradições” p.40 “As diferentes formas de poder fabricam diferentes tipos de individualidades”. Funções enunciativas do Sujeito Falante (modos hierarquizados de apagamento do sujeito): LOCUTOR – aquele que se representa como eu no discurso. É quem diz. ENUNCIADOR – é a perspectiva que esse eu constrói. É o sujeito divido em suas várias posições no texto.AUTOR – é a função social que esse eu assume enquanto produtor de linguagem. É a ação do discurso sobre o sujeito. É a origem das significações. A linguagem está sob forte controle social. ILUSÃO DO SUJEITO: pensa que é fonte do que diz, mas, na verdade, retoma sentidos preexistentes e inscritos em formações discursivas determinadas. O autor implica uma inserção do sujeito na cultura, uma posição dele no contesto histórico-social.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Entrevista com o historiador dr. Justo González

Entrevista concedida para o site Teologia Brasileira, durante o 1º Congresso Hagnos e Servo de Cristo.
PARTE 1
Justos Gonzalez ensinou teologia histórica em diversas instituições, entre elas o Seminário Evangélico em Porto Rico, a Escola de Teologia Candler na Universidade Emory, e o Seminário Teológico Columbia. Durante os últimos 30 anos, ele desenvolveu programas de formação teológica para hispanos. Seus diversos livros sobre a história da igreja foram traduzidos para diversas línguas e são amplamente usados em todo o mundo. Entre eles, temos no Brasil a série Uma História Ilustrada do Cristianismo (10 volumes) e Cristianismo na América Latina: uma história que será lançado no segundo semestre de 2009, também por Edições Vida Nova.
Teologia Brasileira: O que o motivou a estudar “história”, especificamente, “história do cristianismo”?
Justo Gonzalez: Quando eu era jovem, a matéria que eu mais odiava na escola era história. Eram muitos nomes, muitas datas, muita memória e pouca vida. Mas depois, quando eu fiquei um pouquinho mais velho e comecei a estudar Teologia, vi livros de bons teólogos e os melhores sempre falavam de seus antecessores, de gente que eu não conhecia. Havia um livro muito famoso, A teologia Dogmática de Karl Barth, que era um livro muito grande. Quando comecei a ler esse livro, cada página tinha 10, 12 nomes de pessoas que eu não sabia quem eram. Pessoas do século segundo, do século quinze, do século quarto. Naquela época, eu também estudava Filosofia, e logo notei que era impossível estudar Filosofia sem estudar a História da Filosofia. Os cursos de Introdução à Filosofia sempre começam com a Filosofia Grega. Da mesma forma, não é possível estudar Teologia sem conhecer a História da Teologia. Foi isso que me levou a estudar a história do cristianismo. Hoje me interesso mais pela história porque percebo que a História fala da vida dos povos, da vida de homens e mulheres, de quando essas pessoas viviam, as obras que esculpiam. Isso tudo era tão importante para eles como nossa vida é para nós hoje. Por isso não tem nenhuma razão para a História ser algo chato, muito pelo contrário. Você lê um romance histórico, um romance sobre o rei Carlos V e fica muito impressionado porque é ali está a história da vida dele.
Teologia Brasileira: Existe uma história do cristianismo separada da História?
Justo Gonzalez: Existe, mas não deveria existir. Lamentavelmente, a História do cristianismo é escrita com exclusão da História geral da humanidade. No entanto, acho que isso não é bom dos pontos de vista teológico, metodológico e também pedagógico. Não é bom teologicamente porque nosso Senhor é o Senhor da História, toda a História está em suas mãos. É evidente que na história há também pecado, mas Jesus é o Senhor da História e nós aguardamos o fim da História. Logo, não é possível falar da História da humanidade sem falar da História de um Deus que age dentro dessa história. Portanto, não deveriam existir duas Histórias. Isso que fazemos nas escolas de separar a História secular não deveria existir. E ao mesmo tempo não é correto, pois a História da Igreja, a vida da igreja tem lugar sempre dentro do contexto da vida geral da humanidade. Você não pode falar da igreja no Brasil, sem falar do Brasil. Você não pode falar das mudanças que têm ocorrido na igreja brasileira nos últimos cinquenta anos, sem falar das mudanças que têm ocorrido na história do Brasil como país inteiro nos mesmos cinquenta anos.Teologia Brasileira: Em termos de pensadores da história cristã, quais as influências mais marcantes em sua história pessoal?Justo Gonzalez: Ah! São muitas, muitas, muitas. Originalmente, quando eu era mais jovem, as influências mais marcantes foram principalmente Martinho Lutero e Agostinho. Depois, Irineu passou a ser mais importante para mim. Ele foi teólogo e bispo na França do final do século segundo. Outra influência foi Karl Barth. Karl Barth foi um teólogo suíço que protestou veementemente contra o nazismo e que criou uma nova maneira de se fazer Teologia no princípio do século XX, por sinal algo que gerou muita discussão. Além desses que citei, tem também meu pai, minha mãe, minha mãe, minha esposa; todos são teólogos que tem me influenciado muito.
Teologia Brasileira: Na sua opinião, o testemunho da igreja cristã tem apresentado uma postura coerente em relação à unidade da igreja?
Justo Gonzalez: Coerente sim, mas boa não. É coerente, mas ruim. O testemunho da igreja tem perdido muito por dois motivos, que são ambos negativos. O primeiro é uma divisão constante, segundo a qual cada igreja pensa que fica só no mundo de Deus, que só ela é igreja. Isto é verdade em igrejas grandes e também em igreja muito pequenas; o problema é o mesmo. Outro problema, outro extremo é quando a unidade da igreja se torna algo administrativo, muitas vezes ditatorial, não voluntário. Os dois são problemas, a unidade da igreja não é apenas unidade: um chefe, um papa, um bispo, um grande pastor. Essa postura fez muito mal para o testemunho cristão.
Teologia Brasileira: Para o sr., quais seriam hoje as formas veladas de intolerância religiosa?
Justo Gonzalez: Muitas não são tão veladas. Naturalmente há intolerância religiosa em todas as religiões e temos de ter cuidado quando falamos em tolerância religiosa entre os cristãos. Há também muita intolerância religiosa entre os muçulmanos, entre os hindus. Agora mesmo um grupo de cristãos tem saído de seus territórios porque os vizinhos estavam matando. O governo diz: “Nós podemos protegê-los, vocês devem regressar às suas casas mas devem ficar em dois para não ter problema”. Isso acontece na Índia agora no século XXI, e principalmente nos países muçulmanos. Agora não acontece com os cristãos. Há muitas e muitas formas de intolerância religiosa. Eu acho que, em nosso contexto particular na America Latina, possivelmente a forma mais velada é a intolerância de alguns chefes, de alguns pastores de igrejas muito grandes que querem que todo mundo pense exatamente o que eles pensam ponto por ponto, de A a Z. Fazem tudo isso para manter o povo, levando-o a fazer o que eles dizem. Isso é intolerância religiosa também. Intolerância religiosa não é um problema só da igreja romana, é um problema de todos os cristãos que acreditam ser possuidores da verdade. O cristão não possui a verdade, a verdade possui o cristão.

domingo, 13 de setembro de 2009

Fuso Horário - Acre

FONTE: http://diegonovaes.blogspot.com/2008/09/poderes-globais.html
(...) "a tentativa de alteração do fuso horário brasileiro sem debate público não é nova, mas com a última onda de pressão sobre os parlamentares, e com a postura submissa destes em relação ao principal grupo de comunicação do país, o que parecia impossível tornou-se uma possibilidade real. Na noite de hoje, 11/4, quatro dias após a entrada em vigor da regra do horário local para a programação de TV, o Senado Federal aprovou em plenário o Projeto de Lei do senador Tião Viana (PT-AC) que altera o fuso horário nessas regiões". (...) Para quem ainda se surpreende com a submissão dos poderes públicos aos interesses mercadológicos, em detrimento da cidadania, o artigo prossegue destacando que, depois dessa vitória, a ofensiva da Globo aumentou: a empresa de comunicação deverá fazer novas investidas, no sentido de tentar derrubar a classificação indicativa."

http://diegonovaes.blogspot.com/

Nazismo

http://cafehistoria.ning.com/video/o-nazismo-proftiago-menta

sábado, 12 de setembro de 2009

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O mito da acreanidade

Por Francisco Aquinei Timóteo Queiroz 09/02/2006 às 21:12

Este artigo levanta uma discussão sobre o mito e a forma como ele se manifesta em nossas vidas. O cenário de minha análise é o meu estado (ACRE), boa leitura. O mito é um discurso e seu enunciado reproduz uma "história feérica" da sociedade; os heróis suprem o imaginário popular através da ascensão ou dos feitos grandiosos cuja função é inocular na "alma coletiva" os símbolos e signos que envolvem os sujeitos sociais.

A narrativa mítica ajusta-se a cada época, momento político e poder central, ratificando uma ideologia e uma gama de significados. A imanência do mito deve-se a sua diacronia significativa, ou seja, a sua atemporalidade semântica. O mito não encerra uma fala centrada no tempo (passado, presente ou futuro); posto seja o resultado de uma ressemantização contínua.

A imagem mítica suscita também uma forma de poder que se mantém viva através do inconsciente coletivo, que é a camada mais profunda da mente humana. Nessa atmosfera amorfa em que pairam todos os pressupostos constituintes da sociedade; pairam também os mitos, que assumindo um formato reticular integram sub-repticiamente toda a diversidade abstrata do pensamento humano. Tomemos como exemplo a figura de Tiradentes.

Sua imagem não encarna o ideal de liberdade ou democracia; antes estas características só se tornam patentes quando as analisamos a partir de uma hagiografia mítica, ou seja, sua imagem só permanece no inconsciente coletivo porque está envolta em uma transcendência, isto é, na sublimação de sua aparência.

Nilson Lage aludindo Roland Barthes diz o seguinte: "o mito como unidade do discurso: signo lingüístico apropriado para significar outra coisa, de modo que instaura uma duplicidade de entendimentos, inocenta as violações à regra social e a mantém viva ainda quando desmentida pelos fatos." (Nilson Lage, 2001, 76).

Assim sucede aos heróis e à constituição dos brasileiros e do acreano; pois a duplicidade significativa destila tantos sentidos que a assimilação mítica só se torna possível com a criação de novos mitos. É uma "invenção" invariavelmente cíclica que se deixa eternamente interpretar; com isso temos que ver o mito com um olho na sociedade que o produziu e outro olho nos demais mitos que permeiam o contexto social, porque é dessa ambigüidade que ele se nutre.

O mito fundador do Estado do Acre A história acreana não está centrada nos sujeitos coletivos (seringueiros, índios), estes são meros coadjuvantes encenando uma história que é engendrada por outrem. O seringueiro é apenas um nome, semantizado em um desvão de nomes: são apenas emblema do ofício que executam, são "coisas", são sujeitos reificados.

A figura do índio está inclusa no velho preceito evolucionista que os coloca num patamar de inferioridade em relação aos outros indivíduos, não atendendo ao estereótipo do herói que se deseja materializar para a história. A sede pelo portento, pelo maravilhoso instaura algo que não se prende no tempo; por isso a figura do herói é tão importante para a configuração do mito, porque ela encarna a aura de um povo.

O mito fundador acreano não se firma com a chegada de Neutel Maia no final do século XIX; e, sim com a luta entre brasileiros e bolivianos que finda com a assinatura do Tratado de Petrópoles em 1903. Figuras como Plácido de Castro e Galvez passam a fazer parte do imaginário coletivo, constituindo-se em verdadeiros mitos identificatórios de um povo e de uma cultura.

São heroificados sob a égide de interesses e para a manutenção de uma memória coletiva. Ora, para a coesão do Território do Acre fazia-se necessário a elevação de sujeitos individuais para a "arquitetura sígnica" e historiográfica de uma coletividade cheia de ambigüidades e visões antagônicas. Portanto, a proposição "mítico-ideológica" tem a função de suavizar as dessemelhanças, instaurando por meio de símbolos, ícones e índices formas sutis e aparentes de realidade.

Plácido de Castro é uma figura marcante da história acreana, exemplifica a partir de sua existência a convergência simbólica de que se nutre uma gama dispare de pessoas. Forma-se um arquétipo mítico no qual todos os cidadãos vêem ressaltadas, sem duplicidade, as qualidades e o vigor audaz dos acreanos, isto sem contradições ou erros. É o passado presentificado a todo momento cujo objetivo é criar uma unicidade inconteste.

Sua imagem firma-se como insígnia da luta, da força e da valentia; torna-se uma espécie de semideus pairando na secularidade do tempo e vivo nos sentidos míticos que o heroificam para a eternidade. A Florestania constitui um mito, que através do discurso político tenciona unificar toda a sociedade sob sua égide. Deseja-se construir uma identidade a partir da configuração regional; entretanto, um pressuposto fica patente nesse enunciado: não é a Florestania que se afirma, mas a legenda partidária que a utiliza como retórica discursiva de seu governo.

Portanto, a Florestania é uma fala mítico-ideológica que se propõe a criar símbolos identificatórios e ordenar discursos políticos, salvaguardando suas oposições. Parque da Maternidade A construção semântica se dá também com a criação de espaços de lazer. O Parque da Maternidade representa um marco, um sinal de mudança que sempre remeterá ao governo Jorge Viana.

O mito não é apenas um discurso ordenado e homogeneizador; é visível a partir das estruturas que o comportam e validam. Estes espaços são o "pão e circo" modernos, porque têm o papel "lúdicocatártico" do convencimento aparente; são antes manutenção da fala do que aplicabilidade democrática, isto é, são espaços sígnicos de poder.

Semióforos midiáticos A imagem televisiva é um processo vicário do real, transcendendo-o. Os semióforos midiáticos apoiam-se na verossimilhança para criar seus mitos e montar seus discursos. Cria-se uma fidelidade platônica com a imagem em contraposição às incertezas práticas do real, ou seja, a imagem vale mais do que a objetividade do real.

O grande inconveniente dos semióforos midiáticos e que precisam ser ressemantizados continuamente, atendendo aos interesses dos grupos de poder. Portanto, os semióforos televisivos são simulacros discursivos que estão assentados numa suprarrealida

Da guerra

José Luís Fiori 09/09/2009
Entre 1495 e 1975, as grandes potências estiveram em guerra durante 75% do tempo, começando uma nova a cada sete ou oito anos. Mesmo nos anos mais pacíficos desse período, entre 1816 e 1913, essas potências fizeram cerca de 100 guerras coloniais. E, ao contrário das expectativas, a cada novo século houve mais guerras do que no século anterior. (J. Levy, "War in the modern Great Power System", Ky Lexington, 1983) Por isso, pode-se dizer que as guerras foram a principal atividade dos Estados nacionais europeus, durante seus cinco séculos de existência e, agora de novo, o Século XXI já começou sob o signo das armas.
Mas, apesar disto, segue sendo um tabu falar e analisar objetivamente o papel das guerras na formação, na evolução e no futuro do sistema interestatal capitalista que foi "inventado" pelos europeus nos Séculos XVI e XVII e só se transformou num fenômeno universal no Século XX. Talvez porque seja muito doloroso aceitar que as guerras não são um fenômeno excepcional, nem decorrem de uma "necessidade econômica". Ou porque seja difícil entender que elas seguirão existindo, mesmo que não ocorram enfrentamentos atômicos entre as grandes potências, porque não precisam ser travadas para cumprir seu "papel" dentro do sistema interestatal. Basta que sejam planejadas de forma complementar e competitiva.
À primeira vista, tudo isso parece meio absurdo e paradoxal. Mas tudo fica mais claro quando se olha para o começo desta história e se entende que o sistema mundial em que vivemos foi uma conquista progressiva dos primeiros Estados nacionais europeus. E desde os seus primeiros passos, esse sistema nunca mais deixou de se expandir, "liderado" pelo crescimento competitivo e imperial de suas grandes potências, que lutam para manter ou avançar sua posição relativa dentro do sistema.
Por isso, tem razão o cientista político norte-americano John Mearsheimer, quando diz que "as grandes potências têm um comportamento agressivo não porque elas queiram, mas porque elas têm que buscar acumular mais poder se quiserem maximizar suas probabilidades de sobrevivência, porque o sistema internacional cria incentivos poderosos para que os Estados estejam sempre procurando oportunidades de ganhar mais poder às custas dos rivais...". (Mearsheimer, "The tragedy of the great powers", 2001: 21).
Nesse processo competitivo, a guerra, ou a ameaça da guerra, foi o principal instrumento estratégico utilizado pelos Estados nacionais para acumular poder e definir a hierarquia mundial. E as potências vencedoras - que se transformaram em "líderes" do sistema - foram as que conseguiram conquistar e manter o controle monopólico das "tecnologias sensíveis", de uso militar. Mas essa competição por tecnologia e pelo controle monopólico dos recursos bélicos deu origem à uma dinâmica automática e progressiva de preparação contínua para as guerras, numa disputa que aponta todo o tempo na direção de um império único e universal.
Paradoxalmente, esse império não poderá ser alcançado sem que o sistema mundial perca sua capacidade conjunta de seguir se expandindo. Por quê? Porque a vitória e a constituição de um império mundial seria sempre a vitória de um Estado nacional específico. Daquele Estado que fosse capaz de impor sua vontade e monopolizar o poder até o limite do desaparecimento dos seus competidores. Se isto acontecesse, entretanto, acabaria a competição entre os Estados e, nesse caso, os Estados não teriam como seguir aumentando o seu próprio poder.
Ou seja, nesse sistema interestatal inventado pelos europeus, a existência de adversários é indispensável para que haja expansão e acumulação de poder e a preparação contínua para a guerra é o fator que ordena o próprio sistema. Assim mesmo, como a "potência-líder" também precisa seguir acumulando poder para manter sua posição relativa, ela mesma acaba atropelando as instituições e os acordos internacionais que ajudou a criar num momento anterior. Ela é quem tem maior poder relativo dentro do sistema e, por isso, ela é que acaba sendo, quase sempre, a grande desestabilizadora de qualquer ordem internacional estabelecida.
Agora, a preparação para a guerra, e as próprias guerras, nunca impediram a complementaridade econômica e a integração comercial e financeira entre todos os Estados envolvidos nos conflitos. Pelo contrário, a mútua dependência econômica sempre foi uma peça essencial da própria competição. Às vezes predominou o conflito, às vezes a complementaridade, mas foi essa "dialética" que se transformou no verdadeiro motor político-econômico do sistema inter-estatal capitalista, e no grande segredo da vitória europeia sobre o resto do mundo, a partir do Século XVII.
Entre 1650 e 1950, a Inglaterra participou de 110 guerras aproximadamente, dentro e fora da Europa, ou seja, em média, uma à cada três anos. E entre 1783 e 1991, os Estados Unidos participaram de cerca de 80 guerras, dentro e fora da América, ou seja, em média, também, uma a cada três anos (M. Coldfelter, "Warfare and armed conflicts", MacFarland, Londres, 2002). Como resultado, neste início do Século XXI, os Estados Unidos têm acordos militares com cerca de 130 países ao redor do mundo e mantém mais de 700 bases militares fora do seu território. E assim mesmo devem seguir se expandindo - independente de qual seja o seu governo - sem precisar ferir necessariamente o direito internacional, e sem precisar dar explicações a ninguém.
Por isto, soa absolutamente cômica e desnecessária a justificativa de que as bases militares dos EUA na Colômbia têm a ver com o combate ao narcotráfico e à guerrilha local, assim como os argumentos que associam a instalação do escudo antimísseis dos EUA na fronteira com a Rússia ao controle e bloqueio de foguetes iranianos. Como soa ridícula, nesse contexto, a evocação do "princípio básico da não ingerência" na defesa das decisões colombianas, polacas ou checas. Nesse "jogo" não há limites e, por mais lamentável que seja, os "neutros" são irrelevantes ou sucumbem, e só restam duas alternativas, para os que não aceitam aliar-se ou se submeter à potência expansiva: no caso dos mais fracos, protestar; e no caso dos demais, defender-se.
José Luís Fiori é professor titular do Instituto de Economia da UFRJ e autor do livro "O Poder Global e a Nova Geopolític