segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Análise da letra da músida "ideologia" de Cazuza





Meu partido é um coração partido:




Perda da confiança nos partidos de esquerda da época e percepção de que, soluções breves estavam muito longe de se tornarem realidade, já que, o jogo da política engessa os mecanismos de mudança para proteger os próprios políticos e que, quem entra na política, em muito pouco tempo, funciona como mais uma engrenagem corrompida, de uma máquina viciada. Cazuza mencionava que, se deparar com tal visão, lhe partia o coração.



Minhas ilusões estão todas perdidas:



A perda da confiança de que o país vai mudar no tempo célere que todo jovem acredita ser capaz de modificar um complexo conjunto de questões econômicas, culturais e sociais. O Brasil é um país jovem, que apenas agora, 25 anos depois da música lançada, dá seus primeiros passinhos para se tornar um país mais sério, mais maduro, ainda que muito longe do ideal vislumbrado por Cazuza, na época da composição.



Os meus sonhos foram todos vendidos tão barato que eu nem acredito:



Muito comum na década de 80, os jovens eram extremamente idealistas, ávidos e despreparados, rapidamente, ao se depararem com a realidade DA VIDA, da nação e do mundo, viam que esses “sonhos” eram na verdade devaneios inconsistentes e Cazuza viajava muito nessa época para os EUA, tendo chance de perceber que as coisas na vida eram menos simples do que ele entendia anteriormente.



Aquele garoto que iria mudar o mundo freqüenta agora as festas do Grand Monde.



Cazuza disparava contra a burguesia da época, mencionando nessa frase, de modo obscuro, o fato de ele nascera no berço da sociedade cultural endinheirada carioca, se rebelou contra ela por uns tempos e depois, voltou a circular pelas festas da nata da elite carioca, há também fortes indícios de que ele esteja mencionando uma boate de São Paulo, chamada Grand Monde, do mesmo dono do Val Improviso, de “Só as mães são felizes”, ambas, boates de Transexuais e Gays, frequentadas por milionários, políticos e artistas da década de 80 Cazuza frequentava o submundo da Boca do Luxo em Sampa.



Meus heróis morreram de overdose e meus inimigos estão no poder.



Frase de alto impacto, artisticamente muitíssimo feliz, que, claramente referencia e reverencia Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix, entre muitos outros que, na década de 70 perderam suas vidas por overdose de drogas e álcool, fazendo uso da licença poética, Cazuza associa os trechos em síntese, narrando o momento (na época), como quem se queixava de que: seus grandes artistas e referências se perderam para as drogas e seus inimigos, “os militares” e forças autárquicas, jaziam estabelecidas no poder e havia muito pouco que pudesse ser feito.



Ideologia, eu quero uma pra viver:



Conjunto de valores que funde ideais políticos, estilo escolhido de vida, valores morais e conceitos pessoais, que norteiam a escolha de qual lado se vai estar, especialmente em sociedades profundamente desiguais, como era e ainda é a sociedade brasileira. Mencionar “eu quero UMA pra viver” indica que Cazuza se via confuso e desiludido com o andamento do país e que tinha mudado tantas vezes de “ideia”, que, sentia-se compelido a buscar um lugar que pudesse identificar como seu naquele panorama, Coisa difícil de ser conseguida com uma sequencia desastrosa de governos de: Itamar, Sarney e Collor, planos econômicos absurdos, confiscos de poupança e especialmente por uma sociedade apática que não reagia diante de desigualdades inacreditáveis e resquícios de ditadura; para piorar, a energia artística do Rock na época se esvaia, tornando a visão geral da coisa toda, no mínimo tenebrosa, restando a ele se confortar com a verdade de que ser artista e genial, não muda em quase nada certos mecanismos.



O meu prazer agora é risco de vida:



Ao vivo Cazuza cantava essa frase com a seguinte letra: “o meu tesão agora é risco de vida”, óbvio que ele mencionava o fato de que sua roleta-russa sexual, o tinha levado a uma condição em que ele poderia ser reinfectado ou infectar parceiros sexuais (lembrando que as pessoas portadoras de HIV podem se infectar por outros genótipos do vírus, complicando muito o quadro e o tratamento), Cazuza é um exemplo de força e luta contra a AIDS (se não o maior exemplo em todos os tempo) e levava seu tratamento de maneira muito séria, Cazuza é também uma das maiores referencias de amor à vida e fé de que tudo pode terminar bem, com ou sem a AIDS.



Meu Sex and Drugs no tem nenhum Rock’n’Roll:



Uma frase magistral de Cazuza que define seu estilo de vida pela máxima que vivera até então, a do Sexo, Drogas e Rock, muito usada na década de 70, aqui, Cazuza desabafa confessando que seu estilo de sexo e drogas não tem mais nenhuma “Bossa”, que é démodé e especialmente que, naquele momento, com a saúde já debilitada, fazer sexo desprotegido e usar drogas descontroladamente, não tinha nada de poético ou de estiloso, mas sim, era uma estupidez. (estupidez que ele não conseguia evitar, Cazuza bebia muito, mesmo tomando os coqueteis contra a AIDS), mas , reconhecia a estupidez como um fato presente.



Eu vou pagar a conta do analista pra nunca mais ter que saber quem eu sou:



Aqui entra o ego de grande estrela do Rock e de Pop Star, onde Cazuza vocifera mudar completamente de abordagem do seu problema, abandonar análise, médico, remédios e (transfusões de sangue de cavalo) “SIM, CAZUZA FEZ INCLUSIVE ISSO NA TENTATIVA DE VIVER UM POUCO MAIS E MELHOR”… ele ameaça jogar tudo pro alto e esquecer sua força e gana pela vida, coisa que em momento algum ele fez, mas vale a licença poética de se permitir mandar tudo pro inferno e sumir, aqui Cazuza fala nisso, em metáfora.



Pois aquele garoto que iria mudar o mundo agora assiste a tudo em cima do muro:



Demonstração clara de impotência e frustração, sem tomar partido e sem se posicionar (coisa que Cazuza nunca fez), logo a seguir, ele fuzilou a burguesia, os políticos, a sociedade e chegou a escrever “eu sou burguês mas eu sou artista”, “o bom burguês é bom operário”, portanto, aqui Cazuza faz uma piada consigo mesmo, como quem diz: “estou em cima do muro, pois não tenho o que fazer nesse momento, mas me aguardem”.



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Não podemos nunca esquecer que Cazuza tinha um humor ácido e sarcástico, azedo mesmo, o que lhe rendeu o apelido de Caju, anos depois modificado para Cazuza e que ele usa de um arsenal poético denso e contundente. consideremos que Cazuza adorava causar impacto e até certo estardalhaço, que era a estrela maior do Rock Nacional, considerado “O poeta” daquela geração, que esse disco é também o renascimento de Cazuza desde sua saída do Barão Vermelho e que fazia muito o gênero do: o que eu disse não quer dizer exatamente aquilo apenas, quer dizer muito mais ou, é muito mais simples do que você consegue ler. Esse era Cazuza e sua “Ideologia”, pra bom entendedor, meia palavra bastava e pros demais, ele usava sua verborragia agressiva e escondia por detrás de suas letra, de sua voz rouca, forte e debochada um ser humano cheio de conflitos, de uma genialidade indiscutivel e uma maneira linda de ver a vida e transcrevê-la em forma de canções. VIVA CAZUZA!!!



por:

Renato Sucupira

Letrista e Músico

2 comentários:

Anônimo disse...

Adorei a análise...Vocês estão de parabens!!!

FELIPE RIOS disse...

muito bom o analise, brigado, eu sou uruguaio conozco cazuza faz muito tempo.
mas com o passo do tempo gusto cada vez mais.

diculpem o mal uso de seu belissimo idioma
saludos