segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Escritos & Poemas de Renã Pontes, escritor e poeta acreano.

A LENDA DA PAXIÚBA: VERSÃO APÓCRIFA
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      Por Renã Leite Correa Pontes*

 Há não muitas luas, após ser submetido, com vitória, a um ritual de combate, tornara-se guerreiro-emplumado e saiu em missão: vigiar a fronteira do Norte, ameaçada pelos "peles de pano". Foram dias e noites de fome, frio, privações e agruras enfrentadas com paciência e abnegação.

Durante uma incursão do inimigo, na defesa, foi transpassado na virilha, mas escapou com vida e trouxe, aos anciões da tribo, informações que em muito serviram para resguardar a soberania da comunidade. Os anciões, cumprindo um bom papel, responderam magnanimamente. Na ausência de um sistema de saúde pública, liberaram dez arcos do tesouro comunitário para cobrir as despesas do tratamento.

O que o guerreiro, forçosamente chegado de missão, não sabia, era que, na sua ausência, na calada da noite, a "assembleia de pretextos" decidira, por escrutínio secreto, ceder à "oligarquia dos apuís" o monopólio dos rituais dos xamãs e, ainda, as patentes da manipulação de toda a biodiversidade da floresta, além de deslocar, para bem longe, o hospital homeopático:

- Agora, também, doente nenhum tem mais direito a acompanhante!
Na busca do socorro, alheio aos perigos do caminho, o jovem ferido percorreu, desacompanhado, a distância que conduzia ao hospital dos espíritos benzedores das ervas, sem compreender, ainda, a plenitude do significado da intermediação da milenar cultura guardada pelos pajés.

Depois de uma demorada e desgastante caminhada, o guerreiro chegou ao seu destino. Para adentrar o setor médico, onde outrora trabalhou o próprio Muratutzalipoca, segundo a tradição da tribo, era obrigatória a pronúncia de certas palavras místicas, além da realização de algumas misuras, aos olhos leigos, para ser atendido.

Cumprido o ritual, o doente foi atendido, na triagem, por um sujeito cujo comportamento mais se assemelhava ao de um encarregado de barracão, vestido de auxiliar de curandeiro - o chefe da assistência social, que acumulava também a função do setor de tesouraria.

 - Foi há sete luas...
 - E o pagamento?
 - Para o pagamento, eu trago dez arcos do tesouro dos anciãos, para trocar pelo chá encarnado.
 - Deixe-me ver, então, o ferimento.
 - Hummm, ai.
 - Não é ferimento de morte para um colosso feito você. Isto vai curar com chá de unha de gato mesmo, tomado por dez dias... Mas, você só trouxe dez arcos. Por este material, só posso lhe fornecer chá para cinco dias.
 - Mas, o certo não é eu tomar os dez dias? Eu preciso me curar porque o meu posto está abandonado, meu trabalho espera por mim.
- Veja só amigo, como está se processando o atendimento aqui agora. Por dois arcos, aqui, damos chá para um dia. Você trouxe dez arcos. Faça as contas e verá como estou no justo.
Mas....
- Vamos fazer o seguinte, você volta e vai falar com os colarinhos-brancos, diga que os anciãos já fizeram a parte deles e que você necessita de mais dez arcos e conta a sua história, que eles já conhecem as regras. Você é um guerreiro valoroso, tem serviço prestado e valores para penhorar. Você sabe como fazer.
- Ah, não, eu não vou entrar nestes esquemas. O meu avô dizia: "Dê a morte a um homem que a necessite para continuar homem.". Estas pessoas nos dão as coisas, mas, em compensação, cobram, de volta, a nossa consciência. Eu sei que estes privilégios individuais prejudicam a tribo e produzem o mal de uns, em detrimento do bem-estar de poucos, constituindo-se na causa principal do sofrimento do nosso povo. Eu posso morrer muito feliz sem precisar passar por estas humilhações.
- A franqueza do jovem irritou o funcionário, porque soou como uma crítica ao canibalismo das raposas, dita diretamente à chefa da raposada.
O interlocutor, então, pigarreou e retrucou
- Ah, então o jeito é você tomar chá só por cinco dias, o resto seu corpo reage. Mas, o que te custa mesmo ir lá?
- Não! Definitivamente, eu não vou cometer nenhum ato contra a minha consciência, nem o meu sentido de decoro moral.
- Veja, não é por má vontade, meu bravo, mas assim você me deixa sem alternativa. Você entende? São as novas regras...
E, se eu te entregar também o meu arco pessoal, minhas flechas e os meus "cestus" [1]? Eu a nada mais de penhorável possuo. Este arco, inclusive, é espólio de guerra. Pertenceu a um antigo chefe tucandeira e tem um valor simbólico em meio a nossos bravos.
Bem, com o seu arco, as flechas e os "cestus", eu poderia te dar sete doses e meia.
E, o doente persistiu na justa argumentação, com um tom de voz carregado de uma humildade inaudita:
- Olha, onze arcos não são pouca coisa, considerando que os curumins da nova geração não mais têm demonstrado interesse na arte de fazer arcos. Nós estamos sob ataques constantes, nos quais perdemos armas e vidas. A cada dia está mais comprometida a nossa segurança.
- Saiba meu bravo, eu compreendo sua necessidade e reconheço o seu valor e dedicação. E, para provar o interesse desta casa na cura de um dos nossos benfeitores, te dou oito doses, mas a associação fica com todos os implementos que você carrega consigo. Estamos em trabalho de resgate da nossa reputação institucional e, não queremos que nossos beneficiários saiam daqui pensando que não nos esforçamos o máximo para prestar um bom serviço. Sei que me entende!
Foi aí, então, que a impaciência do jovem guerreiro aflorou, motivada pela impossibilidade de êxito, ou quem sabe, pelo estresse do ferimento
- Sabe, desde que cheguei aqui hoje, tenho percebido que o senhor não tem demonstrado nenhuma preocupação com a minha cura, mas apenas em lucrar com a minha doença. Olha, esta instituição não está me prestando nenhum favor, além das suas obrigações. Reconheça que fui ferido em combate para proteger nossa tribo. Isso inclui o senhor, sua família e até esta instituição comercial que o senhor chama de casa.
Quando o jovem guerreiro pronunciou as últimas palavras, por tratar-se de uma tremenda verdade, o ânimo do encarregado da tesouraria atingiu a estratosfera.
- Bem, nestes termos, vou lhe dizer também a minha opinião a respeito das suas reclamações. A sua relação com os anciãos da tribo... Você tem que entender que aqueles velhos atiram com a flecha dos outros, têm palavra de político. Eu admiro a sua sinceridade, mas, na verdade, penso que você não passa de um megalomaníaco. Não é por sua falta que deixaremos de estar protegidos. Ademais, aqui, nós reconhecemos você é como um crítico acerbo dos costumes desta casa. Reconheça, também, que, em meio a tantos bravos que temos em nossas hostes, você é apenas um número passivo de reprodução.

Novamente ferido, desta vez, na alma, sentindo-se acuado. Nem os sete idiomas que falava, com fluência, foram capazes de fornecer, ao índio, uma simples palavra que fosse. O sofrido guerreiro, aspirando a cura, entregou resignadamente ao atendente, em troca da possibilidade de cura, a materialidade e o impulso da sua defesa.

No longínquo retorno à aldeia, por falha do serviço de contraespionagem, os implementos ora penhorados fizeram falta na defensiva. Ferido, cansado e com sede, o guerreiro solitário parecia presa fácil dos "pés de couro". Por ser ingrediente valioso e exportável, arrebataram-lhe o chá.
Com movimentos difíceis, descoordenados, o guerreiro defendeu-se com as últimas forças: correu pela mata, perseguido por gente descansada, transpondo troncos e riachos; ainda matou dezenas e dezenas de perseguidores, mas eles eram muitos; se trepou em uma bacaba, mas ela era fina e instável; na queda, foi novamente ferido e agravou a ferida já existente, vertendo o restante da vida. Por fim, resistindo, subjugado, recebeu o golpe de misericórdia e entregou seu alento a Tupã.

            Porque o sumiço do guerreiro causara comoção entre seus pares, a diretoria do hospital homeopático desvirtuou a história e pulverizou a notícia de que, na condição de internado, o bravo havia deixado o hospital sem autorização do corpo médico.... Espalharam ainda outros boatos nada lisonjeiros que amiúde a história contada pelo vencedor inspira.
Passadas três luas, os queridos de Ágrafo conseguiram encontrá-lo, e logo, colheram-lhe o corpo e o plantaram, a sete palmos, em local transmontano, sem direito a pompas fúnebres, depois da floresta da grande gameleira, na margem de lá do rio, a casa de Tupã.

           Mas, a verdadeira história, em detalhes, foi registrada no Akasha[2], quando Tupã a leu, comoveu-se e chorou... Em seguida, ficou aborrecido e, além de vingar a morte do guerreiro, limpou-lhe o nome, lavou-lhe a honra e fez brotar, da sua tumba, a palmeira conhecida pelo nome de paxiúba. A planta logo passou a servir para tudo: da tábua para habitações à confecção de flechas... era imponente, rija, hidrófila e resistente as intempéries do tempo de estio. Tupã também a fez fértil e reproduziu-a aos milhares pela floresta.

E, assim, um nome foi lembrado, a história do vencido foi contada e recontada aos curumins das tribos e, com a ajuda do alto, o jovem guerreiro seguiu, através da natureza, protegendo e servindo seu povo.

[1 O "cestus indígena" consistia em uma luva de batalha, geralmente utilizada, durante os combates, para ferir o inimigo e proteger os punhos dos guerreiros indígenas antigos. Quando incrustada de ossos, bicos de aves, dentes de animais ou outros componentes da floresta, manifestava sua versão mais letal (N. do A.).
 [2] Suposto livro da vida ou dimensão onde a natureza mantém, de acordo com tradições antigas de diversas civilizações, em registro, todos os acontecimentos humanos. Termo do sânscrito que significa "céu", "espaço" ou "éter" (N do A.).

* Renã Leite Correa Pontes
É escritor e poeta; Membro da IWA, Toledo, Ohio, EUA; Presidente da Academia dos Poetas Acreanos e Titular da Cadeira 33 da AAL.







CAMONIANO
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Por Renã Leite Correa Pontes

O mundo segue seu curso confuso:
amigos têm prazo determinado!
por isso, as vezes, mesmo censurado,
fazer amigos poucas vezes uso,

porque  percebo que o amor difuso,
dadivoso, fraterno e consagrado,
tem sido torpemente profanado,
por toda sorte de peçonha e abuso.

Amigo que me torne a natureza,
mais afável e repleta de beleza,
existe... em meu poema, em minha prece.

não sou iconoclasta resolvido,
mas, por aquele amigo que hei perdido,
pagaria a fortuna que eu tivesse.

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